domingo, 26 de março de 2017

Sobre camelos, rochas, baratas e moluscos – Por Edson Fernando

Edson Fernando: Ator e Diretor Teatral. Coordenador do projeto TRIBUNA DO CRETINO.
Sala 98
“Preciso procurar meu terapeuta”. No meu imaginário havia uma espécie de charme, acompanhado de um tom blasé, um fetiche um tanto adolescente, talvez até um desejo hipocondríaco sedutor em torno da ideia de consultar um psicoterapeuta, ou melhor, uma psicoterapeuta. Embora a ideia me parecesse encantadora, nunca vi muito sentido em procurar uma, pois na minha opinião, tudo se resume em como lidar com as pedras que a vida te dá: ou se carrega, ou se quebra e escolhe os pedaços que convém levar. Desse modo, por mais encantadora que fosse a ideia de deitar em um divã na companhia de um belo par de pernas torneadas, salto agulha preto, saia lápis preta demarcando o exuberante quadril, camisetinha tecido fino branco, sem sutiã, mas com decote generoso e terninho preto; por mais voluptuosa que fosse a idéia de ter aquela voz rouca, pausada e suave, sussurrando os conselhos e/ou recomendações médicas por entre os lábios contornados pelo batom vermelho sexy, traçando o diagnóstico de minhas crises existências; por maior que fosse o deleite de tal fantasia, mantive distância por dois bons motivos simples: por convicção de não precisar de ninguém me dizendo que o tenho que fazer com minha vida; uma consulta desse quilate estava muito distante da realidade que o minha conta bancária permitia.
Determinei, então, que seria autossuficiente e lidaria sozinho com as pedras que a vida me reservasse – pelo menos até engordar minha conta bancária. O problema é que nunca sabemos, ao certo, qual o tamanho das pedras que a vida coloca em nosso caminho. E a certa altura me deparei com um baita pedregulho, um misto de amor, dor, afeto, paixão, mágoa, frustração, carinho, desejo carnal, ódio, tristeza, desilusão, angústia, melancolia, medo, raiva, saudade, solidão. Um coquetel molotov violento de sentimentos que me consumia sem que eu pudesse reagir, sem que eu pudesse conter a causa, sem que eu pudesse mover ou destruir aquela imensa rocha de sufixo Ana. E embora pudesse sentir todo o peso do bloco rígido de concreto sobre minhas costas, tratava-se apenas de um peso fantasma, pois o olhar misterioso, o sorriso enigmático e sua aura de bruxa estavam em terras bem distantes. 
A princípio quis acreditar se tratar de mais uma desilusão amorosa, como tantas outras já vividas na adolescência. E como minha conta bancária ainda não me permitia procurar ajuda de uma psicoterapeuta, investi na tática de dar vazão às lágrimas. E elas vieram em grande quantidade. Por vários dias. Por várias semanas. Decorridos os primeiros meses, percebi um tremor nas mãos, uma espécie de tremedeira que surgia inesperadamente e da qual não conseguia controlar. Depois vieram os pesadelos. No primeiro, minha mãe levou aproximadamente 10 minutos pra conseguir me acordar. Não me lembro de muita coisa, apenas do vulto de um rosto monstruoso vindo em minha direção para, então, acordar dando um grito medonho. Com respiração ofegante, suado e aos prantos, acordei nos braços de minha mãe, tendo a minha frente meus dois irmãos com os olhos perplexos. Naquela noite, depois de mais de vinte anos dormindo sozinho na minha aconchegante rede, procurei asilo na cama da minha mãe. E com a sensação de que alguma coisa ruim estava me espreitando, permaneci acordado até que surgissem os primeiros raios de sol. Pela manhã, tive a certeza de que precisava de ajuda para quebrar aquela rocha. E embora minha conta no banco ainda não me favorecesse, vislumbrei, com certo prazer, a possibilidade de realizar a fantasia da psicoterapeuta sensual.
Sem os recursos financeiros necessários para uma consulta particular, e na condição de estudante da UFPA, recorri ao atendimento público do Departamento de Psicologia da instituição. Fui bem recebido por uma jovem e encantadora estagiária – estudante do curso de Psicologia – que realizou meu cadastro de modo atencioso e afável.  “– É um ótimo indício do que está por vir!” Pensei, sonhando logo encontrar com a figura arrebatadora de minha terapêutica-fantasia. Mas este pensamento logo se desfez quando fui informado, pelo doce sorriso da estagiária, que eu havia entrado na lista de espera. E esperei. Esperei bastante até que pudesse realizar a libidinosa fantasia, único alento que possuía naqueles longos meses que se seguiram, por entre novos pesadelos e crises de choro.
A sabedoria popular diz que o “tempo é o melhor remédio” pra tudo. E então, sem alternativa, deixei o tempo agir sobre o fantasma daquela rocha. Como um camelo no deserto, coloquei a rocha entre as corcovas e segui à procura de meu oásis – minha psicoterapeuta me aguardaria em breve, com seus seios fartos e sua cintura provocante. A passos lentos deixei o tempo agir... no primeiro mês, lutei para colocar a rocha entre as corcovas... no segundo mês, a rocha me feriu as corcovas... no terceiro, as feridas atraíram insetos e parasitas... no quarto, a rocha se cravou entre as corcovas... no quinto, ela se tornou apenas um estorvo... no sexto, transformou-se em couraça... no sétimo, usava-a para desobstruir os obstáculos...   no oitavo, deixei de arrastar os passos... no nono mês, já não conseguia distinguir o que era o camelo e o que era a rocha...
 O comunicado impresso tinha o brasão da universidade. Minha mãe suspeitando se tratar de algo importante tentou violar a correspondência para descobrir sobre seu conteúdo, mas cheguei a tempo de evitar. Era a confirmação da terapia. Finalmente o oásis. Finalmente o divã. Finalmente a psicoterapeuta.
Cheguei pontualmente às 9h00. Apenas aquela porta de divisória modulada nos separava. A maçaneta se move e com ela, todas as minhas expectativas entram em ebulição. A porta se abre sem que eu veja quem a manipula. Entro, e sem que nenhuma palavra fosse proferida um braço e mão robusta direciona o lugar para onde devo me dirigir. Procuro o divã, mas somente encontro uma pequena mesa de madeira com duas cadeiras, também de madeira. A sala não tem janelas, mas ostenta um empoeirado ventilador de teto. Sento. E finalmente ela se senta na cadeira bem à minha frente. Calça jeans, tênis surrado, camiseta com estampa colorida, jaleco branco semi abotoado. Cabelos desgrenhados pretos que descem até pouco abaixo da altura dos ombros. Óculos de grau quadradinho, silhueta generosa nas laterais e um pequeno detalhe por entre os dedos da mão direita: um cigarro. A voz embargada pelos anos de nicotina acumulada no organismo, em fim, dispara a sentença que dá início a terapia: “ – Pode falar!”.
Desapontado com a abordagem pus-me a pensar, e entre o lapso de tempo da pergunta da psicoterapeuta e da resposta que elaborei, refleti sobre o sentido da vida: Qual o sentido de estar ali? Qual o sentido de depositar no outro a responsabilidade por encontrar a resolução para nossos próprios problemas? Qual o sentido de sofrer incomensuravelmente por alguém que já seguiu o seu caminho? O que nos leva a acreditar que somos o camelo e não a rocha?
Absorto nesses pensamentos pus-me a falar sobre o que sentia, com a certeza de que, o que sentia, não fazia mais nenhum sentido, embora continuasse sentido a presença da rocha. Enquanto eu falava, passaram-se mais dois ou três cigarros, algumas anotações num caderno de arame e apenas algumas intervenções como: “– Por que você acha isso?” ou “Por que você não acha isso normal?”. Sai dali me sentindo ridículo. Voltei para mais uma sessão e depois abandonei o tratamento sem dar satisfações.
Meses depois recebi outro comunicado do Departamento de Psicologia dizendo que eu estava “sob a responsabilidade e os cuidados médicos daquela clínica de psicologia”, ao que imediatamente respondi com cópia da carta enviada também ao gabinete do reitor: “Descobri que sou rocha. Cuidem dos camelos!”
      
Sala 17
Sempre achei divertido abordar os assuntos cotidianos com humor e extrair deles pequenas reflexões sobre a vida; reflexões despretensiosas, nada que tornasse a vida ainda mais séria e chata do que ela já é, pois pra isso já existem os filósofos e as mães; reflexões que de tão despretensiosas, passassem quase despercebidas sem que, por outro lado, deixassem de oportunizar o exercício do simples ato do pensamento crítico. Acredito que haja no riso, no humor e no cômico um nobre tipo de reflexão crítica descomprometida de mudar o mudo, de mudar as pessoas, de mudar o ser humano, ou de melhorar a humanidade. A lógica na perspectiva cômica, me parece, não ser aquela que se compromete com “endireitar” o mundo, mas sim aquela que se apropria do que há de mais errado e torto no mundo, tomando isso como matéria prima, mimetizando e trazendo a público um retrato irreverente, satírico, debochado, escrachado, por vezes insolente, petulante, atrevido, caricato, pilhérico, hilário, jocoso, burlesco ou histriônico mostrando a banda podre do mundo e da humanidade. Já cai na armadilha de pensar que o cômico fosse um obstáculo ao pensamento crítico, uma espécie de fiel escudeiro da alienação. Atualmente, consegui entender, felizmente, que o cômico é talvez uma das maiores armas que se pode ter para afrontar um sociedade caótica, hipócrita e moralista como a que temos no Brasil, neste início de século. Talvez por isso mesmo, eu esteja aqui, sentado em seu divã, doutora Nazaré. Vejo que meu ofício ligado ao cômico encontra-se ameaçado ou distorcido por uma visão que pretende lhe imputar todas as responsabilidades do mundo. Tem sido difícil fazer humor quando todos parecem estar vigilantes a procura de um deslize, de um escorregão para que se atire a pecha de “isso” ou “daquilo”, quando na verdade o que se está a fazer é simplesmente “arte”. Eu sei que “arte” é uma palavra esquisita, imprecisa, lacônica, subversiva. Eu sei que o termo pode servir para ocultar ou mascarar crimes repulsivos e graves. Mas, Nazaré: Como seria a vida sem “arte”? Me responde em que período histórico, nós artistas, não fomos tidos como perigosos a ordem das convenções estabelecidas? Me responde se a “arte” pode ser pautada pela “moral” e pelos “bons costumes”? Não fez nenhum sentido, Nazaré. E é por isso, Nazaré que eu não consigo compreender por que alguns trabalhos de teatro da cidade se curvam a “pseudo necessidade” de colocar em suas montagens cômicas ou de entretenimento nonsense a discussão e desenvolvimento de temas caros aos nossos dias. Como se precisássemos estar comprometidos com um ensinamento moral a qualquer custo. Como se precisássemos estar engajados nas pautas e causas sociais de modo didático e pedagógico. Ah, que chato, Nazaré. Parece o Platão expulsando os artistas da república ideal, ou minha mãe me enchendo o saco pra eu comprar uma capa de chuva pra não chegar encharcado em casa. Nazaré me responde uma coisa: Que graça tem andar de bike na chuva, com uma capa de chuva? Não tem graça nenhuma. Agora imagina a bosta da república do Platão sem nenhum artista pra fazer galhofa, pra fazer pilhéria, pra fazer sátira, pra fazer humor. Poxa, Nazaré. Será que simplesmente fazer rir já não é tarefa das mais nobres? Já não é exercitar àquele pensamento crítico de que te falava no inicio dessa sessão? Pois é. Por que perguntar pelo sentido da vida quando o barato está em mimetizar e ridicularizar o sem sentido da bosta desta vida? Mais humor, por favor, Nazaré. Mais “arte”, Nazaré. Na atual conjuntura, eu gosto mesmo é quando tudo descamba pro escracho desmedido, pra tinta forte do deboche, pra caricatura farsesca que revela o rei, a corte e os plebeus, todos nus. Sabe Nazaré, às vezes fico pensando que o Grégor Samsa é quem foi o grande sortudo da humanidade. O cara amanheceu certo dia, com seu DNA alterado e com a possibilidade de perpetuar sua espécie, aconteça o que acontecer com esta bosta de mundo. Salve as Blattodeas, pois elas resistirão a este mundo chato e insosso. E sem a necessidade de uma terapeuta.

Salas: 02, 05, 12, 14
A primeira vez que o vi com aquele terno alinhado, a barba bem aparadinha, o tom de voz mais suave e comedido, quis acreditar que era por uma boa causa, uma estratégia necessária depois de três derrotas consecutivas. O famoso “Lulinha Paz e Amor”, criado por Duda Mendonça, talvez fosse apenas uma peça publicitária inofensiva e necessária para que o primeiro operário chegasse ao topo do poder no Brasil. Olha Fátima, eu te confesso que apesar de ter essa consciência, e de já ter votado nele nas últimas duas vezes anteriores, em 2002 eu votei nele com certa relutância. Sei lá, acho que meu instinto jedi me alertava pra merda que podia dar; sentia o lado negro da força rondando a barba daquele metalúrgico. Confesso também que àquela altura, o voto nulo ainda não me parecia uma boa opção. Então, apertei a tecla 13 no primeiro e no segundo turno das eleições, muito mais com o desejo de deixar o vampiro, José Serra, longe do poder, do que propriamente colocar o Lula no planalto. Mas Fátima, confesso também que no dia da confirmação da sua vitória, fiquei comovido. O país inteiro ficou. Aquele homem do povo, com sua trajetória de trabalhador e militante de partido político, com participação ativa na luta pelo direito dos operários, e ainda por cima com uma oratória capaz de mobilizar e emocionar as massas, também me comoveu. Mas ai veio a formação do primeiro escalação dos ministérios; aquele argumento da governabilidade no congresso nacional, as alianças necessárias, o “toma lá, da cá” de sempre, Fátima. Tava na cara que ia dar merda, Fátima. Se aproximar do Sarney, ACM, Antony Garotinho e Jader Barbalho seria o mesmo que mandar o Anakin Skywalker trabalhar na casa do senador Palpatine. Não ia dar certo. E não demorou. Veio o escândalo do Mensalão em 2005. E o que foi que ele disse, Fátima? Ele disse que NÃO SABIA. Fátima, ele disse que N – Ã –O  SA –BI – A. Oh, santo homem de deus. Ele NÃO SABIA. Eu juro, Fátima que me esforcei pra acreditar nisso, mas já conseguia ver a cor vermelha no sabre de luz dele. Foi a gota d’água, e partir daí fiquei convencido do voto nulo. Era o meu modo de me manter longe daqueles sith. E quando a gente pensa que não pode piorar, Fátima, o que acontece? A famigerada aliança com o PMDB em 2010, entregando de bandeja a vice-presidência do país pra ninguém menos que o sith mor Michel Temer. Veja bem, Fátima, o Michelzinho tava lá, cafungando na cadeira da Dilma desde 2010. O homem era tido como um autêntico jedi, garantiria a “governabilidade” com o bloco de pmdebistas, considerados fieis e leais escudeiros. Égua Fátima. Foi essa gente que subiu no palanque dela, desde 2010. Que comemorou e possibilitou a eleição da primeira mulher PRESIDENTA do Brasil. Caramba Fátima, que mancha maldita na história, heim. Pois é, o Michelzinho tava lá e foi muito bem recebido pela corte de Lula e Dilma. E eu àquela altura, quando já não esperava que nada mais me surpreendesse, tenho o tapete puxado novamente. Os quatro dedinhos de Lula apertando a mão do Mafuf, nas eleições de 2012, foi demais. Sabe Fátima, acho que nunca tinha sentido tanta desilusão, frustração, raiva e nojo ao mesmo tempo. E o pior é que os caras assumem tudo na maior cara de pau, dizendo que isso faz parte do jogo democrático. Puta que o pariu, Fátima. Não dá. Lula apertando a mão do Maluf e arrotando democracia, deu vontade de entrar na Millennium Falcon e me escafeder pra galáxia mais distante possível. Olha Fátima, dizem que errar uma vez é humano, mas errar duas vezes é estupidez das brabas. E eu te pergunto, Fátima: quem era o vice-presidente na chapa da Dilma em 2014? O Michelzinmho de novo. Karaléo!!! De novo o voduzento, Temer. Égua Fátima, te juro que se dependesse só de mim, eu mirava a Estrela da Morte bem na direção do Planalto Central e disparava sem piedade. E agora, Fátima, depois da merda que deu colocar os sith como aliados, esse povinho vermelho vem me falar de GOLPE? Puta que o pariu!!! Desculpa, Fátima, eu detesto usar palavrão, mas PUTA QUE O PARIU!. GOLPE AONDE, KARALÉO!? Depois que o Lula apertou a mão do Maluf, golpe aonde, cara de cu? E o pior de tudo, Fátima, é que diante de todas essas cagadas, eu é quem sou taxado de facista, reacionário, escroto e ainda sou acusado de estar fazendo performance política blasé. Olha Fátima, pra não mandar tomo mundo tomar no Jakku, só mesmo muitas sessões de terapia contigo.
Edson Fernando
26 de Abril de 2017.          
FICHA TÉCNICA
Montagem Teatral: PopPorn
Elenco:
Eliane Flexa, Erllon Viegas, Gisele Guedes, Leonardo Moraes, Rony Hofstatter, Sandra Perlin e Saulo Sisnando.
Participação Especial:
 Drag queen Tiffany Boo e do bailarino Mauro Santos.
Iluminação:
 Sônia Lopes
Sonoplastia:
 Breno Monteiro
Supervisão de Figurinos:
Grazi Ribeiro
Assistência de Direção:
Marina Dahás.
Direção:

Saulo Sisnando

quarta-feira, 22 de março de 2017

PopPorn e o sentido da vida – Por Leonel Ferreira.

Leonel Ferreira: Artista de Teatro e Sociólogo. Participante do Minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?”
Qual o sentido da vida para jovens adultos que vivem em Belém? Casa própria, um grande amor, um filho, um emprego estável, ser um profissional respeitado, ser elegantemente bela, manter as tradições da família, salvar o mundo, um grande amor...
Esse é o mote da encenação do Grupo Teatro de Apartamento para o espetáculo PorPorn, com dramaturgia e direção de Saulo Sisnando. Talvez essa seja a pergunta mais enigmática para qualquer mortal.
Dividida em esquetes[1] e ambientada num consultório terapêutico, cada personagem desfila suas confidências mais intimas com a/o terapeuta, sendo que este não está em cena, já que cada esquete pode ser entendida como um monólogo. A plateia assiste, então, dramas pessoais que se encaixam perfeitamente na vida de qualquer pessoa que está ali para assistir a um espetáculo de teatro, pois certamente temos uma amiga que acredita em quiromancia, nos astros e tudo mais que possa trazer a pessoa amada, bem como temos aquele amigo machista, homofóbico que justifica suas atitudes violentas por ser simplesmente o macho-alfa, que acredita que gays são aberrações e devem ser exterminados da face da terra.
A peça teve sua primeira montagem há dez anos a convite da Cia de Teatro Madalenas a Saulo Sisnando e se mostra atual onde se percebe que pouco mudou na sociedade brasileira no que tange aos estigmas e preconceitos. A peça vai do humor ao drama num ritmo meticuloso e as cenas são entrecortadas com performances de uma dragqueen e um gogo boy ao som de musicas pop que fazem a mudança de uma cena para a outra.
Cabe destacar que as passagens humorísticas são verdadeiras tragédias pessoais, pois não há nada engraçado quando se vive de “foras” amorosos. Não há nada engraçado no puritanismo de algumas mulheres que foram educadas para serem belas, recatadas e do lar. Não há nada engraçado em se ouvir piadas de escritório a respeito da orientação sexual de uma pessoa. Não há nada de engraçado em saber que um colega de turma de faculdade faz programas como transvestir para pagar a mensalidade a fim de concluir o curso. Entretanto, o público se espoca de rir. Aqui reside a força de PopPorn de Saulo Sisnando, ele consegue colocar o dedo na ferida, em nossas feridas,  nos faz vestir a carapuça da  hipocrisia disfarçadas  de licença humorística.
A sutileza com que os dramas pessoais são expostos, divididos com a plateia, nos coloca na condição não só de espectador, mas também de próprios analisados numa espécie de consultório que não mais a da/do terapeuta, mas sim a sala de teatro onde muitos chegam a ele, o teatro, para tentar se encontrar, responder algumas questões de ordem pessoal, encontrar o sentido da vida.
...On vit au jour le jour
Nos envies, nos amours
On s'enva sans savoir
On esttoujours
Dans La même histoire
La même histoire.[2]

A arte imita a vida. PopPorn é o tipo de peça inspirada em acontecimentos de vidas comuns, pois não há nada mais autêntico e pertinente  na vida do que tentar  encontrar o sentido da vida. A música La Meme Histoire, de Leslie Feist, que é utilizada tanto na abertura, quanto no encerramento do espetáculo, imprime o tom do espetáculo. De certa forma ela suaviza nossos corações após nos serem confidenciadas tantas desgraças. E com todos os percalços que a vida possa apresentar, e mesmo que o amor não tenha vindo ou que não tenha acontecido, ou ainda venha transvestido de uma matéria confusa ou mal compreendida, a vida segue, pois não se deve desistir de encontrar um sentido para o que nos acontece, nem que para isso se tenha que virar as costas para tudo e buscar a felicidade em Catimandu, no Nepal ou em Curralinho, na ilha do Marajó ou ainda, quem sabe, reunir os amigos, formar um grupo e fazer teatro.
Leonel Ferreira
21 de Março de 2017.

FICHA TÉCNICA
Elenco:
Eliane Flexa, Erllon Viegas, Gisele Guedes, Leonardo Moraes, Rony Hofstatter, Sandra Perlin e Saulo Sisnando.
Participação Especial:
 Drag queen Tiffany Boo e do bailarino Mauro Santos.
Iluminação:
 Sônia Lopes
Sonoplastia:
 Breno Monteiro
Supervisão de Figurinos:
Grazi Ribeiro
Assistência de Direção:
Marina Dahás.
Direção:
Saulo Sisnando


Referências
PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São Paulo: Perspectiva, 2005.

LETRA. https://www.letras.mus.br/feist/781533/traducao.html    


[1] Segundo Patrice Pavis, “esquete é uma cena curta que apresenta uma situação geralmente cômica, interpretada por um número de atores sem caracterização aprofundada ou de intriga aos saltos e insistindo nos momentos engraçados e subversivos. O esquete é, sobretudo, o número de atores de teatro ligeiro que interpretam uma personagem ou uma cena com base em um texto humorístico e satírico”. (2005, p.143)

[2] Trecho da música La Meme Histoire, de Leslie Feist. Tradução direta: “Vivemos todos os dias nossos desejos, nossos amores. Partimos sem saber que estamos sempre na mesma história, na mesma história”

segunda-feira, 20 de março de 2017

Brasil Natural ou Atual? – Por Nanda Lima

Nanda Lima: Psicóloga, tradutora e interprete em Língua Inglesa. Participante do Minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?”

Domingo, 12 de março de 2017, o teatro Margarida Schivasappa apresentou em Belém o espetáculo O Cortiço, livre adaptação em montagem paraense, com elenco de jovens atores, baseada na obra de Aluísio de Azevedo.
O Cortiço é um marco do naturalismo brasileiro, uma ramificação radical do Realismo, que retrata a realidade na sua forma mais natural possível. Isto me remeteu a uma ideia, uma dúvida, uma inquietação. Ou talvez só mesmo um alerta sobre palavras e as atitudes que elas imprimem. A compreensão equivocada do que é natural, o que é normal, o que é comum. Entendo que comum é o consenso, o comportamento da maioria, altera-se de sociedade para sociedade, ou até mesmo de grupo social para grupo social. Normal é o que obedece a norma vigente, este padrão muda mais rápido do que o tempo, o que foi ontem com certeza não é mais hoje e não o será mais amanhã.
No entanto, o que mais me chamou a atenção no espetáculo é o termo natural, que deveria significar o que reza a natureza. E o que de natural tem em O Cortiço? O que é a natureza? O que ela costuma ser? A natureza desperta um equilíbrio constante, equânime, é natural ser ambiciosos, querer a mais valia para si, desejar o outro? Ou o fraterno e humano é mais natural? Para a Literatura o natural é o crescer e aparecer das nulidades, o agitar do poder nas mãos dos corruptos e indignos, ou somente seria a interpretação em nós de que somos humanos, e a humanidade e um ‘desapegar-se’ da virtude, rir-se da honra e ter vergonha do honesto?
Mergulhei de cabeça no mundo que Tiago de Pinho fez questão de nos recordar, ou poderia dizer: cutucar com a ponta das unhas de seus atores. Uma imersão ao naturalismo brasileiro, de personagens que sangram e desgraçam qualquer tentativa de virtude entre pobres e reles mortais. Há um incomodo ao final, um gosto amargo que fica no sorriso dos presentes.
Veja bem, a caracterização e a forma de expressão corporal sempre me foram valorizadas, no entanto os olhos de dor da mulata mal provida e mal falada, a voz pouco ouvida, pouco falada. As personagens femininas deram um tom cômico-trágico numa fina ceda. Há arte dentro da arte.
Chamou-me a atenção também a trilha sonora interpretada por Renata, ao vivo, o samba de raiz com clássicos como “Isso aqui, o que é?” e “O mundo é um moinho” tomaram o clima ainda mais intimista e favelesco. Estamos afinal na baixadas, no reduto, na favela, estamos à mercê da própria sorte, e que belo encontro entre personagens.
Andei pelos passos de João Romão com seus olhos ambiciosos e aprumados. Remexi ao longo do rebolado de Rita Baiana, desvirtuadora de inocentes ou desveladora de vicissitudes. Chorei na pele do abuso, o sexo contaminado pela violência e o descaso público e familiar de Pombinha. A traição a Bertoleza, escrava de nome, escrava sem refugio, sem fortaleza. Agonizei sob apunhaladas e traições ao que via o retrato fidedigno das relações internas de uma sociedade hipócrita sob um olhar realista, natural.
Tiago de Pinho inovou na construção repaginada dos personagens já celebres, conversando com o público em pele crua, trazendo à tona as margens de onde se incitaram preconceitos. Trouxe-nos o que há de mais antigo e mais atual para se discutir. O Cortiço vive em nós, o meio influencia cada particularidade, cada subjetividade, até onde nós somos donos de nossas decisões? De nós mesmos?
O público ri, vendo a sátira da vida, e em momentos lágrimas são controladas em olhos marejados da plateia, que sempre que pode bate palmas. Os alunos do Studio de Artes Tiago de Pinho deram vazão ao lugar desgraçado, habitado pelos marginais que ocupam o lugar do natural. E ser natural no Brasil o que é?
Nanda Lima

20 de Março de 2017

quarta-feira, 8 de março de 2017

Une rose pour la demoiselle – Por Ramon Oliveira

Ramon Oliveira: Participante do Minicurso de crítica em teatral “O que pode uma crítica teatral?”
Apesar da existência secular da obra A Bela e a Fera com adaptação ao público infantil, no último sábado (4/03/2017) foi a primeira vez que realmente parei para assistir essa peça que foi muito bem elaborada pelo Grupo Encenação Cultural do Pará, com direção de Fernando Matos.
Penso que antes mesmo dos atores entrarem em cena, a encenação começou quando os petits enfants batiam palmas fervorosamente seguindo o ritmo da música que tocava enquanto aguardávamos a terceira sirene para nos deleitarmos com a peça.
As luzes se apagam e tudo começa. Inicialmente, um locutor nos contava como a Fera tinha sido enfeitiçada, enquanto isso, as crianças perguntavam aos seus pais onde estava a Bela e quando ela finalmente apareceu, todos ficaram agraciados com sua beleza e simplicidade. Neste momento, todos se calam para que fosse possível escutar aquela voz doce e carinhosa.
Posteriormente, tive contato com o primeiro e único vilão da peça, Arcádio, o caçador. Arcádio era um belo caçador que nitidamente possuía um ego maior que seu corpo poderia suportar. O grupo Encenação, possivelmente, quis fazer um alerta ou até mesmo uma crítica sobre as atitudes do caçador para com Bela. Por ser jovem, bonito e possuir músculos apetecíveis às damas do pequeno vilarejo, Arcádio acreditava que Bela deveria ser sua esposa, já que mulher alguma havia o rejeitado. Além disso, ficou implícito, que Bela tenha sido vítima de assédio moral, tendo em vista que aquele contato que ambos tiveram não tenha sido o primeiro em que Arcádio tenha afirmado que a demoiselle seria sua esposa.
Um outro momento de tensão na peça, foi quando o pai de Bela sai para receber o dinheiro por ter vendido toda sua mercadoria, e na pressa de chegar ao destino, ele decide cortar caminho, mas quis o destino que ele se perdesse e curiosamente acaba entrando em um castelo que aparentemente era silencioso. Enquanto tentava pegar a rosa mais bonita do vaso, esse nobre senhor foi surpreendido pela Fera, por um Candelabro e por um Relógio que também tinham sido enfeitiçados. Apesar do bom humor dos objetos falantes, o pai da jovem camponesa foi feito prisioneiro pela Fera, enquanto que no vilarejo, Bela, aflita pela demora de seu pai, decidi procurá-lo.
Depois de muito andar, Bela finalmente volta a ouvir a voz de seu pai, mas para vê-lo livre, ela teria que ficar em seu lugar, se tornar a prisioneira da Fera. Demonstrando afeto e carinho ao pai, aquela jovem, de tez branca e cabelos negros, aceita ser prisioneira da grande Fera que subitamente a convida para um jantar e lhe dá a melhor roupa e conta a ela a verdadeira história de seu feitiço. Para sua surpresa e para felicidade de todos que estavam naquele teatro, Bela mostrou um dom que está cada vez mais escasso, o dom de enxergar a grande beleza, ela conseguia ver a bondade, a proteção, quiçá, o amor dentro daquele corpo que por fora passava medo aos outros.
A peça chega ao seu fim com um gracioso gesto de admiração e desejo quando Bela recebe, do que já não é mais a fera, e sim o Príncipe, a mais bela e cheirosa rosa e um cálido beijo gerado pelo jogo de luz e sombra causando euforia aos que assistiam maravilhados essa encenação.
Ramon Oliveira
8 de Março de 2017

FICHA TÉCNICA:
ELENCO:
BELA - Irlene Rocha
FERA - Fernando Matos
PAI DE BELA - Bruno Torres
FELIPE DE VARENA - Robson Carrera
PIERRE - Ricardo Tomaz
DUMONT - João Júnior
BERTRAN - Adiel Cuca
ARCADIO - Kallil Marques
AQUINO - Eduardo Vianna
LOBOS - Ariele Macedo, Max Nascimento, Pedro Grobério, Victor Rocha
FIGURINOS:
Irlene Rocha
SONOPLASTIA:
Daniel Matos
LUZ:
JR
MAQUIAGEM:
Paloma Lima
APOIO TÉCNICO:
Jorgeanne Lelis, Adria Matos
PRODUÇÃO:
Phellipe Marques, Fernando Matos
DIREÇÃO GERAL:
Fernando Matos

terça-feira, 7 de março de 2017

Estória de Carnaval – Por Lorena Coelho.

Lorena Coelho: Graduanda de Licenciatura em Teatro – UFPA; Participante do Minicurso de Crítica Teatral “O que pode uma crítica teatral?”

Querida Yara,
Minha querida, gostaria de relatar algo que me marcou nesta manhã de sábado, onde o dia amanheceu quente com um lindo sol nos iluminando. Fui convidado para assistir uma apresentação de contação de história que aconteceu no SESC Boulevard em frente a Baía do Guajará. Ao chagar lá me deparei com um ambiente muito confortável, com muitas crianças e um cenário mágico que me trouxe alegria. Ao sentar-me em uma das poltronas, escutei passos corridos na escada de ferro, meu batimento cardíaco acompanhou cada pisada e quanto mais forte o barulho mais a ansiedade crescia junto com a vontade de estar com você.
Ninguém queria perder a hora da apresentação, as crianças correram para conseguir um lugarzinho no tatame, em frente ao palco, com aquela euforia própria delas. A contação começou com uma linda narrativa, sobre o carnaval, época que mais gosto porque foi nela que eu te conheci. Então, duas mulheres entraram para contar histórias de carnaval. Elas estavam tão lindas e fofas com aquelas roupas e maquiagens. Elas também cantaram varias marchinhas de carnaval, animando a todos que ali estavam. Senti-me em uma maquina do tempo, voltando ao passado e lembrando uma época que já se foi. Então, neste momento construir um mundo mágico em minha volta.
Então não era mais eu, e sim um garoto vivendo toda a magia do carnaval na cidade das mangueiras. Voltei a enxergar com aqueles olhos de criança levada que se perdeu com o tempo. Brinquei de ser os personagens das histórias, onde relembrei como era ser o seu  Pierro e você minha Colombina e por alguns minutos senti sua presença, o que me trouxe muita  paz. Aproveitei ao máximo todas aquelas lindas sensações. 
Quando a magia acabou, voltei a perceber o mundo com o olhar de um adulto indagador, sem a fantasia das crianças. Voltando para realidade comecei a fazer-me as seguintes pergunta:“contação de historias é ou não teatro”?. No entanto, tudo para mim foi como um sonho, e quero acreditar que foi um lindo espetáculo teatral em forma de contação de história. A contação de história encerrou com nossa marchinha favorita. Fiquei muito feliz em poder contar-te essa história e agora me despeço minha querida Yara com o trecho que alegrou o nosso amor.
Bandeira Branca, Amor
Não Posso Mais
Pela Saudade
Que Me Invade
Eu Peço Paz
                        
De seu eterno amor: Akuanduba
P.S : Ainda fico com a sensação de que a magia dessa estória ainda não acabou...
Em Belém, 4 de março de 2017


Lorena Coelho
7 de Março de 2017.


FICHA TÉCNICA:
Contação de Histórias
Título:
Historias de carnaval
Contadoras:
Alana Lima, Joana Chagas e Lilian Ticia.
Músicas:
Marchinhas de carnaval
Recitação de poemas:
Joana Chagas
Figurino:
Rosa Marina Leitão
Coordenação Geral:

Cleo Oliveira

segunda-feira, 6 de março de 2017

Romeu & Julieta Paraense – Por Marta Teixeira

Marta Teixeira: Atriz; Acadêmica de Licenciatura em Teatro na Universidade Federal do Pará; Participante do Minicurso de Crítica Teatral: “O que pode uma crítica teatral?”  
Espetáculo baseado em uma das obras mais conhecidas de William Shakespeare, adaptado para um contexto paraense e interpretado por clowns. “Você já imaginou se Romeu & Julieta vivessem em Veropa e suas famílias fossem rivais por causa de suas aparelhagens?” (Fanpage: CIA dos Notáveis Clowns).
A localidade foi assemelhada antes mesmo de começar o espetáculo. Na bilheteria algumas pessoas reclamavam pelo fato de terem reservado o ingresso e por, algum motivo, não haver o ingresso. Na sala de espera do teatro a fila dava voltas, as pessoas estavam ficando estressadas com o fato de o relógio apontar às 18h00 e ainda não terem liberado a entrada; até que em certo momento começaram a proclamar: “Começa! Começa! Começa! [...]”. Quando a entrada foi liberada se tinha a visão de pessoas saindo de um ônibus lotado, e algumas pessoas ficaram ainda mais inconformadas com o fato da apresentação ter início na praça do CENTUR.
Para os que ficaram do lado de fora do teatro foi pedido à formação da platéia em meia lua para que houvesse o início da apresentação; este início lembrava bem o mercado do Ver-o-Peso: um dos personagens entregando panfletos sobre a apresentação que iria acontecer, um carro de som improvisado reforçando o convite, os atores no centro e pessoas ao redor.
O espetáculo inicia com as disputas entre as aparelhagens – do lado esquerdo a família Capuleto com sua aparelhagem de Tecnobrega e do lado direito a família Montecchio com sua aparelhagem de Bregas marcantes; alguns atores interagiam com o público convidando algumas pessoas para dançar. Em seguida, entra o narrador para anunciar que qualquer atentado ao sossego e a paz seria punido com a morte do ofensor – após isso todos se dirigem ao teatro.
Ao entrar no teatro se observava grande parte dos acentos ocupados, pois, infelizmente, algumas pessoas não assistiram o inicio da apresentação; como a demanda foi grande houve pessoas que ficaram em pé – o teatro ficou tão cheio que suas portas ficaram abertas.
Em um determinado momento do espetáculo tive a sensação de estar no Teatro Elisabetano, pois algumas crianças foram para a beira do palco assistir a apresentação e elas ficavam interagindo com quem estava na cena.
O espetáculo fluiu bem; por ser interpretado por clowns é evidente que a comicidade estava presente. Para finalizar a apresentação os atores convidaram as crianças para subir ao palco e dançarem com eles. Entretanto, alguns pais e/ou responsáveis também subiram ao palco para fotografar as crianças com os atores e foi pedido para que eles esperassem o encerramento para poderem registrar. Enfim, foi um espetáculo que arrancou muitas risadas da platéia e foi muito aplaudido.
Marta Teixeira
6 de março de 2017
Ficha técnica:
Realização:
Cia. dos Notáveis Clowns –
SEIVA – Fundação Cultural do Estado do Pará – Governo do Pará
Apoio cultural:
Parque Musical – CEB Aldeia – Grupo Experimental de Teatro Aldeato
Elenco:
Adhara Belo, Ariane Caldas, Artur Neves, Erurico, Hudson dos Passos, Jimi Brito, Roberta Passinho, Luciano Lira, Nilton Cézar, Neire Lopes, Wallace Horst
Carpintaria:
Rubinaldo Soares Silva
Adereços:
Rubinaldo Júnior, Wallace Horst
Visualidade:
Cléber Cajun
Confecção de figurino:
Olívia Dias
Operação de iluminação:
Enoque Paulino
Design gráfico:
Raíssa Araújo
Assessoria de imprensa:
Leandro Oliveira
Dramaturgia:
Livre adaptação da companhia
Direção geral:
João Guilherme Ribeiro Pinho


À meia luz – Por Maria Christina

Maria Christina: Participante do Minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?” 
O texto sobre o qual se baseou a atuação dos atores de O Conto das Duas Ilhas, e a ideia que inspirou o cenário, as figuras e os movimentos das marionetes, foram soprados pelas asas de pássaros migrantes em voo de retorno ao lar no ouvido de um poeta que os reproduziu em versos à sua amada, que cantava enquanto costurava colchas coloridas e circulares impregnando-as de alegria, e vendidas a viajantes estrangeiros se espalharam pelo mundo reconhecidas como mandalas, chegando a importantes sítios de contemplação, tornando-se motivo de intensos trabalhos literários que decodificaram seus traços e linhas, dando-lhes outras formas, permitindo-lhes, assim, chegarem a mais e mais lugares.
Essa inspiração viajou durante milênios, atravessou o mundo várias vezes, sendo depositada suavemente em mãos que a teceram em finíssimas linhas revelando sua face e voz. Generosamente nos foi ofertado sob a forma de peça teatral, permitindo que céu e terra dialogassem um tema que nos convida a uma viagem não só pela imaginação, mas pelo interior de sonhos que nascem da poesia.
O que se vê no espetáculo, todo ele à meia luz, são os ecos daquele sussurro, travestidos de misteriosos olhares que se movem lentamente no presente, dedilhando as cordas do tempo a nos lembrar da tênue linha que nos separa do infinito.
Há algo de tímido naqueles atores, um certo ar pueril que acentua a nota delicada dos movimentos, totalmente envolvidos pela trilha repleta de poesia impressa em cada nota musical e no timbre de voz do cantor. Todos eles por certo comungam da reflexão de Horácio sobre o que está por trás das ondas e do horizonte – eles também perscrutam o exíguo ambiente antes do passo seguinte. A incerteza é a única certeza, força motriz e incentivo, e o que alimenta o desejo.
Disse Gandhi, certa vez, sobre o caminho para a paz: "a paz é o caminho". Das tantas matérias que a paz é feita, certamente a arte contribui com elementos fundamentais a compor essa argamassa que não cessa de se reinventar a cada tempo, a cada cena e cada som, base necessária a manter a esperança dos que amam, apesar dos tempos difíceis, em que cobiça e ego habitam tantos corações. Mas a arte resiste – e nós, com ela.
Maria Christina
6 de Março de 2017
Ficha Técnica
Dramaturgia:
San Rodrigues
Marionetistas:
San Rodrigues e Nina Brito
Construção de Marionetes:
San Rodrigues
Cenografia:
Nina Brito
Iluminação Cênica:
Marckson de Moraes
Trilha Sonora Original:
Renato Torres
Canções:
Marília, Além e O Primeiro Veleiro (San Rodrigues)
Vozes dos Marionetes:
Renato Torres (Carapirá), San Rodrigues (Horácio) e Nina Brito(Marília)
Assistente de Atelier:
Glaucia de Jesus
Adereços de cena (Sol e Lua):
Luciana do Carmo
Confecção de Figurino:
Anne Moraes
Equipe de Captura e Animação (Stop Motion):
San Rodrigues, Nina Brito, Marckson de Moraes e Gabriel Angelo
Registro e Edição de Vídeos e Imagens:
Alexandre Yuri
Assessoria de Imprensa:
Yorranna Oliveira
Produção Executiva:
Patrícia Ventura
“O Conto das Duas Ilhas”, do Projeto Camapu, ganhou o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2015