quinta-feira, 28 de abril de 2016

Quando a realidade é dura demais... - Por Ana Luiza Aragão

Ana Luiza Aragão: Graduanda em Licenciatura em Teatro; Bolsista PROINT 2016 pelo Projeto de Extensão TRIBUNA DO CRETINO.  

            Num dia, em meio a minha realidade urbana, cheia de juízes com discursos digitados longos e de atitude frágil, resolvi buscar maneiras para deixar essa realidade um pouco de lado e fui adentrando em um quintal de solo fértil e de atitude concreta; lugar de encontros, que une, reúne e agrega; domus de sonhos, de pessoas e de bonecos; caminho que se liga a outras ocas. Aos poucos me desligo da realidade asfáltica e gradeada, e vou me deparando com as palavras que saem do corpo de três meninos –  súditos de uma Rainha que se alimenta de histórias que passam a ser meu alimento.
          A recepção da rainha é preparada por um de seus súditos, que logo estabelece um jogo com o público, esse diálogo se mantem durante todo o espetáculo, trazendo o espectador para fazer parte da cena. Mergulho na poesia, na musicalidade, no “faz de conta” do universo imaginário das histórias de Dom Quixote – O cavaleiro da Triste Figura – e como ele, também enfrento gigantes, imagino Dulcinéia, e preencho-me de coragem. Emociono-me com o Homem de Lata, que procura seu coração, ele quer amar e assim vou amando cada vez mais essa minha nova realidade, mas, tudo que não quero ali é ser capturada peloVelho do Saco. A Rainha que no início havia chegado com toda pompa e com o “saco do maravilhamento” agora adormeceu. Os três súditos curiosos para saber o que tem dentro daquele saco, vão aos poucos o tirando das mãos da Rainha, que em pose do “saco do maravilhamento” se deliciam com o que vão encontrando. Ao acordar não é mais aquela rainha que dá ordens, é agora uma menina, que brinca e ouve histórias.

         O espetáculo La Fábula, da Cia de Teatro Madalenas é um estimulo a imaginação, é um convite pra um reino mágico das cotações de histórias.
Ana Luiza Aração
28 de Abril de 2016 

terça-feira, 26 de abril de 2016

GTU-Rua – Arco-íris Invisível / Por Geane Oliveira

Geane Oliveira: Graduanda do Curso de Licenciatura em Teatro – UFPA; Participante do Projeto TRIBUNA DO CRETINO.

Quem és? Por que faz essa arte?

Um pouco do espaço onde tu resolveste te apresentar:
O Casarão do Boneco foi nele que te encontrei. O Casarão uniu-se a outros coletivos da cidade a fim de promover programações que venham colaborar financeiramente para a reforma do espaço. E aqui temos mais uma casa lutando contra o grande vilão – recurso financeiro. No sábado dia 23 o Casarão abriu suas portas ao público para uma de suas programações, o Amostra Aí, onde tiveram as apresentações de contação de história, performance e apresentação do resultado do GTU-Rua de 2015. O público paga quanto puder pelas apresentações assistidas; a programação oferecida estava adequada para qualquer faixa etária, o que muito atrai as famílias.
Dentre toda a programação muito me atentei ao trabalho do GTU-Rua; queria ver como as cenas geradas durante o processo iriam se comportar em um espaço que não era a rua e logo percebi que houve um minucioso trabalho de adaptação ao espaço. As cenas eram curtas, no máximo oito minutos. Mas uma me chamou atenção, afinal foi essa que abriu e fechou a programação, seu nome: Arco-íris Invisível.
Tu és rei em teu carro! Reis... esses foram os primeiros a contratarem artistas – bobos – que cantavam, tocavam e jogavam malabares, animando a corte. Esses artistas eram tão desprez/invis(íveis),  que quando suas apresentações não eram condizentes ao gosto do Rei, eram açoitados ou ainda pior,  suas cabeças eram cortadas. Mas o que mudou nessa história?
Agora te enxergo:
 Logo no pátio que dá acesso a entrada do Casarão te encontro, tu carregas teu material em uma mala, um boneco e três claves de malabares. Teus trajes são iguais ao do boneco, macacão vermelho. Teu discurso é apresentado a partir da manipulação do boneco, onde tu expões tua trajetória como artista de rua na cidade, ou melhor, como malabarista e músico no semáforo. Conta da sensação de ser invisível, narra a história do bobo e do surgimento do malabares. Tudo parece tão simples até começar o jogo de malabares que forma uma linda mistura de cores, agora sei por que Arco-íris Invisível finaliza teu trabalho ao som de um pandeiro e da música Filosofia, de Noel Rosa.
 Tudo acaba e tu voltas a ser invisível. Afinal o teu lugar é o sinal e nele não há respeito, e as pessoas se recusam a te enxergar. Te enxergo por agora, pois estais dentro de uma “Caixa Preta” para falar da experiência da rua. Te agradeço por me fazer lembrar que não é apenas a academia que me faz artista. Muitos iguais a ti estão nos semáforos da cidade e possuem habilidades que foram buscar em outros estados ou as vezes fora do país. O arco-íris de tuas claves me fez enxergar nas lembras, os facões que vejo subirem e descerem em forma de curva, a roda alemã que gira por quase três minutos com o corpo de um palhaço dentro, o perna de pau que faz embaixadinha, as mulheres que com seus bambolês de fogo dançam felizes. Enxergo todos da janela do ônibus (sou da corte). Mas o cara que está no carro tem vista privilegiada e esse é o Rei, desfrutando da arte de seus “bobos”. E aos artistas que por horas treinam suas habilidades e que até mesmo promovem encontros a fim de trocarem experiências, restam as moedinhas, pois para muitos Reis isso não é arte e muito menos trabalho.
Diante da apresentação do artista de rua Lurralle Amaral que me trouxe seu Arco-íris Invisível, reconheço que um longo caminho trilhado por esses artistas não lhes permitem serem reconhecidos como profissionais. Talvez a maioria tenha desistido de querer justificar seu trabalho e agora tenha apenas o interesse de ganhar suas moedas que por vezes sustentam seus filhos.

“O mundo me condena
E ninguém tem pena
Falando sempre mal do meu nome
Deixando de saber
Se eu vou morrer de sede
Ou se vou morrer de fome.”
(Noel Rosa)

Geane Oliveira

26 de Abril de 2016

terça-feira, 19 de abril de 2016

Mas gato fala? – Por Jaqueline Miranda

Jaqueline Miranda: Graduanda de Licenciatura em Teatro / UFPA; Bolsista PROINT 2016 pelo Projeto TRIBUNA DO CRETINO.  

O espetáculo O gato de botas voltado para o público infantil, é uma versão da Cia Teatral Corifeus dirigido por Jorge Miranda e Douglas Mourão. O espetáculo tem o principal intuito de mostrar de um modo cômico e romântico como as crianças podem cuidar de seus animais. O Gato de Botas é um típico animal de estimação deixado de herança a um rapaz após a morte de seu pai; o gato faz de tudo para animar o seu dono e mudar a vida dele. Um cenário de campo florido onde acontece às primeiras ações com um lago e flores tem direito a camponesas que dançam divertidamente com o gato que acaba destruindo a plantação.
O texto é de linguagem fácil para entendimento das crianças, e os trejeitos que nos prendem a atenção de como os personagens interagem e se movimentam, principalmente o gato; o ator da vida ao personagem não apenas pelo figurino e maquiagem que deixa tudo ainda mais realista, mas também pelas expressões, ruídos, fala e movimentação, como o andar sob quatro “patas” que requer uma técnica corpórea e resistência.
Os personagens Rei, Princesa e Cocheiro surgem no segundo momento com direito a carruagem e fazem parte do plano do Gato para se tornarem amigos da nobreza junto com seu dono, o marquês de Carabás. Já a bruxa e seu mordomo surgem em um cenário de castelo; a bruxa com seu jeito nem um pouco agradável e também nada esperta, pois cai na armadilha do Gato para tomar seu castelo fazendo ela mesma se transformar em um pequeno rato; então a coloca em um saco preto e ordena para seu mordomo preparar o jantar, pois haverá um banquete. O castelo agora pertence ao marquês de Carabás que no fundo não é marquês, mas estava apaixonado pela princesa. A cada palavra da Princesa, percebi como brilhavam os olhos das meninas, com certeza se imaginando como uma princesa. Tudo chama nossa atenção: uma simples conversa entre o Gato e seu dono com charadas que nos tiram risadas, ou até mesmo o rei que vive dormindo e nunca sabe o que está acontecendo.
O figurino colorido e brilhante dos personagens como o do Gato com sua bota e seu chapéu atiça nossa imaginação, principalmente das crianças e permite viajar por um mundo não real onde gatos falam, pessoas se transformam em animais, princesas e príncipes vivem felizes para sempre, onde a bondade sempre vence e não há limites para imaginação. Onde tudo é possível, pude me sentir criança novamente ao me perceber rindo ou até mesmo torcendo para o final feliz, e pude ver que no decorrer da vida vamos perdendo essa criança que se permite sonhar, mas que nunca é tarde para isso. E para as crianças abre um leque de possibilidades como sonhar e ensinar que o amor e a amizade sempre prevalecem apesar das dificuldades e, ainda, que a imaginação não tem limites.
Jaqueline Miranda
        18 de Abril de 2016

domingo, 17 de abril de 2016

Apartamentos na Cidade – Por Edson Fernando

Edson Fernando: Ator, Diretor e Professor de Teoria do Teatro da Escola de teatro e Dança da UFPA.  

Décimo oitavo andar. É do alto que o canto do bode quer se fazer ouvir agora. Salve Dioniso! Salve o Sátiro sem barba transmutado em desvairado amante. Salve o solitário canto ditirâmbico que se aparta da cidade para ressoar pulsante pelas veias das testemunhas do ato. É necessário ir às alturas, apartar-se da cidade (1º APARTAMENTO), encontrar o ponto liminar para restituir a vitalidade orgiástica da primitiva ode ao deus Baco. Isso porque, ao que me parece, o tradicional templo esvaziou-se de Dioniso (2º APARTAMENTO); os palcos da cidade passam por uma espécie de assepsia atroz que expulsa ou domestica os impulsos criativos mais violentos e produtivos que habitam em nós. Parece reinar a máxima do “Não posso fazer isso, para não me indispor com aquilo”, quando na verdade a carruagem de Dioniso incendeia todos os caminhos, enlouquece todos os membros do cortejo, impossibilita todas as censuras, nega sentido a todas as máximas condicionantes e extermina todos os pudicos. Sinto que devo seguir para ir ao encontro do deus da loucura esquecida e, então, conduzido pelo túnel vertical, chego ao solo liminar: ambiente sombrio, mas agradável, confortável e familiar. Natural e instintivamente as taças oferecidas na entrada são entornadas, estabelecendo entre os presentes a aliança entre deuses e homens, obra e artista, espectadores e ator. A penumbra é o marco tênue e paradoxal que nos separa – quando nos separa – das aventuras amorosas do Sátiro-Amante; a penumbra aproxima e afasta, envolve e arremata, intensifica e relaxa o ambiente; é ela quem borra as fronteiras do “ver” e do “participar” me deixando a sensação de pertencer e ser pertencido por tudo ao redor. Embora imponente, ela – a penumbra – é apenas a conviva de honra no banquete liminar, lugar onde me é oferecida a deleitosa narrativa tragicômica. O teor – mais ou menos orgiástico – das histórias não me atrai, mas a forma magistral como a narrativa é conduzida me mantém atento; persigo, então, o modo como vai se desenhando as histórias, os tempos narrativos – passado e presente num fluxo dialético constante –, personagem e pessoa, evocação direta de lugares por meio duma plástica gestual simples, pontual e econômica, evocações de diálogos, solilóquios e níveis de tensão monodramáticas. A esta altura me dou conta que não é mais de Dioniso que falo, e sim do seu antípoda: Apolo. O deus da figuração plástica, da música como arquitetura dórica em sons, da justa medida e do caminho do autoconhecimento para evitar os excessos se personificava no equilíbrio sóbrio da desenvoltura formal do Sátiro. É admirável constatar o miraculoso e ontológico encontro entre os impulsos artísticos da natureza anunciado por Nietzsche se dar assim, de modo tão espontâneo e natural, a minha frente. Como um hábil equilibrista que atravessa duas torres por um arame atado por sobre nossas cabeças, o Sátiro brinca de ser todos os personagens do seu drama, aprofunda dores, presentifica angústias, compartilha seus deleites amoroso-sexuais e nos deleita sem se perder em artifícios desnecessários, mas também sem nos dá a certeza do quanto há de autoral na história narrada. Deixo que ele me conduza por sua labiríntica ação dramática e aceito de bom grado a parceria justa que me é oferecida – assim como aos demais – em alguns momentos estratégicos da trama. Com a métrica apolínea certeira ele conduz o jogo naturalmente, alternando momentos em que deve ouvir e momentos de ser ouvido. A natureza resolve dar sua contribuição banhando a cidade com um genuíno toró noturno. A sacada me permite ver o céu vermelho e as luzes dos demais prédios embaçadas pelos generosos pingos de chuva. É neste momento que me dou conta novamente que estamos num prédio residencial no centro da cidade. Da tranqüilidade reservada ao décimo oitavo andar, tudo parece mais distante e isolado; absorto em inquietantes divagações penso nas ilhas de resistência que criamos para fazer sobrevier nossa arte (3º APARTAMENTO); penso em cada Teatro Alternativo que hoje luta para se manter aberto, oferecendo novas possibilidades de encontro e experiência estética na cidade; penso em como é difícil estabelecer pontes para que as ilhas consigam se integrar, se enxergar, se retro-alimentar e se fortalecer, para que juntas possam enfrentar a fúria do mar, ou a fúria daqueles que insistem em nos fazer acreditar que somos ilhas desertas e estéreis, sem nenhum valor que justifique investimentos, por mais parcos que sejam (4º APARTAMENTO); como evitar que Dioniso e Apolo definhem nestas ilhas desertas, fadados a reclusão e a mera ação entre amigos e parentes? (5º APARTAMENTO). O chicote sado-masoquista do Sátiro interrompe minhas divagações. Sou convidado a penetrar ativamente a penumbra, o mundo dos sonhos da narrativa dramática. Sou obra, ou sou um pouco mais obra, pois pulso agora na cadência do Sátiro; alguns instantes são suficientes para nos levar a um gesto derradeiro: um abraço! O encontro se torna pleno na medida em que a entrega é recíproca. Saí do espaço liminar sem certezas ou respostas para minhas divagações, mas com a suspeita de que é necessário potencializar novos modos de nos perceber e nos encontrar. Talvez a única certeza que ainda insiste me atravessar resida no fato de que seja qual for o tipo de APARTAMENTO – em nossa cidade de valores invertidos e surreais – o preço é quase sempre muito elevado.
6º APARTAMENTO
É digno de nota que a montagem teatral Apartamento 69 é uma pesquisa do Coletivo 3 NÓS que se realiza em apartamentos cedidos por amigos, na cidade de Belém.  A apresentação que conferi aconteceu no Edifício Brands Hatch, localizado na Tv. Quintino Bocaiúva 1043, centro da cidade. Merece destaque também, além da atuação primorosa de Caled Garcês, a direção de Guál Dídimo que assina a montagem e não permite que o trabalho – com concepção notadamente performática –, se deixe enveredar por armadilhas e truques cênicos típicos de quem utiliza a linguagem da Performance de modo inapropriado e sem conhecimento de causa. Embora admita que haja elementos da Performance no modo como a narrativa-dramaturgia é concebida e atuada por Caled, acredito que a montagem tem sua assinatura no âmbito da mais genuína linguagem teatral. É TEATRO com todas as letras maiúsculas.     

7º APARTAMENTO
Também considero digno de nota que o bate papo proposto ao final da apresentação, se desenvolveu de modo tão vigoroso que parecia um prolongamento estético da montagem. Talvez tenha sido o bate papo mais descontraído que já tenha participado; conversamos criticamente, mas sem os conceitos rígidos; debatemos questões preciosas para os artistas envolvidos na montagem, sem nenhum tipo de filtro ou reservas. Rimos, bebemos, comemos, nos emocionamos.    
Edson Fernando

17 de Abril de 2016. 

sexta-feira, 8 de abril de 2016

A revolta que me fez “Palhaço” – Por Ceci Bandeira

Ceci Bandeira: Graduanda do Curso de Filosofia da Universidade do Estado do Pará – UEPA.
Todas as vezes que eu penso a arte como um instrumento a serviço da responsabilidade social, me vigio para não fugir ao verdadeiro foco da arte-educação que deveria ser o progresso individual no domínio dos procedimentos estéticos visuais. Esqueço a antiquada ideia de que o ensino da arte deve conceder experiências estéticas refinadas – e até certo modo abstratas – àqueles que nunca as experimentaram ou que nunca viriam a experimentar sem a ajuda emancipadora dos arte-educadores. Não! A minha intenção é compartilhas as ideias do professor Vicente Lanier[1], quando este diz que a experiência estética em geral já é gozada pelo sujeito antes mesmo dele entrar em contato com a disciplina de artes na escola. O papel do professor é incrementar, ampliar, algo que já está ali presente.
E o que isso tem a ver com uma crítica teatral? Muita coisa se levarmos em consideração que no dia 7 de abril estreou o espetáculo “Palhaço!”, no teatro Margarida Schiwazzappa, que me fez repensar a ação social da arte. Realizado pela Attuô Cia. de Intérpretes Contemporâneos, em parceria com o Grupo de Estudos e Pesquisas em Cultura do Corpo, Educação, Arte e Lazer (LACOR), por meio do Programa de Arte e Lazer na UFPA, com direção de Kleber DüMerval, que também integra o elenco e o grupo LACOR, e que traz um elenco formado por dez artistas, sendo estes bailarinos, dançarinos, cantores, atores e músicos. Em cima do palco estão a performance de dança, a arte surrealista e o clown, embalados por canções autorais e ufanistas, a fim de nos contar (ou recontar) o cruel acontecimento histórico no processo de adesão do Pará à independência do Brasil: a tragédia do brigue Palhaço.
Utilizando-se de recursos áudios-visuais, o primeiro contato do público com o contexto de revoltas populares se dá logo no prólogo, através do vídeo que nos mostra as indignações ocorridas em nosso território, desde o período colonial até o século XXI. Somente depois dessas imagens é que surgem os atores em cenas, performando o contexto de adesão da província do Grão-Pará dividido em quatro capítulos e um epílogo. A história toda é proposta de forma bastante poética, os corpos dos atores contam a história do nosso povo que lutou por liberdade e por respeito, nada muito diferente de alguns anseios gritados pelo povo, humildade ainda nos dias de hoje. Percebe-se o estudo por trás de cada cena, porque as performances se fazem claras dentro desse contexto: por exemplo, entendemos, em uma cena, quando uma atriz representa a monarquia e outra representa a cabanagem, percebemos que a sua dança fala sobre uma disputa mútua, assim como percebemos que, em outra cena, estas duas se transmutam em tapuios para lutar junto com os outros.
As canções que embalam a trama são inteligentes e capazes de emocionar, nos situam ainda mais dentro da história. É uma enorme pena que tenham sido prejudicadas por problemas técnicos nos microfones dos atores, que falhavam não só nas músicas, mas também durante as falas do personagem Grenfell. Outras falhas também ocorrem, como os chapéus de palha dos tapuios que costumavam cair durante alguns movimentos de dança e a calça de um dos atores que rasgou entre as pernas também durante uma dança. A meu ver, são falhas mínimas que obviamente podem ser corrigidas, mas que impediram algumas cenas de ficarem completamente bonitas. Além de dar a entender que os atores não ensaiaram anteriormente com os figurinos.
Mas, retomando o que eu havia dito no começo do texto, a grande questão que a peça me trouxe foi sobre como ela se faria importante se apresentada, principalmente, aos jovens e/ou alunos que conhecem a história do Pará malmente pelos livros de história obrigatórios da escola, e às vezes por alguns filmes ou documentários. Eu vejo nesta performance de dança e de teatro, que conta um marco da nossa história de maneira tão detalhada e poética, um estímulo para diversos debates em sala de aula, tanto na disciplina de história como na de arte ou teatro, pois o espetáculo tem muito o que dizer sobre concepções estéticas dentro de um contexto realista, sobre conhecer a maneira como arte é capaz de contar um fato histórico. Pois é preciso, como diz aquela famosa máxima, que conheçamos a história para não repeti-la, e mais, que a conheçamos a fim de discutir sobre o presente.
Sendo assim, o clown triste e político não está no palco por simples acaso ou mero trocadilho com o nome da tragédia. Ele nos mostra, e a interpretação se dá também por meio dos vídeos, que a nossa revolta não cessou: está em constante ebulição no peito daqueles que descendem e desejam representar por média de 250 homens negros, cabocos e índios que foram presos e transportados para o porão do brigue “Palhaço” para serem mortos sufocados e asfixiados. A insurreição está nas ruas até hoje. Procuramos entender, porém, se ainda somos os fantoches de Grenfells espalhados pela nossa burocrática e abominável política.
Se tivesse que escolher uma imagem para representar a beleza do espetáculo, escolheria a última: após a última dança, os atores projetam os seus corpos como a clássica imagens crescente da evolução do ser humano, o povo calado pela morte insiste em resistir e se levanta para o próximo passo da sua luta, a cabanagem.
Ceci Bandeira
08 de Abril de 2016



[1] É doutor em Arte e professor emérito da Faculdade de Artes e Ciências da Universidade do Estado do Arizoa, EUA. Autor entre outros de The arts we see (1982).

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Quem Quer Bolacha? – Por Tarsila Maquiavel França

Tarsila Maquiavel França – Graduanda em Administração UFPA e Técnico em Ator ETDUFPA.
Antônio do Rosário estreou seu primeiro espetáculo-solo em “Quer Bolacha?”, na Casa do Palhaço, com uma caracterização que dá um ar meio Rock Roll ao seu palhaço. A peça percorre pelas linguagens do: Teatro, Palhaçaria e Técnicas Circenses. Quem vê as cenas com um olhar mais distraído, não consegue perceber a essência por traz das brincadeiras que levam o público ao riso. O Palhaço Black convida todos a entrar em seu quarto, onde paira um universo cômico e sensível, temperados com muitas lembranças.
Durante cada cena, que são inspiradas nos seus familiares – Dona Maria (mãe), Seu Raimundo (pai) e Seu Luís (Tio) – o espectador mergulha no seu senso íntimo, e transborda saudosismo.
A encenação tem um cenário simples, eu diria até minimalista, bem interessante, com apenas uma rede e uma cortina na parede junto com as fotografias de seus familiares; surge durante a encenação um banco com um telefone, que irá atravessar durante várias cenas. Um telefonema que é muito esperado, ansiosamente esperado, e quando usado falam conversas banais e sucintas, quase uma blablação, com o único objetivo de ouvir, ouvir como um abraço apertado, que afaga o coração.
No decorrer da peça, a plateia se depara com bolachas, dadas pelo próprio Black, simbolizando um gesto de carinho, de quem cuida e se preocupa, um gesto carinhoso de mãe que quer alimentar seus filhos e ver bem quem ama. Inclusive uma das cenas mais engraçadas do espetáculo, onde todos compartilham a fome e curiosidade de saber para qual caminho irá à peça. Seu único destino, sabemos ao final, que é carinhosamente homenagear sua família.
“Aconchego do lar” é assim que vejo a última cena, representa talvez a volta de Antônio para casa. O ator faz algumas acrobacias na rede que fica pendurada, acrobacias que lembram brincadeiras de criança, que se enrola, que fica de ponta a cabeça, que se balança, é muito gostoso de ver, nos dá uma saudade da infância.
Tem uma cena de Dona Maria, em que é representada em um momento intimo, sabe aquela frase “O que você faz quando não tem ninguém olhando?”, pois é nesses momentos é que demostramos quem somos nós; ela aparece com um pequeno vidro de perfume, causando uma curiosidade no público e faz desse momento único, e borrifa o perfume para o alto e corre para que os pingos caiam na sua roupa. Tão doce que parece uma dança alegre e suave, suavemente bailada pela sua alegria de ser feliz nas coisas mais simples do dia-a-dia. É uma cena de encantamento.
No todo o Palhaço Black nos leva a momentos de impacto, sonhos, e mais ainda, a momentos de reflexão. Faz-me pensar que não devemos passar pelo cotidiano despercebido, distraído. Vejo como uma chamada para valorizarmos as pessoas que amamos.

Por fim, a história perpassa por cenas cotidianas cheias de saudosismo de entes queridos, da infância e suas inocentes brincanças, da espera e ânsia para ouvir a voz de quem amamos. Dos costumes engraçados que faz de cada um de nós seres únicos. Do afeto e amor que carregamos ao longo da nossa vida. Do aconchego de estar em casa, da solidão dos mais velhos. É um atravessar no tempo e na memória, me faz pensar o quanto a vida passa tão rápido. É um espetáculo para ser visto. Há se eu soubesse que certos momentos não voltam mais. Parabéns a Antônio e a todos pelo belo espetáculo.
Tarsila Maquiavel França
06 de Abril de 2016

quinta-feira, 31 de março de 2016

O poder de Atena? - Por Paula Barros

Paula Adrianna Barros da Cruz: Atriz; Graduanda de Licenciatura em Teatro UFPA; 
Bolsita PIBEX 2016 Projeto TRIBUNA DO CRETINO.
Quero falar da justiça, da igualdade e do poder. Questões que no espetáculo Atena em solo viril aparecem e vão para além do teatro que agora é o alto tribunal da cidade de Atenas.
Logo, na porta de entrada Atena interpretada por Geane Oliveira, pede que se faça duas filas, uma de mulheres outra de homens, e os homens pisam primeiro no solo de Atena. Frustradas as mulheres aguardam do lado de fora. Ao entrar somos (nós Erínias) conduzidas a sentarmo-nos no chão, do lado de fora do círculo (solo de Atena) feito por algumas cadeiras onde os homens (cidadãos de Atenas) já estão confortavelmente acomodados, afinal somente eles terão direito ao voto, pois se trata do julgamento de Orestes[1], assim logo nos situamos no período de 1200 a.C, será mesmo?.
Uma das mulheres que se encontrava sentada no círculo fora do solo de Atena, simplesmente se recusou a assistir o espetáculo passando, aproximadamente, os trinta minutos da apresentação de Geane Oliveira de costas; outro caso foi um dos homens que se recusou ao voto, não querendo participar efetivamente do que ao fim ele julgou como injustiça. O que fiz ali foi testemunhar um ato de Injustiça? Ao fim do espetáculo o que ressoava na minha cabeça eram as palavras de Atena: “Nasci sem ter passado por ventre materno[2], “peço-vos que reflitam”.
Em um dos momentos da representação de Geane quando coloca as mãos de um dos homens em seus olhos, com os olhos vendados representa a Deusa Têmis demostrando que no seu tribunal há imparcialidade e igualdade entre todos.
 Atena em solo viril em seu ritual com o vinho demonstra atos viris absolutos, onde urina como se fosse um homem, e como homem pensa e dá absolvição a Orestes; mas também como mulher os seduz, os homens cidadãos de Atenas, e com gestos obscenos coloca os pés de um dos homens em seus seios e vagina, mostrando a fragilidade deste diante do sexo (no sentido carnal). E quando se dirije a nós mulheres Atena pede que possamos refletir, na verdade nos convence de ficar em Atenas com ela para que sejamos Eumênides e no ato do poder de persuasão, convence como mulher agora não com o sexo, mas como igual (mulher) que somos.
Então, a partir disso me pergunto: por Atena não ter nascido nem passado pelo ventre materno, isso a faz diferente de nós mulheres? E quão poderosa é Atena a ponto de determinar a absolvição do réu? E por que é injusta aos olhos do que parecia ser um cidadão ateniense o julgamento de Atena?
Há discussões muito atuais no espetáculo dirigido por Edson Fernando e representado por Geane Oliveira. O que Atena fez na sua atuação foi nos convidar a refletir e nos interrogar de uma série de questões e de poderes que nos cabe na sociedade, bem como, instigar um posicionamento na conjectura atual, seja ela política econômica ou social. Bem longe de responder aqui a todas estas perguntas, mas, a partir da representação de Atena, começar a pensá-las e discuti-lás. Afinal, a arte (e o Teatro é arte) é expressão simbólica de uma cultura.
Paula Barros
31.03.2016



[1] Orestes filho de Agamemnôm e Clitemnestra da tragédia Grega de Ésquilo. A questão é se o fato de Orestes ter assassinado a própria mãe, torna-o merecedor do tormento infligido pelas Erínias.

[2] Zeus engoliu Métis, sua primeira mulher divina, que estava grávida de Atena, e quando sentiu chegar a hora do nascimento desta última ordenou a Hefesto, deus do fogo, que lhe fendesse a cabeça; de lá saiu Atena, já crescida e armada.