segunda-feira, 15 de maio de 2017

Carta ao dileto Andrade – Por Luka Paranoid.

Luka Paranoid: Flâneur malquisto nas cercanias da República Democrática de Rilexine.  

República Democrática de Rilexine, Maio bem distante de 68.
Ao dileto companheiro Raphael Andrade, sujeito que me confunde com outrem.
Observo com satisfação crescente que tens investido, sem reservas, no ofício de parir centauros. Justamente por isso, é de estranhar que te permitas deixar tantas perguntas sem respostas, iludindo-se ao acreditar encontrá-las em minha pessoa. Vivo para esvaziar-me das certezas, certo de que isso é uma tarefa árdua – embora extremamente prazerosa – que carregarei comigo pro resto da vida. O máximo que me atrevo a fazer é compartilhar pensamentos inquietantes – despretensiosos por natureza, intensos por acidente, e por vezes vorazes por necessidade. Caso isso te satisfaça, prossiga na leitura desta missiva, do contrário volte a chupar suas laranjas.   
Nunca houve relação direta entre os conceitos de “história” e “evolução”. Somente os historiadores tacanhos se deixam convencer e guiar pela ideia de progresso embutido na linearidade do avançar do tempo. E isso é um insulto a própria história da humanidade, pois se há algo de peculiar na natureza humana, certamente não é a ideia de progresso. O homem não progrediu com o tempo, a humanidade não avançou, não evoluiu e nem se modernizou. Quando muito, arriscaria dizer que colecionamos cultura, acumulamos bens culturais, reunimos valores, conceitos, tecnologias, ideias e/ou filosofias que nos fazem arrotar indelicadezas contra o passado. Não faço apologia à nostalgia, apenas cuspo na face da arrogância cientificista hodierna. Logo, perscrutar as revoluções pela via de uma suposta evolução histórica da humanidade ou das antigas civilizações não passa de uma pilhéria, um chiste com requintes de ironia concebido por sua mente maquiavélica – admiravelmente invejado por mim.
Lamento dizer, mas não existe uma cartilha ensinando as coordenadas para a grande revolução. Você cita alguns que considera grandes – Ciro, Alexandre, César, Napoleão, Dom Pedro, Princesa Isabel, Jesus Cristo –, mas seriam estes os paradigmáticos lideres para termos em mente? Infeliz do povo que precisa de heróis, nos lembra o dramaturgo alemão marxista considerado, por alguns de seus biógrafos, cúmplice das atrocidades da tirania stalinista na União Soviética. A vida é dura e não se escapa das contradições históricas sem manchar a mente ou as mãos de sangue. E além do mais ninguém pode colocar nas costas, sozinho, o peso de uma revolução. Então, tire essa responsabilidade das suas costas, afinal és franzino demais para bancar o exterminador do futuro dos moralistas de plantão. Tática de guerrilha ao invés dos grandes estratagemas militares, talvez seja uma perspectiva interessante para se exercitar. Arte como guerrilha, artista como guerrilheiro, nunca como herói.
Quanto aos assuntos ligados à fé, és um privilegiado por teres encontrado amparo no exemplo daquele que foi pregado na cruz. Por meu lado, lamento que a cruz tenha silenciado o grito subversivo do Jesus revolucionário que expulsou os vendilhões do templo de Jerusalém – expulsou na base da porrada mesmo, usando pontapés, socos e tocando o terror com um chicote em quem quer que tentasse impedi-lo. A profilaxia da cruz realizada pela igreja católica apostólica romana me embrulha o estomago. Por isso persigo a meta que outrora orientou o pensamento do Sr. Antonin Artaud, isto é, me esvaziar de cristianismo. Falo desse cristianismo reacionário que prega o baixar das cabeças, a resignação incondicional para se reencontrar com o “pai” numa outra vida. Nada mais anti-revolucionário que isso: renunciar a vida. Por isso esvazio-me do cristo profilático.         
Tens razão. Tua condição degradante descrita com certa dose de detalhes me rendeu boas gargalhadas. Não se trata de sadismo da minha parte, apenas exercito meu espírito de porco, a licença poética para fazer troça de tudo e de todos, incluído nossa própria desgraça, sem o pudor oriundo da ditadura do politicamente correto. Caguei pros falsos limites do politicamente correto. Vivemos num momento que só nos resta a zombaria, o escárnio, a chacota, o sarcasmo, a sátira, o achincalhe contra tudo e contra todos. Grito a piada de mau gosto! Quando a arte pediu licença pra questionar a humanidade? Grito o humor anárquico sem cor partidária! Queremos que a arte se transforme em panfleto ideológico? Grito o insulto jocoso contra os três poderes da República Democrática de Rilexine! Quando a arte defendeu o establishment – nos esquecemos de Joseph Goebbels? Grito a troça zombeteira apontando o dedo para os líderes espirituais! Queremos fazer arte ou catequese? Grito e rolo de gargalhar debochadamente do pensamento asséptico que orienta as bandeiras das minorias. É preciso defender as bandeiras, mas combater a chatice. Os chatos me dão urticária. Grito tendo em mente a dor e a delicia de ARTEAR num mundo cinza e ranzinza.
Evito, por ora, Falar das Flores, pois perdi oportunidade de visitar o jardim da Casa da Atriz. Acreditas que comprei o passaporte para te visitar na prisão, mas fui acometido por um niilismo súbito. Quando o tédio bate à minha porta, torno-me pessoa ainda mais intragável que o de costume. Resolvi não te ver na prisão. Sou egoísta: guardei o sabor amargo do meu mau humor só pra mim. No entanto, não me furto em dizer que a conjuntura nacional em Rilexine é tão bizarra que explica a ascensão de falsos profetas de bíblia e escopeta na mão. É curioso e insólito admitir que estes exorcistas dos mil demônios arregimentam seus seguidores, com certa e assustadora facilidade, por serem uns dos poucos no quadro político que apresentam convicção ideológica. Professam publicamente suas intenções nefastas, sexistas, moralistas, religiosas, preconceituosas. Evidentemente trata-se de uma ideologia espúria que revela a pobreza de nossos quadros políticos contaminados com um sistema econômico-eleitoral-politiqueiro de dar nojo. O cidadão de Rilexine baratinado em meio ao caos e degeneração política da nação é levado acreditar que os porcos de bíblia e escopeta serão responsáveis pela limpeza do chiqueiro. Esta parece ser nossa tragédia em curso.
Por fim, peço-te não me confundir com o tal do Nando Silva, docente sabe-se lá de que paragens. Este por certo deve ser também um cretino de carteirinha. Ele não me interessa, pois se escolheu ganhar a vida dando aulas de teatro, por certo é figura inútil. Teatro não se ensina. Teatro não se aprende. Teatro é atitude. Portanto, se desejas mesmo seguir o caminho das práticas teatrais deves oferecer a própria cabeça como oferta para os ditirambos, sem ambicionar nenhum tipo de reconhecimento ou sucesso em troca. O teatro é um antro que abriga um bando de centauros insurgentes. Impossível ensinar a arte de insurreição.    
Faço votos para que continues parindo centauros.  
Luka Paranoid
15 de Maio de 2017.     

      

3 comentários:

  1. Em uma mesa branca, o agora Ovo- Raphael Andrade é outrem. De tanto parir, ficou oco. Mas não um qualquer! metamorfoseei na espécie Lispector . Quando não se é estranho não ter respostas, o mais importante é fazer analogias. Segue- "De manhã na cozinha sobre a mesa vejo o ovo.
    Olho o ovo com um só olhar. Imediatamente percebo que não se pode estar vendo um ovo. Ver o ovo nunca se mantêm no presente: mal vejo um ovo e já se torna ter visto o ovo há três milênios. – No próprio instante de se ver o ovo ele é a lembrança de um ovo. – Só vê o ovo quem já o tiver visto. – Ao ver o ovo é tarde demais: ovo visto, ovo perdido. – Ver o ovo é a promessa de um dia chegar a ver o ovo. – Olhar curto e indivisível; se é que há pensamento; não há; há o ovo. – Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora. Ficarei com o ovo. – O ovo não tem um si-mesmo. Individualmente ele não existe.
    Ver o ovo é impossível: o ovo é supervisível como há sons supersônicos. Ninguém é capaz de ver o ovo. O cão vê o ovo? Só as máquinas vêem o ovo. O guindaste vê o ovo. – Quando eu era antiga um ovo pousou no meu ombro. – O amor pelo ovo também não se sente. O amor pelo ovo é supersensível. A gente não sabe que ama o ovo. – Quando eu era antiga fui depositária do ovo e caminhei de leve para não entornar o silêncio do ovo. Quando morri, tiraram de mim o ovo com cuidado. Ainda estava vivo. – Só quem visse o mundo veria o ovo. Como o mundo o ovo é óbvio.
    O ovo não existe mais. Como a luz de uma estrela já morta, o ovo propriamente dito não existe mais. – Você é perfeito, ovo. Você é branco. – A você dedico o começo. A você dedico a primeira vez.
    Ao ovo dedico a nação chinesa.
    O ovo é uma coisa suspensa. Nunca pousou. Quando pousa, não foi ele quem pousou. Foi uma coisa que ficou embaixo do ovo. – Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo. Tomo o maior cuidado de não entendê-lo. Sendo impossível entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. Entender é a prova do erro. Entendê-lo não é o modo de vê-lo. – Jamais pensar no ovo é um modo de tê-lo visto. – Será que sei do ovo? É quase certo que sei. Assim: existo, logo sei. – O que eu não sei do ovo é o que realmente importa. O que eu não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito. – A Lua é habitada por ovos.
    O ovo é uma exteriorização. Ter uma casca é dar-se.- O ovo desnuda a cozinha. Faz da mesa um plano inclinado. O ovo expõe. – Quem se aprofunda num ovo, quem vê mais do que a superfície do ovo, está querendo outra coisa: está com fome.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Sr. Luka Paranoid, acho deveras importante ser um ovo, mesmo que seja oco. Agora irei para casa descascar laranjas simbólicas. Abraço.

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