segunda-feira, 22 de maio de 2017

Jogos en(cena)ação – Por Marta Teixeira

Montagem Teatral: Falando de flores.
Marta Teixeira: Atriz; graduanda de Licenciatura em Teatro UFPA; Participante do Minicurso de Crítica Teatral: “O que pode uma crítica teatral?”

Com base no que a história relata sobre a época da ditadura militar no Brasil Renan Coelho escreveu Falando Sobre Flores – apresentação que tem no elenco o próprio escritor e a acadêmica em Licenciatura em Teatro Demi Araújo.
Confesso que pensei que seria mais uma encenação falando da ditadura militar no país, mas fiquei feliz por ter pensado errado. A montagem utiliza jogos teatrais que a tornam mais dinâmica. Um desses jogos são os fatos ditos pelos atuantes para a plateia, mas não pela simples maneira de relatar e sim pela controversa deles – um é civil e participante do movimento contra a ditadura e o outro é um militar que trabalha no Departamento de Ordem Política e Social (D.O.P.S).
A peça tem início com uma música do rádio de época e logo em seguida ouvimos a notícia sobre os atos institucionais e suas censuras – a preocupação do civil ao pensar que tudo estava perdido, mas também o sentimento de esperança. A entrada inesperada do militar procurando Carlos Figueiredo, o agredindo fisicamente e o levando para o D.O.P.S e é nesse momento que começa o jogo emocional e o exercício da respiração.
A cada cena havia uma agressão física diferente, o militar não ia parar até o civil falar onde estava o chinês que foi sequestrado; no final de cada cena um dos atuantes comentava sobre seu lado na história – o militar dizia que o “regime” no Brasil foi quase um “mar de rosas” e o civil dizia como era a ditadura em Belém/PA e sobre a imprudência de militares que ocasionou a morte de pessoas inocentes/crianças.
Logo após cada agressão física, o militar dirigia a palavra a Carlos Figueiredo e era nesses momentos que eu percebia a falta de domínio do exercício de respiração. A atuante ficava ofegante todas as vezes que isso acontecia, é claro que não é fácil trabalhar com o emocional desse nível, mas o perceptível era que nesses períodos apenas o jogo emocional era presente, porque só depois de um tempo ela conseguia conciliar o jogo emocional com a respiração.
No final, Carlos Figueiredo já havia perdido sua esposa, seu filho e seus amigos mas mesmo tendo sofrido todos os tipos de agressão, principalmente o conhecido pau de arara, nunca perdeu a esperança de que a situação do país iria melhorar e acreditou nisto até o último momento de sua vida. O civil foi morto pelo militar na cela em que ficou desde que foi preso – nesse momento os atuantes, no último instante da cena final, não conseguiram segurar muito o emocional e deixaram a tristeza aparecer; mesmo assim, foi uma encenação bem sucedida.
22 de Maio de 2017
Montagem teatral:
Falando Sobre Flores
Direção:
Karine Jansen
Dramaturgia:
Renan Coelho
Atores:
Renan Coelho e Demi Araújo
Iluminação:
Luciana Porto
Sonoplastia:
Jairo dos Anjos
Aderecista:
João Calado



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