terça-feira, 16 de maio de 2017

Flores trazidas por ela – Por Ramon Oliveira

Montagem teatral: Falando sobre Flores
Autor da Crítica: Ramon Oliveira. Participante do Mini curso “O que pode uma crítica teatral?”

Proteção
(Plebe Rude)
Será verdade, será que não
nada do que posso falar
e tudo isso prá sua proteção
nada do que posso falar

A PM na rua, a guarda nacional
nosso medo suas armas, a coisa não tá mal
a instituição esta aí para a nossa proteção

Pra sua proteção

Tanques lá fora, exército de plantão
apontados aqui pro interior
e tudo isso para sua proteção
pro governo poder se impor

A PM na rua, nosso medo de viver
um consolo é que eles vão me proteger
aunica pergunta é: me proteger do que?

Sou uma minoria mas pelo menos falo o que quero apesar da repressão

Tropas de choque, PM's armados
mantêm o povo no seu lugar
Mas logo é preso, ideologias marcadas
se alguém quiser se rebelar

Oposição reprimida, radicais calados
toda a angustia do povo é silênciada
Tudo pra manter a boa imagem do Estado!

Sou uma minoria mas pelo menos falo o que quero apesar da repressão

Armas polidas, os canos se esquentam
esperando a sua função
exército bravo e o governo lamenta
que o povo aprendeu a dizer não

Até quando o Brasil vai poder suportar?
Código penal não deixa o povo rebelar
Autarquia baseados em armas não dá
E tudo isso é para a sua segurança

Para a sua segurança


A partir daqui, começa essa dificílima missão de explicar o que vi, mediante uma atuação feminina. Pois, é! A melhor sacada daquela peça foi mostrar que o sexo não é frágil como muitos dizem ser. Apesar de ter sido uma atuação, é preciso ter culhão para fazer o que a Demi Araújo fez.
Indiscutivelmente, o que mais me tocou na peça inteira, e com esse trecho, tentar me aproximar ao máximo de um discurso feminino, foi uma cena de ameaça, uma cena em que a incitação ao estupro é escancarada a todos e ela, interpretando ele disse “está vendo este cassetete aqui? Pois bem, se você não me falar onde estão teus amigos, eu vou enfiar esse cassetete no cu da sua esposa, e depois na buceta dela até que sangre, e depois irei trazer para você matar a saudade do cheiro da sua mulher grávida”. Como disse anteriormente, é preciso “ter culhão” para fazer isso. Essa frase sendo proferida por uma mulher soa muito mais doloroso, pois só elas sabem o que é ser abordada todo santo dia, só elas sabem do assédio sexual opressor que sofrem. E por uma mulher que provavelmente defende a causa do movimento feminino na luta pelo respeito e reconhecimento, pela igualdade que ainda inexiste em sua plenitude, falar tudo aquilo, vociferando, agindo como um homem militar opressor.
Tudo que ela fez dá muito mais enfoque pois veio de uma mulher, ela sabe e sente muito mais cada palavra proferida naquele momento. Em algumas vezes é até admirável atitudes masculinas, mas nunca, nunca irá se equivaler a um discurso feminino sobre assédio, abuso e estupro.
Acredito que a encenação pudesse perder em emoção se a cena relatada fosse feita pelo Renan Coelho. Quero deixar extremamente claro aqui que não estou denegrindo a imagem do ator que fez também com muita emoção cada cena, no entanto, acho que para a comoção chegar onde chegou, realmente era necessário que fosse feito por ela. Não mudaria em nada do que vi ontem, palavrão na medida certa, tensão na medida certa e amor pela profissão mais do que certa.
Como seria para um homem, com os seus 60 anos, um tanto quanto conservador... Será que ele iria gostar do Falando sobre Flores? Ou será que ele falaria que aquilo lá era uma pouca vergonha, pois, onde já se viu uma mulher representar um autoritário opressor, onde já se viu uma mulher fazendo papel de homem, onde já se viu um homem apanhando de uma mulher sem fazer nada? É, nós sabemos que os tempos são outros, mas por qual motivo será que a cabeça de certas pessoas não evolui?
15 de Maio de 2017.

Ficha Técnica:
Montagem Teatral 
Falando Sobre Flores
Direção:
Karine Jansen
Dramaturgia:
Renan Coelho
Atores:
Renan Coelho e Demi Araújo
Iluminação:
Luciana Porto
Sonoplastia:
Jairo dos Anjos
Aderecista:
João Calado

Julgamento dos pecadores – Por Diego Maia da Costa

Crítica à montagem teatral: Lúgubre.  
Diego Maia da Costa: graduando em História na Universidade Federal do Pará e aluno do minicurso “O que pode uma crítica teatral? ”.

De repente, eu estava lá. Em meio aquele incendiário amarelo de aspecto tenebroso. Sujeitos de distintas tribos e classes sociais me acompanhavam, tão desorientados quanto um doleiro a caminho do paraíso. Olhávamos, uns aos outros, estarrecidos por um temeroso presságio que a cada minuto, parecia confirmar-se.
Seres estranhos e aparentemente malignos, após emergirem sei lá de onde, direcionaram-nos a uma espécie de “cordão de isolamento”, e rodearam-nos manipulados por trejeitos alucinógenos. Minha alma gritava socorro, mas meu corpóreo, estarrecido pelo medo, mantinha-se petrificado em meio ao “círculo do pânico”.
Sem voz, observava o movimento agonizante dos pobres diabos anfitriões. Quem eram? De onde vieram? Quem esperam? Por que estou aqui? Eu quero a minha mãe!
Desesperado, sou surpreendido pelo que acho ser o líder dos “condenados”. Diferentemente dos outros, ele fala, discursa e critica uma certa sociedade escravizada. Porém, reflexo da sociedade corruptível (e alienada) que nos permeia, o irradiante orador logo junta-se a nós e aos outros na peregrinação ao que acho ser o fim da linha. O que já era aterrador, tornava-se, a cada passo, infernal.
E chegamos... ao ceticamente inacreditável: o julgamento dos pecadores.
 – Mas o que eu fiz para estar aqui?
  – Eu pequei?!
 – Não!
– Desde que nasci, segui todos os dogmas da Igreja Católica Apostólica Romana! Nunca matei, nem roubei; se xinguei ou ofendi alguém, tive, é claro, reais motivos para isso.
– É ... talvez tenha olhado taciturnamente a namorada de um amigo, mas foi força do instinto; por isso, não se configura pecado, não é?!
– Tudo bem ... talvez eu tenha “sacaneado” as feministas da Universidade, mas foi brincadeira, não machismo; não estou certo?
– E ... devo confessar: menti algumas (muitas) vezes, mas quem nunca mentiu?!
E assim, perdido em minhas hipócritas justificativas, passei a clamar mentalmente o misericordioso perdão. Porém, já não havia mais escapatória. Meu trágico destino paulatinamente aproximava-se.
Emudecido, ouvi o mais perverso sorriso de toda minha vida. Da escuridão, o executor daquele som demoníaco, lentamente personificava-se em nossa frente. Meus olhos, negavam-se a querer vê-lo, mas minha curiosidade animalesca sobrepunha-se a qualquer tipo de cegueira espontânea. E ele estava... diante de mim; sem qualquer pudor, sem qualquer disfarce; insaciável por aglutinar almas impuras em seu temível calabouço; era real, era fatal, era o mau.
O senhor das trevas era implacável, porém, justo. Todos os intermináveis réus que por ali passavam, certamente reverberavam sua defesa. Contudo, perdidos em suas próprias contradições, eram almejados pelo discurso moralista do Satanás e fadados ao martírio eterno.
E eu estava ali, marcado pela áurea pecaminosa de minhas ações, mas inapto ao futuro tormentoso. Um por um, éramos, então, julgados. Praticamente todos diziam-se inculpados, todavia, cada um, intrinsecamente reconhecia seus delitos.
Machismo, homofobia, ganância eram palavras entoadas numa frequência incontrolável em cada julgamento orquestrado pelo mais diabólico dos seres. Seu fatídico veredicto, desnorteava tanto os malévolos espíritos, que qualquer resistência era asfixiada pelo pranto extensivo. Não havia salvação, absolvição ou perdão. Tudo era previamente drástico e incontornável. Só havia uma e dolorida certeza: o sofrimento. 
Eis que chega a minha hora. O que falar? Nada. Prefiro o imaculado silêncio que me acompanhara em todo aquele mundo sombrio. Ouço as acusações sem pestanejar. Totalmente perplexo, escuto minha condenação. Abaixo a cabeça e caminho inconsolável em direção ao meu futuro e mórbido habitat. Vejo fogo, entranhas, vísceras, sangue... até uma voz suave, salvar-me daquele abismo irreversível.
– Amigo, o espetáculo já vai começar.
– Espetáculo?Ah, tá! Obrigado!
– Você sabe me dizer que horas são?
– 18h22min.
– Tá atrasado, não é?!
– Sim, como sempre!
– Você está bem?
– Acho que sim. Tive um sonho...
– Nossa! Era sobre o quê?
– Não sei. Tudo o que me lembro é que era... lúgubre.
15 de maio de 2017

Ficha Técnica:
Lúgubre
Cia Paraense de Potoqueiros
Elenco:
Alice Bandeira, Allyster Fagundes, Charles Roosevelt, Giscele Damasceno, Jadylson de Araújo, Juan Silva, Leoci Medeiros, Nilton Cézar e Valéria Lima.
Dramaturgia:
Breno Monteiro e Lauro Sousa
Direção de Visualidade:
Lauro Sousa
Figurino:
Lauro Sousa e Lucas Belo
Cenografia:
Breno Monteiro, Lauro Sousa e Lucas Belo
Iluminação:
Breno Monteiro
Maquiagem:
Nilton Cézar
Trilha Sonora:
Lauro Sousa
Operação de Sonoplastia:
Erllon Viegas
Direção Coreográfica:
Juan Silva
Preparação Corporal:
Leoci Medeiros
Mídias Sociais:
Nilton Cézar
Assessoria de Imprensa:
Allyster Fagundes e Nilton Cézar
Fotografia:
Allyster Fagundes
Direção:
Breno Monteiro
Apoio:

Casarão Viramundo, LB Assessoria e Cerimonial, Teatro Universitário Cláudio Barradas e Ná Figueredo.

Olho, logo imagino – Por Leonel Ferreira.

Contação de história: O Olho que transvê
Leonel Ferreira: Artista de Teatro e Sociólogo. Participante do Minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?”
Contação de história pode ser considerada um espetáculo de teatro? A discussão volta e meia surge no meio artístico em Belém nas rodas entre os que fazem contação de história e os que fazem teatro.  Bom, vamos então as análises, se é que cabe ainda este tipo de procedimento em tempos de relativização do fazer artístico.
Cabe destacar que no século XVII, era considerada peça de teatro uma obra literária ou musical: “Uma montagem ou colagem de diálogos ou monólogo. O primeiro mandamento é o desenrolar contínuo, fechado e progressivo dos motivos da ação, o suspense deve ser mantido continuamente” (PAVIS, 1999, p, 281).
Para Roland Barthes (apud PAVIS, 1999, p. 141), “É espetáculo tudo o que se oferece ao olhar. O espetáculo é categoria universal sob as espécies pela qual o mundo é visto”.
Bom, cabe ressaltar alguns elementos constitutivos de uma apresentação teatral: figurinos, adereços, maquiagem, sonoplastia (seja mecânica ou ao vivo). Não irei analisar a função de cada um destes elementos. O que interessa aqui é a utilização de tais elementos nas contações de histórias. Então retorno a pergunta inicial, contação de história é um espetáculo de teatro?
Sobre a arte de contar histórias
É um ato milenar, tão antigo quanto a própria humanidade. Desde os tempos primevos quando a tribo se reunia para ouvir as histórias vividas pelos homens que saiam para caçar. O caçador assumia a figura do narrador para compartilhar com aqueles que ouviam, suas aventuras, medos, angustias, etc.
O narrador tem uma função fundamental, uma espécie de mediador entre o público e os personagens. No teatro épico, o narrador é determinante para expor os acontecimentos. E na contação de história? O mesmo se observa. O narrador, fazendo uso de diversas técnicas. Segundo Olga Reverbel, “as capacidades de expressão, como relacionamento, espontaneidade, imaginação, observação e percepção, são inatas no ser humano, mas necessitam ser estimuladas” (1989, p, 57).  Para tanto, sugere-se a utilização de técnicas teatrais para o melhor desempenho do narrador, em particular técnicas vocais e corporais. Ora, então, para ser contador de histórias precisa fazer uso de técnicas teatrais? É sabido que as técnicas teatrais são utilizadas para diversos fins como: ajudar na comunicação, superar a timidez e até para bem atuar no palco. Creio ser indiscutível a importância das técnicas teatrais quando bem aplicadas, pois uma história contada sem ritmo, sem pulsação, é uma história desanimadora. Talvez se torne uma experiência frustrante para quem ouve e assiste.
Um dos baratos mais legais nas contações de histórias é a utilização da imaginação como disparador de imensas possibilidades sobre o acontecimento narrado. Sobre isto Stanislavski diz: “a imaginação cria coisas que podem existir ou acontecer. A arte é produto da imaginação assim como deve ser a obra do dramaturgo. O ator deve ter por objetivo aplicar sua técnica para fazer da peça uma realidade teatral. Neste processo o maior papel cabe, sem dúvida, à imaginação.” (2010, p, 87).
Com esta sentença, penso que a discussão frágil sobre se contação de história é ou não teatro, cai por terra. Também não considero justificativa a resposta quando se diz que depende como se vê, pois em Belém criou-se um formato de apresentação de contação de história, que na verdade são espetáculos de teatro de curta duração. Então seria a contação de história um monólogo? Uma performance? Bom, aí a discussão é outra. E sendo umas destas variações, já são expressões teatrais.
Sobre olhar pra dentro
Marluce Araújo, atriz, educadora, contadora de história e mãe. Assim ela se apresenta. Inicia sua apresentação explanando sobre a arte milenar das contações de histórias. Apresenta ao público as aventuras de Alexandre, um menino que mora numa casa que tem um imenso quintal, na verdade uma floresta. Alexandre adora brincar. Sempre após chegar da escola, Alexandre toma banho, come e corre para a mata. Um dia após uma tarde de brincadeiras na mata e ao voltar pra casa, o pai de Alexandre faz o menino perceber que ele estava sem o olho esquerdo. Alexandre lembrou que ao se assustar na mata de algo que não sabia bem o que era, saíra correndo para sua casa. Concluiu que perdera o olho na correria pelo meio da mata. Ele volta pelo mesmo caminho que fez e encontra seu olho pendurado num galho. Simples, ele pega o olho e coloca no lugar. Só que Alexandre coloca o olho ao contrário, de trás pra frente. Com isto ele cria a capacidade de ver o lado de dentro das coisas.
Inspirada no obra de Graciliano Ramos, Alexandre e Outros Heróis, Marluce Araújo, concebeu a adaptação do texto, o figurino, maquiagem e direção e assim como no conto de Graciliano Ramos, provoca a imaginação da plateia de maneira que seja possível olhar com outros olhos, olhar o que realmente importa, as entranhas, as profundezas, sem preconceito. Se deixar surpreender com as cores do não imaginado. Imaginar... Por um instante se esquece do caos das obras do BRT, do lixo que se amontoa nas esquinas da cidade, das matanças nas baixadas, mas só por um instante. E neste momento de digressão, também há espaço para se pensar na possibilidade de um mundo melhor, onde se possa revirar os olhos para enxergarmos outro mundo, para agirmos de outra forma. Para tanto, é necessário vez por outra, se afastar da realidade para criar imagens a partir do contato com os objetos e construções humanas, posto que o conhecimento é fruto da experiência e o mesmo só é possível por meio das sensações, como propõe Deleuze: “Nada se faz pela imaginação, tudo se faz na imaginação”. A imaginação possibilita tele transporte, chuva de hambúrguer, bicicleta voadora, feijões mágicos, leões falantes, dragões que dormem em ouro e possibilita um caminho diferente, pois se pode ser o que quiser.
E assim, a contação de história, tal como o espetáculo de teatro, cumpre com uma função tão importante nos dias atuais, onde as relações frias das redes sociais moldam comportamentos não tão quentes quantos as telas dos computadores, onde o encontro se torna arte entre as pessoas e apenas sugere que olhemos  o mundo com olhos de crianças que se deixam perder nas matas imaginadas no fundo do quintal.
Belém, 08 de Maio de 2017.

Referências
PAVIS, Patrice. Dicionário de Teatro. São Paulo: Perspectiva, 1999.
REVERBEL, Olga. Jogos teatrais na escola: atividades globais de expressão. São Paulo: Scipione, 1989.
STANISLAVSKI, Constantin. A preparação do ator. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

FICHA TÉCNICA:
Contação de História:
O Olho que transvê
Contação, Concepção, Adaptação textual, Direção e Figurinos de  

Marluce Araújo  

segunda-feira, 15 de maio de 2017

É preciso estar atento e forte – Por Leonel Ferreira.

Montagem teatral: Falando sobre Flores
Leonel Ferreira: Artista de Teatro e Sociólogo. Participante do Minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?”

Amanhã será um outro dia... Será mesmo?  A roda-viva não para. O roda de tambor parou de rodar na Praça da República. O Sarau Multicultural parou de rodar no Mercado de São Brás... O rock 24 horas não rola mais...
Roda mundo, roda gigante
Rodamoinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração.
(Roda Viva, de Chico Buarque de Holanda)


A música de Chico Buarque recepciona o público que tenta se acomodar na pequena sala da Casa da Atriz, um dos espaços alternativos e independentes da cena teatral de Belém, para assistir e testemunhar a apresentação do espetáculo Falando sobre Flores, com Renan Coelho e Demi Araújo, direção de Karine Jansen e com dramaturgia do próprio Renan Coelho. Um cenário minimalista, praticamente sem nada na sala, dão a ideia ao espectador que a escolha é proposital. Um catre, que é uma cela, que é uma sala de interrogatório, que é cenário de teatro. Teatro de resistência numa cidade vilipendiada? Teatro político para uma sociedade alienada politicamente? Teatro pedagógico para expor os fatos? Revisão histórica? Por opção da encenação do espetáculo, não há a quarta parede. O público assistirá cenas nada agridoces, bem como ouvirá pontos de vistas de dois lados dos envolvidos deste período da história (1964 a 1985).
No rádio uma canção. Um incomodo, um desconforto, uma indignação. É possível ficar indiferente?
“...Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza de desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Nesse meu penar”
(Apesar de você, de Chico Buarque de Holanda)

Não houve golpe, mas sim uma “revolução” com a pretensão de liquidar com a subversão e com a corrupção no Brasil. Era o que argumentavam os militares na época, para isto era justificável o uso da força com intuito de salvar a democracia que estava em perigo. O slogan ufanista utilizado durante o regime militar de 1964 influenciou mais de uma geração de brasileiros pela sua veiculação em todos os meios de comunicação. Alguns estão presentes até hoje no imaginário popular: “BRASIL, AME-O OU DEIXE-O!”; “NINGUÉM SEGURA ESSE PAÍS”; “PRA FRENTE BRASIL”.
... Eu te amo, meu Brasil, eu te amo.
Meu coração é verde, amarelo, branco , azul-anil
Eu te amo , meu Brasil, eu te amo
Ninguém segura a juventude do Brasil.
(Eu te amo, meu Brasil, Os Incríveis)

Renato Russo, diz na canção 1965 (Duas Tribos), do disco As Quatro Estações, de 1989, da banda Legião Urbana, que o “Brasil é o país do futuro”. Cantava essa música aos berros na esperança que, de fato a roda poderia girar, que o galo iria cantar, que o cenário iria mudar... Mas parece que somos craques em nos sabotar, de não enxergarmos para além de nossos umbigos. Uma espécie de cegueira e essa cegueira nos faz duvidar do desejo de alguns que clamam por uma intervenção militar. Imagina, os militares com seus coturnos reluzentes, cassetetes prontos para manter a ordem, com chaves para abrir todas as portas.
O som do molho de chaves já é escutado antes de entrar na sala. Aquele som chato, irritante, o sinal de que se deve está em prontidão. Mas quem fez esse acordo para se estar pronto ao ouvir o som da chave? Quem quer estar de prontidão para sinais de alerta, de atenção, toques de recolher? Ordem e Progresso. Progresso pra quem? Segundo dados da Comissão da Verdade, publicados em 2014, reconhece 434 mortes e desaparecidos durante a ditadura militar. Mas esses números são questionáveis. Neles não estão inclusos as chacinas ocorridas em terras indígenas, nos manicômios e colônias hospitalares. Tudo se deu em nome do progresso, afim de manter a ordem.

 ... É seu dever manter a ordem,
É seu dever de cidadão,
Mas o que é criar desordem,
Quem é que diz o que é ou não?
....  Quem quer manter a ordem?
Quem quer criar desordem?
(Desordem, Titãs)

Ao violão um trecho de “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré. Um dos hinos da resistência do movimento contra ditadura militar na época do golpe. Impressionante como uma canção pode despertar sentimentos diversos nas pessoas. Imediatamente me transporto para a passeata dos Cem Mil, em junho de 1968.  E todos estavam lá: artistas, intelectuais, advogados, estudantes, trabalhadores anônimos naquilo que foi uma das maiores manifestações populares da história republicana brasileira. Suas vozes fazem eco até hoje e talvez necessárias em tempo de obscurantismo na tão frágil democracia do país. Mas cadê o povo nas ruas contra o desmonte dos direitos conquistados pelos trabalhadores?  Da reforma da previdência? Da educação? Cadê o povo que assiste o desmonte da democracia arquitetada por um governo golpista que não representa a maioria da nação? 

 – Oi, tudo bem?
- Tudo bem...
... Fora o tédio que me consome,
Todas às 24 horas do dia,
Fora a decepção de ontem,
A decepção de hoje, a desesperança crônica no amanhã,
Tenho vontade de chorar, raiva de não poder,
Quero gritar até ficar rouco, quero gritar até ficar louco,
Isso sem contar com a ânsia de vomito,
Reação a tal pergunta idiota
...Fora tudo isso, tudo bem”.
(Oi! Tudo Bem?, Garotos Podres).

Para reaviar a memória, um pouco de eletrochoque. Uma dose de pressão psicológica, ameaças de morte, uma surra de cassetete, afogamentos...
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento...
(Cálice, Chico Buarque).

É preciso estar atento e forte! (Divino Maravilhoso, Caetano Veloso)

Belém, 15 de maio de 2017.



Carta ao dileto Andrade – Por Luka Paranoid.

Luka Paranoid: Flâneur malquisto nas cercanias da República Democrática de Rilexine.  

República Democrática de Rilexine, Maio bem distante de 68.
Ao dileto companheiro Raphael Andrade, sujeito que me confunde com outrem.
Observo com satisfação crescente que tens investido, sem reservas, no ofício de parir centauros. Justamente por isso, é de estranhar que te permitas deixar tantas perguntas sem respostas, iludindo-se ao acreditar encontrá-las em minha pessoa. Vivo para esvaziar-me das certezas, certo de que isso é uma tarefa árdua – embora extremamente prazerosa – que carregarei comigo pro resto da vida. O máximo que me atrevo a fazer é compartilhar pensamentos inquietantes – despretensiosos por natureza, intensos por acidente, e por vezes vorazes por necessidade. Caso isso te satisfaça, prossiga na leitura desta missiva, do contrário volte a chupar suas laranjas.   
Nunca houve relação direta entre os conceitos de “história” e “evolução”. Somente os historiadores tacanhos se deixam convencer e guiar pela ideia de progresso embutido na linearidade do avançar do tempo. E isso é um insulto a própria história da humanidade, pois se há algo de peculiar na natureza humana, certamente não é a ideia de progresso. O homem não progrediu com o tempo, a humanidade não avançou, não evoluiu e nem se modernizou. Quando muito, arriscaria dizer que colecionamos cultura, acumulamos bens culturais, reunimos valores, conceitos, tecnologias, ideias e/ou filosofias que nos fazem arrotar indelicadezas contra o passado. Não faço apologia à nostalgia, apenas cuspo na face da arrogância cientificista hodierna. Logo, perscrutar as revoluções pela via de uma suposta evolução histórica da humanidade ou das antigas civilizações não passa de uma pilhéria, um chiste com requintes de ironia concebido por sua mente maquiavélica – admiravelmente invejado por mim.
Lamento dizer, mas não existe uma cartilha ensinando as coordenadas para a grande revolução. Você cita alguns que considera grandes – Ciro, Alexandre, César, Napoleão, Dom Pedro, Princesa Isabel, Jesus Cristo –, mas seriam estes os paradigmáticos lideres para termos em mente? Infeliz do povo que precisa de heróis, nos lembra o dramaturgo alemão marxista considerado, por alguns de seus biógrafos, cúmplice das atrocidades da tirania stalinista na União Soviética. A vida é dura e não se escapa das contradições históricas sem manchar a mente ou as mãos de sangue. E além do mais ninguém pode colocar nas costas, sozinho, o peso de uma revolução. Então, tire essa responsabilidade das suas costas, afinal és franzino demais para bancar o exterminador do futuro dos moralistas de plantão. Tática de guerrilha ao invés dos grandes estratagemas militares, talvez seja uma perspectiva interessante para se exercitar. Arte como guerrilha, artista como guerrilheiro, nunca como herói.
Quanto aos assuntos ligados à fé, és um privilegiado por teres encontrado amparo no exemplo daquele que foi pregado na cruz. Por meu lado, lamento que a cruz tenha silenciado o grito subversivo do Jesus revolucionário que expulsou os vendilhões do templo de Jerusalém – expulsou na base da porrada mesmo, usando pontapés, socos e tocando o terror com um chicote em quem quer que tentasse impedi-lo. A profilaxia da cruz realizada pela igreja católica apostólica romana me embrulha o estomago. Por isso persigo a meta que outrora orientou o pensamento do Sr. Antonin Artaud, isto é, me esvaziar de cristianismo. Falo desse cristianismo reacionário que prega o baixar das cabeças, a resignação incondicional para se reencontrar com o “pai” numa outra vida. Nada mais anti-revolucionário que isso: renunciar a vida. Por isso esvazio-me do cristo profilático.         
Tens razão. Tua condição degradante descrita com certa dose de detalhes me rendeu boas gargalhadas. Não se trata de sadismo da minha parte, apenas exercito meu espírito de porco, a licença poética para fazer troça de tudo e de todos, incluído nossa própria desgraça, sem o pudor oriundo da ditadura do politicamente correto. Caguei pros falsos limites do politicamente correto. Vivemos num momento que só nos resta a zombaria, o escárnio, a chacota, o sarcasmo, a sátira, o achincalhe contra tudo e contra todos. Grito a piada de mau gosto! Quando a arte pediu licença pra questionar a humanidade? Grito o humor anárquico sem cor partidária! Queremos que a arte se transforme em panfleto ideológico? Grito o insulto jocoso contra os três poderes da República Democrática de Rilexine! Quando a arte defendeu o establishment – nos esquecemos de Joseph Goebbels? Grito a troça zombeteira apontando o dedo para os líderes espirituais! Queremos fazer arte ou catequese? Grito e rolo de gargalhar debochadamente do pensamento asséptico que orienta as bandeiras das minorias. É preciso defender as bandeiras, mas combater a chatice. Os chatos me dão urticária. Grito tendo em mente a dor e a delicia de ARTEAR num mundo cinza e ranzinza.
Evito, por ora, Falar das Flores, pois perdi oportunidade de visitar o jardim da Casa da Atriz. Acreditas que comprei o passaporte para te visitar na prisão, mas fui acometido por um niilismo súbito. Quando o tédio bate à minha porta, torno-me pessoa ainda mais intragável que o de costume. Resolvi não te ver na prisão. Sou egoísta: guardei o sabor amargo do meu mau humor só pra mim. No entanto, não me furto em dizer que a conjuntura nacional em Rilexine é tão bizarra que explica a ascensão de falsos profetas de bíblia e escopeta na mão. É curioso e insólito admitir que estes exorcistas dos mil demônios arregimentam seus seguidores, com certa e assustadora facilidade, por serem uns dos poucos no quadro político que apresentam convicção ideológica. Professam publicamente suas intenções nefastas, sexistas, moralistas, religiosas, preconceituosas. Evidentemente trata-se de uma ideologia espúria que revela a pobreza de nossos quadros políticos contaminados com um sistema econômico-eleitoral-politiqueiro de dar nojo. O cidadão de Rilexine baratinado em meio ao caos e degeneração política da nação é levado acreditar que os porcos de bíblia e escopeta serão responsáveis pela limpeza do chiqueiro. Esta parece ser nossa tragédia em curso.
Por fim, peço-te não me confundir com o tal do Nando Silva, docente sabe-se lá de que paragens. Este por certo deve ser também um cretino de carteirinha. Ele não me interessa, pois se escolheu ganhar a vida dando aulas de teatro, por certo é figura inútil. Teatro não se ensina. Teatro não se aprende. Teatro é atitude. Portanto, se desejas mesmo seguir o caminho das práticas teatrais deves oferecer a própria cabeça como oferta para os ditirambos, sem ambicionar nenhum tipo de reconhecimento ou sucesso em troca. O teatro é um antro que abriga um bando de centauros insurgentes. Impossível ensinar a arte de insurreição.    
Faço votos para que continues parindo centauros.  
Luka Paranoid
15 de Maio de 2017.     

      

domingo, 14 de maio de 2017

Se eu fosse um peixinho... – Por Taís Sawaki

Montagem Litero-Cênico-Musical: Chão de Águas
Autora da crítica: Taís Sawaki. Graduanda em Licenciatura em Teatro, Participante do Mini Curso “O que pode uma crítica teatral?”.

A canoa virou
Por deixá-la virar
Foi por causa da Maria
Que não soube remar

Se eu fosse um peixinho
E soubesse nadar
Eu tirava a Maria
Do fundo do mar…

Nanã, Iemanjá, Oxum, Nossa senhora,
água que lava, que leva…

“Menina, tu soube que os três filhos da Maria morreram afogados? A canoa que eles estavam virou ali pelas curvas do Surubiu, os meninos caíram, agora que acharam o corpo do mais gito…”
Sempre que entro na água, das praias e igarapés, de água doce ou salgada,
faço o sinal da cruz, como faz minha mãe, filha de Iemanjá,
 peço bença à mãe das águas,
que me deixe repousar sobre os teus braços,
que me carregue as energias, e lave minha alma...

“Certa vez, quando eu era criança e a gente morava no Vira Vorta (Vira Volta) com a mamãe. Sabe como é as casas do sítio né? Igual do seu tio Ronaldo, da tia Marcela, da tia Clara, do seu tio Licinho. A gente chama casa de palafita, que a casa fica lá em cima, e tem os paus por baixo… Enfim, era época de cheia, mas já tinha começado a vazar, e a correnteza tava muito forte. Uma das minhas irmãs, não lembro direito qual era, ela devia ter uns dois, três anos. Sim, aí ela tava brincando por lá e do nada ela sumiu. Só que a mamãe viu ela caindo na água, e eu lembro que ela saiu correndo pro outro lado de onde a mana caiu, porque a correnteza tava passando forte por debaixo da casa, daí a minha mãe ficou esperando ela e só fez puxar minha irmã pelo cabelo quando ela ia passando. Quase que ela ia. Se não fosse a mamãe…”

Um dia tive um sonho, em eu flutuava no meio do rio.  Era só rio, água pra todos os lados, não tinha uma terra à vista.  Rio barrento, de águas turvas.... Eu flutuava… O Sol de fim de tarde refletindo sobre o mar marrom, e o céu azul com aquelas nuvenzinhas de dia bonito.
Fui afundando, sentido meu corpo envolto na manta de água. Ele foi baixando, virando pra vertical, como se os pés começassem a pesar. Então por último, dei aquela inspirada e mergulhei por completo. E a água foi entrando, preenchendo todo o meu corpo. Então fui afundando. Via a luz se esvaindo e depois só escuridão...


Tenho uma mania desde criança de abrir os olhos dentro da água, o que me faz sair sempre do mergulho com os olhos vermelhos. Mas eu gosto da sensação de ver dentro da água. Acredito que aqueles pontinhos que flutuam são partículas sub moleculares que se tornam visíveis com o reflexo da luz solar que atravessa a massa aquática, revelando esses seres microscópicos, a constelação de poeira subaquáticas, micro planetas no universo imerso… E sempre acho que vai aparecer alguma coisa, um bixo, um peixe, um jacaré, uma cobra, um baú de ouro, uma joia rara, uma sereia,  um corpo, um rosto, e olhos... Isso me assusta... E me fascina...

“Todo dia a gente ia buscar água no igarapé, cada um levava sua lata pra trazer a água. A gente usava essa água pra tudo, pra cozinhar, lavar louça, beber. Só que a vovó tinha um negócio que ela não deixava a gente ir no igarapé meio dia. Eu nunca soube o porque, ela nunca disse. Mas tenho pra mim que era visagem, com certeza era visagem…”

Água sagrada, que abençoa, que batiza.
Jesus lavou os pés de seus discípulos,
transformou água em vinho,
foi batizado no rio Jordão
Água sagrada, que abençoa, que batiza
Água que dá e que tira
Água que supre e sacia
Que leva e lava...

Adeus Maria
Adeus Raimundo
Adeus Joaquim
Adeus Zé
Adeus Mariana
Adeus Rosa
Adeus Antônio
Adeus Pedro
Adeus Carol
Adeus Chico...
Adeus...
À Deus...
“Ah! Deus!”.

Ficha Técnica:
Montagem Litero-Cênico-Musical:
Chão de Águas.
Elenco:
Cristina Kahwage, Karimme Silva, Tarsila França e Cacau Novais
A Banda:
André Gaby – Piano
Tom Salazar – Violão e Bandolim,
JP Cavalcante – Percussão.
Iluminação:
Marckson de Moraes
Mapping:
Leandro Macujah.
Figurino:
Maurício Franco
Direção Musical:
André Gaby
Direção Geral:

Cacau Novais