sábado, 4 de abril de 2015

Curso de Crítica em Teatro e Dança - recepção da obra Internamente

Detalhes da apresentação de Karina Castro - Internamente. Fotos: EDson Fernando
O silêncio e o vazio do palco compõem a paisagem inicial da dança(?) de Karina Castro; a cadeira do espectador (somente um por vez), o smartphone e o fone de ouvido encerram-nos na angustiante atmosfera provocada pela desconexão entre os elementos propostos: àqueles que vem a coreografia(?) sem ouvir a música, fruem(?) ou apenas são espectadores de um ato único e inusitado? A pagina em branco inicialmente proposta parece ser timidamente invadida por coloridos diferentes, captados na sutil aliança de olhares e sorrisos entre a dançarina(?) e o privilegiado que por um minuto porta o fone de ouvido. As peças desse quebra-cabeça proposto por Karina podem ou não se encaixar. A recepção desta obra – elaboradas pelos participantes do Curso de Crítica em Teatro e Dança – nos ajudam nas respostas.    

Recepção de Louise Bógea
Audácia
Quando a dançarina Karina entrou na sala, a minha impressão foi de uma jovem descolada naquele estilo hip-hop, que traria a todos muita agitação, sendo quase injusto ter de observá-la sem uma música. Pensei que o seu encanto seria roubado, mas eu estava enganada. Ao assisti-la, ainda da plateia percebi que os seus movimentos repentinamente bruscos e o seu olhar audacioso - sem desgrudar do seu observador particular - prendiam a atenção. Notei que, mesmo o observador sentado e ouvindo música, encontrava-se inquieto, enquanto que a artista parecia estar em sua total área de conforto. A cada vez que um participante entrava no mundo de Karina, era recebido com o seu talento, e imagino que cada um deve ter tido uma quase singular recepção dentro de si: desde sentimentos alegres até sensuais e melancólicos. Isto se deve à criatividade e admirável capacidade de improvisação da artista, ao expressar-se tão habilmente. Quando me tornei sua observadora, escolhi a música I see fire, de Ed Sheeran, e eu realmente pude ver um pouco do seu universo em chamas, que fez, principalmente, alguns dos rapazes demorarem de retirar aquele fone de ouvido. Em última análise, acredito que a plateia quase se levantou para ir ver Karina mais de perto, para se queimar também e se perder internamente em seus encantos.

Recepção de Álvaro de Souza
“Externamente”
Movimentos conexos – desconexos; grandes – pequenos; exagerados – sutis; e a dança. Dança? Gestos? Afinal, o que é dança?
Do lado de fora uma sensação, ao colocar o fone de ouvido, a interação. Assim é o movimento externamente do trabalho “Internamente” de Karina Castro. Um trabalho onde você tem dois momentos, a observação de movimentos de um corpo no espaço, que hora é bem marcado e hora, me pareceu um pouco perdido nesse espaço. Porém, um trabalho carregado de um vasto conhecimento e de uma partitura corporal, que impressiona, e que em alguns movimentos remete aos movimentos do cotidiano, outra a movimentos que não tem ao certo um sentido, apenas levado pelo que a articulação do corpo possibilita fazer, ou seja, o movimento pelo movimento, embalados pelas músicas que estão “internamente” gravadas na memória da dançarina e impregnadas no seu corpo. Movimentos que em alguns momentos são carregados de uma forte energia e uma força tamanha, entretanto, em outros momentos ela se perde, pela sutileza dos pequenos e frágeis gestos.
Assisti, participei e sai me questionando. Afinal o que é dança para Karina Castro? De onde vem a fluidez dos movimentos, que ao colocar o fone de ouvido, vão se encaixando nas batidas da música ouvida por mim no fone de ouvido. Será que é contar os compassos dos movimentos e isso de alguma forma ta ligado com os compassos das músicas?  É a batida do coração? Lembrei-me de uma experiência que eu tive com o projeto “Pau e Lata”, coordenado por Danúbio, em Natal no Rio Grande do Norte, quando o professor-coreógrafo nos disse, que o ritmo esta dentro de nós, e no inicio da aula, nos pediu para colocar a mão no coração e escutar o som da batidas, para nos fazer lembrar que todos nós temos ritmo, que o corpo esta sempre em movimento provocando sons e sensações, temos apenas que aprender a escutá-lo.
Essa lembrança me fez pensar na execução dos movimentos de Karina, que dança parecer estar conectada ao som das batidas de seu coração, apesar de alguns minuciosos e pouquíssimos movimentos, não estarem em perfeita harmonia com as batidas da música, ouvida no fone de ouvido, mas que não tirou o brilho e nem a magia de seu trabalho, que me fez viajar nas minhas idéias e logo imaginar um grande espetáculo, onde todos os espectadores, cada um com um fone de ouvido, ouvindo a música de sua preferência, e no palco, um corpo de bailarinos desenvolvendo os mais diversos movimentos corporais num espetáculo renovador.
Internamente sai extasiado, com a vontade de ficar ali ouvindo e assistindo a dança de Karina Castro, vontade quase incontrolável de entrar e dançar junto com ela, se não fosse pelo dedo do tempo, que me impediu e me trouxe de volta ao movimento externamente.

Recepção de Danielle Francy
A obra “Internamente” me fez pensar se, ao colocar o fone de ouvido, a música que iria tocar estaria de acordo com a dança interpretada por Karina Castro, e assim aconteceu. Cada gesto, cada passo, cada movimento feito pela dançarina acompanhava a melodia daquela música que, mesmo escolhida de forma aleatória, parecia ter sido escolhida a dedo por Karina.
Com um figurino básico e talvez o menos a ser observado, o que fala mais alto são os movimentos e o olhar com o qual Karina Castro envolve quem está à sua frente.
As batidas da música, desconhecida para mim, tomou uma magnitude ao longo de 1 minuto que foi rapidamente interrompido sem, no entanto, diminuir a sensação contagiante daquele momento. Se for essa a sensação que a obra “Internamente” deve provocar dentro do expectador, com certeza alcançou seu objetivo.

Recepção de Andrey Gomes
O teatro em sua natureza serve ao ator, sua engenharia é construída em torno dele, embora dependa da conexão com o público, propostas como a de Karina Castro rompem a 4° parede e atingem os limites da subjetividade.
Uma cadeira e um celular com fone de ouvido compõe a cenografia - somos convidados a selecionar uma música em meio às opções disponíveis no aparelho. A performance parece mais acompanhar a emoção de quem assiste, do que o ritmo da música; a conexão é tão precisa que tudo parece sincronizado, sensação de projeção onírica ensaiada em nossa intimidade.
A atriz dança e representa, ora movimentos clássicos, ora contemporâneos, uma performance única para quem vê e sente que o âmago é o objeto a ser atingido; ao levantarmos da cadeira, nos afastamos da experiência que antes infusa e imaginada internamente, tomou forma e correu livre em uma realidade que só na arte podemos penetrar.

Recepção de Paula Barros
Catarse
Como foi seu dia? Todos estão bem? Algum problema? O que te leva a ouvir música? E no fim qual o benefício da música sobre você? Ao sentar e ter que escolher uma música dentre muitas e em apenas um minuto observar a dançarina se expressar a minha frente, só posso dizer que o olhar penetrante de Karina e a música escolhida me despertou um choque de sensações diversas, que se deu através do meu estado emocional, com as emoções e a memória corporal da dançarina representado por seus movimentos. E por fim, as emoções podem ser expressa por uma palavra: provocante. Mas, a sua palavra pode ser outra, pois afinal cada espectador em um minuto tem a oportunidade de observar pelo seu olhar a catarse nos movimentos de Karina.

Recepção de Darciana Martins

O que falar de algo no qual me vejo constantemente, como atribuir desvalores a ao trabalho de alguém que tenho um apego, me vejo perdida nas próprias palavras quando me deparo no trabalho da Karina, ver como é difícil falar do trabalho de pessoas que você admira, trabalha, vive junto.
Quando ela propõe um trabalho chamado internamente onde às musicas embalam e conversam com teu interior, com teu corpo, tuas vivências, com o que ela dança pra você em particular. E como dançar todos os dias dentro do ônibus indo para aula, onde alguns expectadores percebem a sua dança interna e outros não...
Quanto o que para muitos parece loucura, improvisação, performance, para mim e meu despertar, meu bom dia para a vida. A Karina me faz entender que temos mais em comum do que eu imaginava, pois é difícil fazer com que os outros entendam a nossa essência, nossa dança.

Recepção de Carla Baía
 
Ao começar a apresentação, fiquei um pouco incomodada com a disposição das pessoas em relação à Karina Castro. A meu ver o fato das pessoas estarem vendo às outras assistindo a apresentação, influenciaria de algum modo como aquela informação seria recebida e acabaria com aquele “gostinho de surpresa”, esse foi o meu primeiro pensamento ao presenciar aquela cena.
Quando me senti mais confortável em ir, me levantei e sentei na cadeira. E naquele momento pude perceber o quanto tava enganada em relação ao meu primeiro pensamento. Pois naquele instante era apenas eu, a música e a Karina, lá dançando conforme ao que eu ouvia. Acredito que isso só foi possível porque o fone de ouvido tem esse poder de nos isolar do que acontece ao nosso redor.
Ao selecionar a música, não escolhi algo especifico, apenas fui à primeira música que estava ao alcance do meu dedo e quando cliquei, olhei para a Karina Castro, ela estava dançando lentamente, no mesmo ritmo da música, parecia que foi ensaiado, porém não foi o que aconteceu e era o que me deixava estática a observar cada movimento executado eu sentia que havia uma ligação entre nós, mas não sabia dizer o que era.
Ao termino da apresentação ficaram umas indagações em minha mente, afinal de contas, o que levava ela a fazer os movimentos que ela fazia? Será que ela imaginava uma música e dançava? O que levou ela a fazer esse trabalho. E quando finalmente chegou a hora dos comentários eu finalmente pude acabar com as minhas duvidas.A cada resposta dada por Karina Castro iam se preenchendo as lacunas de duvidas que existiam. Mas entre as respostas a que mais me chamou a atenção foi o que levava ela a executar os movimentos, nesse momento vi duas de minhas perguntas serem respondida e então eu pude entender.
Karina falou que não pensava em algo especifico, apenas procurava manter-se ligada com a pessoa através do olhar, procurando passar nos movimentos o que recebia em seu corpo através desse ponto de ligação. E foi quando clareou e eu abrir meus olhos com um ar de espanto, naquele dia em especial eu não estava bem, estava um pouco e perdida nos meus pensamentos tentando achar resposta de algo que eu não sabia o que era.
A música eu me lembro perfeitamente o nome, “amor de índio”, nunca tinha ouvido antes, mas gostei assim que ouvi, porque ela se conectava com os movimentos feitos por Karina, com o estado que eu me encontrava naquele momento, com o olhar que eu transmitia e parando agora para pensar lembro-me que era o mesmo olhar que tava no semblante da Karina, era como se eu tivesse me denunciando e pondo para fora o que eu não queria admitir nem para mim mesma. Era eu vendo diante de mim aquilo que eu estava guardando ou escondendo, não sei ao certo, mas era só meu ninguém sabia. Estava lá intimamente.



sábado, 28 de março de 2015

Curso de Crítica em Teatro e Dança - Recepção da obra Saudade do Sonho

Detalhe da apresentação de Saudade do Sonho, de Marileia Aguiar
Um túnel de chita. Um túnel de poesia conduzindo os olhares para a imensidão dos sonhos. A guardiã do túnel, Marileia Aguiar, com sua simpatia singular foi a grande responsável pela viagem inicial proposta aos participantes do curso de extensão de Crítica em Teatro e Dança que iniciou no último dia 23 de Março. Os olhares atentos e curiosos dos participantes foram desafiados a atravessar o túnel e compartilhar, com os leitores deste blog, suas impressões da obra Saudade do Sonho, da artista convidada.  O que segue abaixo é o primeiro exercício do curso onde são registrados textualmente a recepção da obra na visão de cada fruidor.      

Recepção de Andrey Gomes
Quando não se sabe o que se viu, e o que se vê
Dizem que o ato de criar é uma atribuição divina, e se for verdade, compartilho o espanto desta experiência através de suas provocações.
Como diferenciar o concreto do abstrato, o vivido, do sonhado? Se de fato o artista cria, ele pode desafiar a razão e quem sabe mudar as leis da física, se ela existir em sua realidade.
O que se vê: o véu sob a caixa guarda um segredo, mistério oculto dos transeuntes que nem o tempo e a chuva podem atingir; mas a caixa tem uma guardiã, disposta a rasgar o véu.
O desafio: quem ousa arriscar-se? Voluntários... ou escolhidos? Entre a desconfiança e o medo, a inocência, uma criança se arrisca e deslumbra o que vê. Inocência contagiante; tomo coragem.
  Rasgou-se o véu – uma imagem, algo perdido nos confins da memória ou reflexo de minha mente? Nessa imagem alguém lê, luta contra o sono, penumbra e luz em conflito, lamparina acesa.
O que se vê atravessa os primórdios do saber, pois é imagem animada, madeira ganhando vida através de mãos humanas, o segredo de qualquer arte.
  Fecha-se o véu – o sono vence, e com um sopro (o mesmo que dá vida) a lamparina se apaga. Perplexo olho ao redor e recebo a folha em branco, devo relatar.
Quando se repetirá?

Recepção de Cleide Sousa Fernandes
Numa primeira instância, o contato com a presente obra suscita imensa curiosidade ao espectador, observando os meios que se utilizam para transmitir tal apresentação… E, mesmo atendendo a falta de domínio textual (filantrópico), neste vasto universo da dramaturgia, atrevo-me a expressar um ‘olhar fixo e penetrante’ a essa performance de Mariléia Aguiar, observando as dificuldades que se podem atravessar, na busca pelo conhecimento; a necessidade que o indivíduo apresenta de saciar sua ‘sede de informação’, e com muita dedicação, esforço e abnegação, abre mão de determinadas necessidades básicas e inerentes a manutenção de seu próprio organismo, para então se entregar a essa incessante busca, visto que o avanço da ciência e da técnica tem marchado intimamente na carência do tempo, e no âmbito da arte, a expectativa vai aumentando cada vez mais e mais, numa perspectiva de se aprimorar o “senso crítico”, dando asas a imaginação e enriquecendo de maneira inovadora esse vasto universo.
Nessa incessante, paciente e laboriosa busca, o indivíduo se torna até mesmo capaz de “ignorar” suas próprias necessidades fisiológicas, pela satisfação de sua ‘carência’ e “valoração do seu ser”; uma delas ressaltada nessa obra, durante um período em que as imagens, sons, e até mesmo as vivências do quotidiano se propagam na memória, as idéias se tornam mais fluentes, as informações se ‘compactam’ e dão asas a imaginação, resultando num aumento da capacidade de produção do indivíduo e, na maioria das vezes, levando-o a uma sensação agradável, prazerosa e bastante estimada por muitos, o ‘sonho’, sonho de atingir ou até mesmo ambicionar uma fase da vida que todos anseiam, a “realização pessoal”.
E para finalizar, numa análise mais minusciosa, partindo de um contexto psicológico, ao observar a referida performance, a visão do indivíduo expectante também pode tomar uma direção mais pertinente, mergulhando na realidade que é a dimensão do pensamento, a complexidade das emoções, desejos e convicções; existe a liberdade de se cogitar a possibilidade da descrição de um momento em que o indivíduo passa por dificuldades de conseguir obter um ‘sono de qualidade’, que o possibilite então alcançar a fase de propagação do sonho, devido a algum processo psicopatológico ou algum provável ‘abalo emocional’, daí o título da obra “Saudade do sonho”. Já numa perspectiva mais filosófica, remete a ousar em ressaltar que o indivíduo enquanto responsável pelo seu próprio emponderamento, na busca pela informação, pode evoluir à uma ‘inquietude ambiciosa’, preocupado em alcançar aquilo que o deixa mais emotivo, o impulsiona a se inserir melhor no seu contexto social, enquanto um “ser pensante” e, pelo e que o leva à um estado e/ou sensação de realização pessoal.

Recepção de Danielle Francy
Antes de entrar em contato com a obra, ela provoca grande curiosidade. O fato de ser mostrada individualmente gera grande expectativa em quem espera, foi que gerou em mim.
Ao estar diante da cena do garoto lendo seu livro à luz do que me pareceu uma vela ou lamparina, vi um momento tão importante – a leitura – sendo representado de forma tão delicada e única.
O momento final do apagar da lamparina com o sopro da atriz dá a sensação do fim de um sonho, que na verdade não é o fim, mas sim o começo se pensarmos nas grandes possibilidades de sonhos que a leitura pode nos proporcionar.

Recepção de Darciana Martins
Vestida de poeta, Mariléia sempre agradável, conversa informal, uma expressiva maturidade. Em mim despertou a curiosidade de caixa umbilical, onde a interprete carrega com gosto.
Sempre espero por uma singela semelhança quando vejo um trabalho assim, porque sempre contam histórias no qual me identifico... Entrar no sonho de alguém é compartilhar um pouco do outro.
Ao ver aquela velha moça no sereno de sua lanterna, paginando seus sonhos... Vi-me de alguma forma ali... Um trabalho delicado, singular, preciso, me remete a muitas coisas, um olhar multifacetado e difícil de contornar, de fazer.
Remete-me ao trabalho árduo dos artistas de rua, minuciosos, dedicados, pessoas apaixonadas pelo que fazem... Vejo-me mais uma vez... É uma doação ao outro, sem pedir nada em troca... Só a sua entrega.
Quando um artista se dedica ao prazer da doação a arte, ele se entrega ao outro... Mais uma vez me vejo em uma caixa de pandora, onde as lembranças e o amor á arte se faz presente...
Blá a maturidade da arte...

Recepção de Emanuella Souza
Medo! Curiosidade! Surpresa... Foram estes os sentimentos da minha recepção de “Saudade do sonho”. O medo do que encontraria dentro de uma caixa tão bonita e misteriosa, segura pelas mãos de uma doce e simpática senhora, no entanto, este sentimento não durou muito, logo foi substituído pela coragem da curiosidade.  O que tem lá dentro? Ah! Não foi nada do que pensei! Foram tantos pensamentos, tantas ideias que no final a surpresa tomou conta de mim.
Que fantástico! Foi o meu pensamento, uma história simples, envolta em mistério, mas cheia de sentimentos, uma experiência única.

Recepção de Geane Oliveira
Caixa das lembranças
A poesia de um garoto ou quem sabe sua historia de ninar é visitada nas páginas de um livro. A imaginação o leva ao passado talvez, mas nem todas as lembranças lhe permitem vencer o pesado sono. A vela que se apaga seria o término do livro ou da luz da vida.
Sou transportada a minha remota infância, as mãos que manipulam o boneco são de minha avó, ouço suas palavras ainda que fora do mundo pequeno da caixa haja apenas o barulho da chuva. O dedo na cabeça do boneco são cafunés dos quais tenho saudades. Velavelavela, na verdade uma lamparina e o cheiro de querosene vêm acompanhado de um sobro e da frase: Já é hora de dormir para poder sonhar!

Recepção de Louise Bógea
Estávamos todos na sala, quando o professor Edson, ao perceber certa vontade de ação dos seus alunos, encaminhou todos para fora do recinto. Lá, começamos a presenciar a performance artística da Mariléia. De um pouco entediados, os participantes se tornaram atentos novamente. Confesso que aquela caixa colorida, os movimentos das mãos da artista pelas laterais do objeto e o seu olhar sob a fresta estavam realmente me deixando curiosa. E não posso esquecer daquele seu pequeno assopro, ao final de cada performance, após quase três minutos de expectativa. Eu achava que não poderia ficar ainda mais curiosa: engano meu. E, de bônus, ainda me senti medrosa. Um garotinho, ao furar a nossa pequena fila, encorajou-me a sentar naquela cadeira e a cobrir a minha cabeça com o pano colorido, para observar o que, enfim, havia dentro da caixa misteriosa. Ele, sorrindo, enfiou o rosto ali, para depois sair entusiasmado e saltitante, preenchendo-me de curiosidade. Forcei-me a decidir que chegara a minha vez e sentei na cadeira. Para a minha surpresa, sorri também. Ao ver aquele pequeno boneco lendo, sob a luz de uma pequena lamparina, senti-me saudosa. Não sei dizer o porquê, mas lembranças me invadiram, e, com elas, a solidão. Comecei a sonhar com aquela cena que me fora apresentada, mesmo com mais de vinte pessoas lá fora. A minha atenção havia sido quase que magicamente roubada, e já não queria acordar. Em certo momento, porém, junto ao silêncio que se formou, os dedos, ao passarem as páginas do livrinho – ou talvez a expressividade do boneco? –, tornaram aquele ambiente um tanto macabro. Detectei um pouco de sinistro naquilo tudo, em meio à calmaria de antes. Enquanto o pesadelo se instalava e interagia com a minha alma, a luz se apagou, retirando-me dali. Neste instante, entendi o sorriso no rosto dos outros participantes, ao término da experiência: eles também estavam com medo que nem eu. Em uma última análise, e com saudade do sonho, digo que Mariléia conseguiu arrancar sorrisos dos críticos sérios.

Recepção de Ludimilla Cunha
Num momento, o desconhecido que a escuridão abraça. É novo e oculto inicialmente, porém, quando a cortina se levanta, os olhos se abrem e a escuridão dá lugar à luz de lamparina, percebo como cada canto se parece um tanto com os da minha casa. Como se cada centímetro ganhasse ar de gigantesco nesse tempo que é largo e também escasso, como o tempo dentro de uma caixa de sonhos que tenho por hábito chamar de vida.

Recepção de Malu Rabelo
A obra "saudade do sonho" da atriz Mariléa Aguiar veio á calhar com o primeiro dia de aula do curso. Aquela caixa conduzida por ela combina com a curiosidade e timidez do primeiro encontro.
Mas o que faz essa mulher parada ali na sacada? Com uma caixa pendurada ao pescoço? Usa uma roupa listrada que me fez lembrar dos judeus, um sorriso amigável e convidativo.
O silêncio impera a cena, todos que iam até a caixa, saiam de lá com uma expressão mansa e um leve sorrio, esticavam o corpo pareciam querer alcançar algo? Bem, chegou a minha vez, entrei naquele túnel de chita sem criar expectativas, sem esperar nada, queria vê se ia ter que me esticar também ou se ia sair com aquele leve sorriso.
Quando entrei ali, vi um menino, tava sem roupa ao contrário da mulher, ele esfolheava um livro compenetrado, com apreço e atenção que incomodava a ponto de querer vê, enxergar o que tinha ali. Foi ai que percebi a luz que iluminava a cena, ela me conduzia a isso, a querer ver. Vinha de cima da mesa, tinha uma espécie de luz arcaica, uma lamparina (que na verdade, era um led, provavelmente funcionando através de uma bateria de uns 9v) não deu para não me voltar para a luz e pensar como tinha feito aquela gambiarra. A luz criava a temperatura do ambiente me permitindo entrar naquele sonho. Quando comecei a pensar demais, ela veio e fuuu! Apagou minhas instigações num sopro, acabou o folhear do livro o menino cansado, adormeceu e eu acordei de um sonho fantástico que aquela mulher me proporcionou.

Recepção de Paula Barros
O ALIMENTO
A curiosidade provoca sensações. E a primeira que me foi desperta, foi a expectativa do que esperar, em seguida a ansiedade de querer descobrir o que se passava dentro daquela pequena caixa, a partir daí, mesmo ansiosa por querer ir logo, me permitir esperar. Então comecei tentando perceber as reações dos olhares que saiam depois de observar a pequenina caixa, e a curiosidade aumentou a medida que as pessoas começaram a esboçar risinhos de cumplicidade com a atriz; alguns demoravam mais, outros menos, mas os risinhos permaneciam, e a atriz sempre atenta ao trabalho, que ao fim terminava com um sopro para dentro da caixa; e quando sem mais poder esperar, fiz com que chegasse minha vez, e na escuridão se acendeu uma pequena luz, uma luz de vela, era algo tão simples, um menino sentado numa sala com um livro e a atriz o “alimentava”; com as mãos ela fazia com que vagarosamente pudesse absolver aquela “sopa de letrinhas” e ao fim ela desligava a vela com um sopro. Assim, me foi desperta outras mais sensações o primeiro o esquecimento do mundo fora daquela agora sala, o segundo procurar saber o que estava escrito naquele livro, mas o momento era tão belo que mais uma vez me permitir, dessa vez de outro modo, através do menino e sua leitura eu vaguei no imaginário e no mundo que agora eu podia visitar e me alimentar o do sonho.

Recepção de Silvia Teixeira
Como fiquei com vontade de roubar as palavras ou as frases daquele livro... Mas da janela não daria.
O que será que aquela garota tanto lia? Estiquei-me para um lado e para o outro, mas não consegui ler nenhuma letrinha. Nem ao menos saber se a obra era em português. Mas que garotinha egoísta! Nem percebeu que havia uma pessoa que queria ler. Será que estou sendo egoísta também? Pois ela estava tão concentrada, talvez nem estaria ali; quem sabe em uma praia, ou até mesmo passeando nos lindos barcos de Veneza; sonhando com qualquer outro lugar, menos em um quarto com uma lamparina acesa.
Como gostaria de estar no lugar dela, exatamente onde a menina estava... Era tão aconchegante, tão silencioso; com gosto de cidade do interior, de um tempo em que não havia eletricidade.
A sensação de curiosidade que tive ou de até mesmo roubar o livro da jovem é a mesma que tenho quando alguém chega próximo de mim com um livro ou jornal. Sempre corro com os olhos entre as linhas para descobrir o que a pessoa está lendo, e dentro daquela caixa preta não foi diferente, não dispensei o minúsculo livro da boneca de miriti.

        Recepção de Carla Baia
A obra “Saudade do Sonho” foi algo que despertou muito a minha atenção e atiçou a minha curiosidade. Antes de experimentar a situação, passou varias coisas em minha cabeça, menos o que estava de fato lá dentro. Eu percebia o comportamento das pessoas ao passarem pela experimentação e o modo como elas se portavam, era algo que me deixava ainda mais instigada.
Era como se algo puxasse a pessoa para dentro da caixa, porque elas iam sentando cada vez mais na ponta da cadeira, umas ficavam com o corpo inclinado, acredito que para poder ver melhor e mais de perto o aquela caixa tão misteriosa guardava dentro de si.
E quando finalmente chegou a minha vez, não pude me conter e me levantei rapidamente, na verdade fiz isso para que mais ninguém sentasse naquela cadeira tão desejada por mim, super pronta e ansiosa para o que me esperava fui ao encontro do desconhecido. Ao por minha cabeça na caixa e poder ver o que estava lá, foi um momento de pausa, parece que naquele instante tudo começava a passar em câmera lenta.
E lá, estava um menino, sentado em uma cadeira com um livro sobre a mesa e nessa mesma mesa, bem no canto, uma lamparina, iluminando o ambiente, iluminando a minha mente. Por vezes ele se afastava por frações de segundos daquele mundo e era nesse momento que ele deixava a cabeça pesar e inevitavelmente cochilava em um piscar de olhos, mas quando se recuperava, voltava a ler o livro, como se algo também o puxasse para dentro do livro, talvez fosse o conteúdo que havia lá ou mesmo só a vontade de estudar como meio de mudar algo.
Eu não sei ao certo o que aquela cena queria me passar, mas foi algo que ficou em minha mente até agora e tenho certeza que não é algo que vá sair tão rápido. E isso deixou uma saudade, saudade daquela tranqüilidade que estava guardada naquela caixa, fora dela havia um mundo tão turbulento que naquele momento nem pude perceber. E o sopro que apagou a lamparina foi o mesmo que me pós de volta para a realidade, me despertando de um sonho, me deixando com saudade.

Recepção de Roberta Castro
O espetáculo começou quando saimos encontramos a obra e a artista na saída da sala. Em princípio o que mais me chamou atenção foi a reação das pessoas para com a obra e também da artista perante a nós expetadores.
            Com o pedido de Mariléia artista e criadora da obra artística, as pessoas foram se organizando para irem uma a uma sentando na única cadeira que dava acesso ao espetáculo. No momento não me incomodava com nada muito menos a quantidade de pessoas que iriam passar por ali antes de mim, afinal eram cerca de 20 pessoas estava mas preocupada em analisar o comportamento da artista que sugeria que há qualquer momento poderia nos surpreender devido à altura de sua voz a qual era sempre em volume baixo. Olhar atento, obsevava cada detalhe gestual da artista e também dos expectadores que me deixavam cada vez mais ansiosa, mas ainda sim, queria analisar mais e mais sob a ótica de um olhar externo ao espetáculo.
            Primeiro foi uma moça assistir, ela sentou na cadeira e ficou numa posição de estado de alerta e medo, parecia que a qualquer momento ia levantar-se dali. A artista soprou para dentro da caixinha onde ela manuseava e acontecia todo o espetáculo e a moça se assustou ficando com o cabelo atrapalhado, a reação dela me deixou bastante curiosa para saber o que  tinha a deixado daquele jeito.
            Seguida Kauã, um dos colegas do curso foi o próximo ele sentou e ficou bem quietinho demonstrando uma reação oposta ao da primeira expectadora. Mariléia soprou novamente e Kauã parecia estar hipinotizado, ficou por alguns segundos paralisado com um semblante sereno e um leve sorriso, ele só saiu daquela zona hipinótica quando o professor o cutucou para lhe entregar a ligação a seguir.
            Mais um motivo para me deixar ainda mais curiosa, eram duas reações distintas. Eu, bastante curiosa falava para mim mesma, o que se passa ali? O que deixa as pessoas sairem com essas reações? O que tinha naquele sopro que aparentemente desestabilizava todos que levantam daquela cadeira.
Na  caixa estampada um teatro em miniatura tão pequeno que dava para carregar tranquilamente de um lugar para o outro nos braços. Dentro um  cenário preto, uma mesa, uma cadeira e um garoto sentado lendo um livro sob a luz de uma lamparina. O garoto folheava página por página. As folhas passavam e eu, o que será que ainda esta por vir? Passavam-se as páginas e nada! Em meio a leitura o menino ficou sonolento o qual cochilou rapidamente deixando a cabeça pesar sobre o livro, o cansaço tentava dominá-lo mas o desejo de  se superar não o deixava desistir,  se espertou levantou a cabeça e continuou a ler.

Eis que o livro acaba, a lamparina é apagada por aquele conhecido sopro de Mariléia e fim, nada de surpreendente, nada que me fizesse ter medo ou que me tirasse do meu estado de corpo anterior apenas a mensagem do menino humilde que tinha saudade de buscar seu sonho de vencer na vida por meio de seu estudo, saudade de tentar ou simplesmente a saudade de adentrar na magia de algum conto que podia estar naquela miniatura de livro.
Recepção de Alvaro Batista
“Saudade do sonho”, um trabalho que ao primeiro olhar, aguça a curiosidade, que na fila de espera se torna cada vez mais forte, tão forte, que, os que passam e percebem a cena, acabam esperando por um espaço para adentrar ma magia do espetáculo criando uma expectativa, que acaba por envolver a todos.
Uma performance, já que a cena não necessita do espaço cênico propriamente dito, para ser realizada, podendo ser levada e apresentada nos mais diferentes espaços e tempo, carregada de poesia, magia e criatividade.
O trabalho da atriz Marileia Aguiar, que na cena atua apenas como a condutora e manipuladora da sua pequena caixa e da sua animação, leva ao mais distante da imaginação, trazendo lembranças e recordações, da vida de quem o assiste, pelo menos essa foi a minha sensação na minha viagem dentro daquela caixa.
Olhando o pequeno boneco sonolento, a folhear o pequeno livro diante da pequena luz, me fez esquecer que eu estava ali, dentro daquela pequena caixa, mergulhado naquela história lida pelo pequeno leitor, naquele pequeno mundo isolado da cena que acontecia ao meu redor do lado de fora da caixa.
E apesar da certeza de que você se encontra em um corredor de uma escola, a magia que envolve a cena, faz com o público e o espaço acabem por se envolver pela figura, que esteticamente e delicadamente se compõe ao ato, com a finalidade de levar você a um outro tempo e uma outra atmosfera, bem distante daquele movimentado corredor.