segunda-feira, 6 de março de 2017

Romeu & Julieta Paraense – Por Marta Teixeira

Marta Teixeira: Atriz; Acadêmica de Licenciatura em Teatro na Universidade Federal do Pará; Participante do Minicurso de Crítica Teatral: “O que pode uma crítica teatral?”  
Espetáculo baseado em uma das obras mais conhecidas de William Shakespeare, adaptado para um contexto paraense e interpretado por clowns. “Você já imaginou se Romeu & Julieta vivessem em Veropa e suas famílias fossem rivais por causa de suas aparelhagens?” (Fanpage: CIA dos Notáveis Clowns).
A localidade foi assemelhada antes mesmo de começar o espetáculo. Na bilheteria algumas pessoas reclamavam pelo fato de terem reservado o ingresso e por, algum motivo, não haver o ingresso. Na sala de espera do teatro a fila dava voltas, as pessoas estavam ficando estressadas com o fato de o relógio apontar às 18h00 e ainda não terem liberado a entrada; até que em certo momento começaram a proclamar: “Começa! Começa! Começa! [...]”. Quando a entrada foi liberada se tinha a visão de pessoas saindo de um ônibus lotado, e algumas pessoas ficaram ainda mais inconformadas com o fato da apresentação ter início na praça do CENTUR.
Para os que ficaram do lado de fora do teatro foi pedido à formação da platéia em meia lua para que houvesse o início da apresentação; este início lembrava bem o mercado do Ver-o-Peso: um dos personagens entregando panfletos sobre a apresentação que iria acontecer, um carro de som improvisado reforçando o convite, os atores no centro e pessoas ao redor.
O espetáculo inicia com as disputas entre as aparelhagens – do lado esquerdo a família Capuleto com sua aparelhagem de Tecnobrega e do lado direito a família Montecchio com sua aparelhagem de Bregas marcantes; alguns atores interagiam com o público convidando algumas pessoas para dançar. Em seguida, entra o narrador para anunciar que qualquer atentado ao sossego e a paz seria punido com a morte do ofensor – após isso todos se dirigem ao teatro.
Ao entrar no teatro se observava grande parte dos acentos ocupados, pois, infelizmente, algumas pessoas não assistiram o inicio da apresentação; como a demanda foi grande houve pessoas que ficaram em pé – o teatro ficou tão cheio que suas portas ficaram abertas.
Em um determinado momento do espetáculo tive a sensação de estar no Teatro Elisabetano, pois algumas crianças foram para a beira do palco assistir a apresentação e elas ficavam interagindo com quem estava na cena.
O espetáculo fluiu bem; por ser interpretado por clowns é evidente que a comicidade estava presente. Para finalizar a apresentação os atores convidaram as crianças para subir ao palco e dançarem com eles. Entretanto, alguns pais e/ou responsáveis também subiram ao palco para fotografar as crianças com os atores e foi pedido para que eles esperassem o encerramento para poderem registrar. Enfim, foi um espetáculo que arrancou muitas risadas da platéia e foi muito aplaudido.
Marta Teixeira
6 de março de 2017
Ficha técnica:
Realização:
Cia. dos Notáveis Clowns –
SEIVA – Fundação Cultural do Estado do Pará – Governo do Pará
Apoio cultural:
Parque Musical – CEB Aldeia – Grupo Experimental de Teatro Aldeato
Elenco:
Adhara Belo, Ariane Caldas, Artur Neves, Erurico, Hudson dos Passos, Jimi Brito, Roberta Passinho, Luciano Lira, Nilton Cézar, Neire Lopes, Wallace Horst
Carpintaria:
Rubinaldo Soares Silva
Adereços:
Rubinaldo Júnior, Wallace Horst
Visualidade:
Cléber Cajun
Confecção de figurino:
Olívia Dias
Operação de iluminação:
Enoque Paulino
Design gráfico:
Raíssa Araújo
Assessoria de imprensa:
Leandro Oliveira
Dramaturgia:
Livre adaptação da companhia
Direção geral:
João Guilherme Ribeiro Pinho


À meia luz – Por Maria Christina

Maria Christina: Participante do Minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?” 
O texto sobre o qual se baseou a atuação dos atores de O Conto das Duas Ilhas, e a ideia que inspirou o cenário, as figuras e os movimentos das marionetes, foram soprados pelas asas de pássaros migrantes em voo de retorno ao lar no ouvido de um poeta que os reproduziu em versos à sua amada, que cantava enquanto costurava colchas coloridas e circulares impregnando-as de alegria, e vendidas a viajantes estrangeiros se espalharam pelo mundo reconhecidas como mandalas, chegando a importantes sítios de contemplação, tornando-se motivo de intensos trabalhos literários que decodificaram seus traços e linhas, dando-lhes outras formas, permitindo-lhes, assim, chegarem a mais e mais lugares.
Essa inspiração viajou durante milênios, atravessou o mundo várias vezes, sendo depositada suavemente em mãos que a teceram em finíssimas linhas revelando sua face e voz. Generosamente nos foi ofertado sob a forma de peça teatral, permitindo que céu e terra dialogassem um tema que nos convida a uma viagem não só pela imaginação, mas pelo interior de sonhos que nascem da poesia.
O que se vê no espetáculo, todo ele à meia luz, são os ecos daquele sussurro, travestidos de misteriosos olhares que se movem lentamente no presente, dedilhando as cordas do tempo a nos lembrar da tênue linha que nos separa do infinito.
Há algo de tímido naqueles atores, um certo ar pueril que acentua a nota delicada dos movimentos, totalmente envolvidos pela trilha repleta de poesia impressa em cada nota musical e no timbre de voz do cantor. Todos eles por certo comungam da reflexão de Horácio sobre o que está por trás das ondas e do horizonte – eles também perscrutam o exíguo ambiente antes do passo seguinte. A incerteza é a única certeza, força motriz e incentivo, e o que alimenta o desejo.
Disse Gandhi, certa vez, sobre o caminho para a paz: "a paz é o caminho". Das tantas matérias que a paz é feita, certamente a arte contribui com elementos fundamentais a compor essa argamassa que não cessa de se reinventar a cada tempo, a cada cena e cada som, base necessária a manter a esperança dos que amam, apesar dos tempos difíceis, em que cobiça e ego habitam tantos corações. Mas a arte resiste – e nós, com ela.
Maria Christina
6 de Março de 2017
Ficha Técnica
Dramaturgia:
San Rodrigues
Marionetistas:
San Rodrigues e Nina Brito
Construção de Marionetes:
San Rodrigues
Cenografia:
Nina Brito
Iluminação Cênica:
Marckson de Moraes
Trilha Sonora Original:
Renato Torres
Canções:
Marília, Além e O Primeiro Veleiro (San Rodrigues)
Vozes dos Marionetes:
Renato Torres (Carapirá), San Rodrigues (Horácio) e Nina Brito(Marília)
Assistente de Atelier:
Glaucia de Jesus
Adereços de cena (Sol e Lua):
Luciana do Carmo
Confecção de Figurino:
Anne Moraes
Equipe de Captura e Animação (Stop Motion):
San Rodrigues, Nina Brito, Marckson de Moraes e Gabriel Angelo
Registro e Edição de Vídeos e Imagens:
Alexandre Yuri
Assessoria de Imprensa:
Yorranna Oliveira
Produção Executiva:
Patrícia Ventura
“O Conto das Duas Ilhas”, do Projeto Camapu, ganhou o Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2015


Conto Tão Antigo Quanto o Tempo – Por Nanda Lima

Nanda Lima: Participante do Minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?”.
Conto tão antigo como o tempo e encenado em sua simplicidade e sutileza, o fino trato do castelo e os galhofeiros objetos animados recontam sonhos ainda que pareça impossível no singelo e despretensioso. Verdadeiro, pois ele pode ser. Notei o prazer nos rostos dos atores ao interpretar cada personagem, o gosto em retirar do papel o conto de fadas escrito por Jeanne Marie Leprince de Beaumont, no século XVIII. Opostos mesmo amigos, então alguém se curva inesperadamente. A cena manifesta em que Bela curva-se diante de seu Príncipe Fera estudada e coreografada com requinte, ouvi os suspiros das bocas infantis. A dança bailou pelos olhares da audiência em êxtase. Basta uma pequena mudança, pequena para dizer o mínimo. Não digo que não vi imaturidade, as vezes até certa inocência no erro, apenas sublocos de intencionalidade. Tanto um pouco de medo, nem um preparado. Uma vontade na garganta de dizer: “Se arrisca mais, adentre a fantasia. Permita-se”. Mas isso não dura muito, pois mas uma volta da valsa e volto a compreender: A Bela e a Fera. Lá estão eles. Sempre apenas o mesmo, sempre uma surpresa. Candelabro e Relógio numa sincronia de dar inveja a qualquer prataria. Risonhos, medrosos e tão espertos em seu texto. Como nunca antes, sempre tão certo. Há quem possa dizer que com um texto como este, não há como errar. À medida que o sol vai subir. Ao adentrar da noite, as famílias que preencheram as cadeiras do teatro sente o prazer de ver e rever o Conto tão antigo como o tempo. Admirando sonhos que se repetem a cada ato. Melodia tão antiga como canção. A música ocupa os silêncios dos suspiros da plateia atenta, que assiste, observa e vislumbra. Muito doce e estranho. A pouca iluminação em alguns pontos nos faz desejar que pudéssemos ver mais os movimentos no tablado, gestos majestosos que não podem passar despercebidos. Encontrar você pode alterar. Mas a história recheia todas as lacunas, e sei disso quando as luzes se acendem e tenho lágrimas tenras e queixosas, receosas pelo fim, e contentes pelo tempo que passou. Aprender que estava errado. O Grupo de Teatro Encenação Cultural do Pará pode estar Certo como o sol ou como A subida no Oriente que nada é mais válido do que recontar o Conto tão antigo como o tempo.
Nanda Lima
6 de Março de 2017

FICHA TÉCNICA:
ELENCO:
BELA - Irlene Rocha
FERA - Fernando Matos
PAI DE BELA - Bruno Torres
FELIPE DE VARENA - Robson Carrera
PIERRE - Ricardo Tomaz
DUMONT - João Júnior
BERTRAN - Adiel Cuca
ARCADIO - Kallil Marques
AQUINO - Eduardo Vianna
LOBOS - Ariele Macedo, Max Nascimento, Pedro Grobério, Victor Rocha
FIGURINOS:
Irlene Rocha
SONOPLASTIA:
Daniel Matos
LUZ:
JR
MAQUIAGEM:
Paloma Lima
APOIO TÉCNICO:
Jorgeanne Lelis, Adria Matos
PRODUÇÃO:
Phellipe Marques, Fernando Matos
DIREÇÃO GERAL:
Fernando Matos


domingo, 5 de março de 2017

O mundo abstrato de Marahu – Por Diego Maia da Costa

Diego Maia da Costa: Graduando em História na Universidade Federal do Pará; Participante do Minicurso de crítica Teatral “O que pode uma crítica teatral?”
Quinta feira, dia chuvoso. A impaciência tomara-me por completo. O sarcástico movimento pluviométrico inconstante e irreversível fechava as nuvens de minha esperança subordinada à irredutível curiosidade - E agora? - Será que não verei Marahu?
17 horas: a iminência de um longínquo raio de sol perdido na ironia do tempo reacende minha impetuosa expectativa. Tomo banho, me visto e me arrisco!
O ônibus é ligeiro. Ao chegar ao local deparo-me com um motociclista moribundo ao chão do sagrado Ver-o-Peso – acidente causado pela desenfreada urbanização da capital paraense. Me abalo um pouco, mas logo retomo a ... serenidade?
O espetáculo com aplausível pontualidade começa; revestido de insígnias como a obra de Martins. As estáticas areias no palco, antíteses da minha inquietude, revelam as lembranças contemplativas de um poeta tão bucólico como sua praia favorita (Marahu). O figurino, fusão de todas as cores em uma só, dá asas à proposta excêntrica e até indecifrável. O roteiro, impreciso e visceral dialoga de maneira esplêndida com a cenografia e dá margem a um mundo de ideias – sem platonismo – vibrantes em um calabouço de emoções. Trilha sonora e atuações impecáveis mantém o nó desconcertante que molda suas intencionalidades.
Mas há um ápice, um ponto central eclodido na cena de nudez frontal. A nudez que ... a nudez não! A poética nudez! Que é capaz de dissipar nos privilegiados espectadores o tabu mais hipócrita da sociedade. Não há interdito, há beleza. Beleza lúdica que transcende Na estrada, Homo poeticus e Mar-ahu. Beleza artística que adentra e evoca com perfeição o mundo abstrato de Max Martins.
Diego Maia
9 de fevereiro de 2017


Ficha Técnica
Montagem:
Companhia de Teatro Madalenas
Elenco:
 Leonel Furtado, Flávio Furtado e Marta Ferreira
Iluminação:
Thiago Ferradaes
Direção e edição de vídeos:
Carol Abreu
Direção musical:
Diego Vattos
Dramaturgia:
Saulo Sisnando
Coordenação geral:
Leonel Ferreira


quinta-feira, 2 de março de 2017

Caminho Sensorial a Praia do Marahu – Por Afonso Gallindo

Afonso Gallindo: Participando do Minicurso de Crítica Teatral “O que pode uma crítica teatral?”  

A nítida sensação de ter passado uma hora no Marahu e lá ter encontrado o poeta paraense Max Martins. Esta foi a impressão que trouxe comigo após assistir o espetáculo Marahu, da Companhia de Teatro Madalenas, em temporada no espaço SESC Boulevard. As diversas formas de sonoridade presentes no espetáculo proporcionaram uma experiência sensorial intensa.
Após o black, os focos que surgiram foram ocupados pelos atores, que através do corpo remetiam ao movimento das ondas quebrando na beira da praia, convidando minha mente e pessoa para aproximar da beira da praia. Imediatamente, identifiquei nos corpos a representação do som das ondas e a espuma branca. Gradativamente a percurssão, pontualmente executada por um dos atores da companhia e que também estava em cena, foi construindo uma paissagem, um universo sonoro relaxante em estar.  Outros movimentos, sons, trechos de poesias de Max, presumo, declamados pelos atores em off, apresentavam qual o universo havia adentrado. A sobreposição dos mesmos trechos, que emanavam das caixas de som ocultas pela escuridão cênica, permitiram perceber a intensidade, o peso da palavra, que era uma marca deste poeta e que em sua obra estabeleceu uma relação própria com a palavra, entendo eu, que ora acaricia, ora estala como um tapinha, como uma brincadeira sensual e particular.
Na medida em que a peça avança, a sonoplastia dialoga com a voz do próprio Max, que declama poesias de sua autoria em off, sinalizando uma materialização, já que os trechos declamados em aúdio anteriormente, que presumo serem dos atores e agora estão em cena, desempenham uma espécie de alerta da sua possível materialização no palco. Tive a impressão que a qualquer momento o poeta sairia da coxia e nos olharia, debaixo do foco central, ora ocupado pelos atores.
Paralelamente, os sons criados pela percussão remetem a chuva caindo num telhado de zinco, caracteristica do fim de tarde presente em minha memória e pontual na ilha do Mosqueiro. Mentalmente, estive dentro da casa tão querida pelo artista e que nela tantas obras escreveu.
Outro aspecto que chamou atenção foi a construção de diversos Haicais, através de projeções de palavras que passeavam no corpo dos atores, permitindo materializar em cena a estrutura utilizada pelo artista homenageado e peculiar em sua obra.
Em contraponto, a repetição enfática de movimentos-palavra noutros trechos, que entendo utilizados para dar ênfase à obra do homenageado pela Companhia, causou a impressão de destoar com o universo tão graciosamente construído. Porém, entendo a presença de outros espectadores na plateia quase cheia a apresentação e que possivelmente desconheçam a obra de Max. Apesar da diversidade de faixas etárias, seria equivocado afirmar o que este conhece e aquele desconhece da produção literária de Max Martins.
Entendo somente justificável a faixa etária sugeria a peça, de 18 anos, pela cena de nudez, onde os atores escrevem na pele palavras poéticas e em seguida buscam na plateia presente, que escrevam outras palavras, enquanto um dos atores circula por entre os presentes com um livro nas mãos, convidando que sejam declamadas poesias, impressos da brochura, pelos presentes. Percebi isso quebrar o universo habilmente construindo onde de forma sensorial e delicada fui convidado a participar, e confesso, participei de maneira interessantíssima.
Afonso Gallindo
1 de Março de 2017

FICHA TÉCNICA
Montagem:
Cia de Teatro Madalenas
Elenco:
Flavio Furtado, Leonel Ferreira e Marta Ferreira.
Iluminação:
Thiago Ferradaes.
Direção e Edição de Vídeos:
Carol Abreu.
Direção Musical:
Diego Vattos.
Dramaturgia:
Saulo Sisnando.
Coordenação Geral:
Leonel Ferreira.
Realização:
Cia de Teatro Madalenas.
Registros:
Naldo Silva.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Com goiabada e sem compromisso - Por Arthur Ribeiro

Arthur Ribeiro: Ator e professor de Português; Participante do minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?”

Crítica Publicada originalmente no blog “O Teatro Como Ele É”

            Romeu e Julieta, ao lado de Hamlet, é a peça de William Shakespeare mais encenada e adaptada da história. Curiosamente, tornou-se também um ícone do romantismo popular, e chegou às docerias e sorveterias como a tradicional mistura agridoce entre queijo e goiabada, de onde a Companhia dos Notáveis Clowns colheu o título de seu novo espetáculo, Queijo com goiabada. Portanto, a peça, que conseguiu a proeza de literalmente lotar o teatro Margarida Schivasappa no domingo chuvoso de sua noite de estreia, pode ser lida desde o título como um cruzamento entre a literatura trágica erudita e o assalto aos cânones e aos formalismos do teatro, além da improvisação cômica, que caracterizam a linguagem do palhaço. Vejo isso refletido principalmente no personagem de Romeu, em que, com grande apoio da interpretação de Nilton Cézar, o verso original de Shakespeare é dito de forma a construir uma caracterização que ao mesmo tempo se leva a sério e ri de sua própria canalhice. Para além de dicções e interpretações, porém, o que me chama a atenção é a forma como a peça utiliza a cultura do brega como referência.
            Enquanto a tragédia shakespereana remonta à tensão medieval da rivalidade entre famílias, enredo que serve à reflexão não só sobre amor, mas sobre destino, tempo, juventude, poder e diversos outros temas, Queijo com goiabada opta por ressituar a rusga familiar em termos de uma disputa de aparelhagens, em que uma só toca tecnobrega e a outra tem no repertório apenas bregas marcantes. Essa trama não é de todo ficcional, uma vez que, como constata a pesquisa de Antonio Maurício Dias da Costa (2009), o brega tradicional, com ritmo lento e letras românticas, e seu derivado, mixado com elementos eletrônicos em uma batida mais acelerada, apesar de serem ritmos que muitas vezes se misturam no repertório das aparelhagens e no gosto popular, têm entre si pelo menos duas tensões: uma mais ligada à produção, em que imputa-se ao tecnobrega, que prima pela virtualidade e pela rápida circulação, um certo prejuízo à popularização de novos artistas “de nome” do brega em trabalhos mais “bem produzidos”, como era frequente nas últimas décadas do século passado; outra, mais vinculada à recepção do gênero, em que se constata

a especialização das Festas de Tecnobrega, frequentadas basicamente por adolescentes e jovens, na maioria entre os 14 e os 25 anos e em que se destacam as mais importantes aparelhagens da cidade. O par oposto desse tipo de festa é o Baile da Saudade, em que se apresentam aparelhagens e artistas mais antigos, com o repertório básico de boleros e bregas antigos (bregas dos anos 80, conhecidos popularmente como flash bregas) e com a frequência majoritária de pessoas entre a faixa etária dos 20 aos 60 anos. (COSTA, 2009, p. 52, grifo do autor)

            De onde derivam fenômenos como o surgimento de fãs-clubes e “galeras”, grupos de jovens que se reúnem em torno da identificação simbólica, da dança e do acompanhamento das aparelhagens por várias cidades, e que são muito frequentes em festas de tecnobrega e praticamente ausentes do circuito da saudade.
            Nesse contexto, é muito interessante observar como Queijo com goiabada deixa de lado essas contradições ao mesmo tempo em que, de certa forma, as ilustra. Embora desde o prólogo do espetáculo, um duelo de dança apresentado no pátio do Centur, fique bem marcada a diferença nos hábitos musicais de uma e outra família, não vemos em seus membros nenhuma caracterização ou construção dramatúrgica indicadora de diferença de faixa etária, condição social ou relação simbólica com os ritmos, ausência que se mantém ao longo do espetáculo: as duas famílias parecem ser tradicionais, com criados subservientes, posições semelhantes em relação à religião, dentre outros aspectos. Vejo até alguma contradição nessa caracterização, já que é no núcleo dos Montéquio, família que só toca brega marcante, em que Romeu e seus amigos formam uma espécie de “galera”, enquanto Julieta, filha dos Capuleto, fãs de tecnobrega, é caracterizada como uma jovem um tanto abobada, que parece ser muito mais dependente dos valores da família.
            Outro elemento que vejo a ilustrar essa análise é o coro, que, em mais de um momento, é central em uma forma narrativa muito original e divertida, como na cena em que “Quando chegar o amanhã”, de Leonardo Sullivan, narra a noite de amor de Julieta e Romeu, enquanto este tenta atabalhoadamente subir pela varanda do quarto da amada. Aqui, o “apaga essa luz” da letra é uma ótima zona de interposição cômica do enredo e dos elementos da encenação. Esse mesmo coro, contudo, ao longo de todo o espetáculo, se nega a construir e intensificar a ideia da rivalidade entre as famílias por meio das músicas. Nele se misturam todos os personagens, de uma família e de outra. As canções se limitam a ser um elemento de fundo, responsável por um tom de identidade regional e pela manutenção da proposta da companhia, mas fica na plateia uma vontade de ver uma renovação do sentido delas. E é também no coro que mora o que considero uma ilustração inconsciente do fenômeno cultural do brega: é visível que a maioria das canções executadas por ele são flash bregas. A identificação e a conquista da plateia ocorrem justamente por serem essas as maiores ocupantes do imaginário popular, enquanto o tecnobrega circula de forma mais restrita e tem vida mais efêmera nos corações e mentes, sendo talvez por isso um pouco esquecido pelo coro durante a peça.
            A conclusão a que chego é que Queijo com goiabada é um espetáculo de clown cujos êxitos e inovações são mais restritos ao próprio processo de palhaçaria do grupo e a diálogos pontuais com as canções de brega que o embalam do que a um compromisso com uma concepção a respeito do fenômeno cultural que toma como referência. O que não impede, obviamente, de nos esbaldarmos nas ironias engraçadíssimas que surgem, como quando Romeu e um de seus amigos fogem após a morte de um rival dizendo que “Lá vem a população”. Sinto falta apenas de uma resposta do grupo ao que representa o brega nisso tudo, o que poderia nos levar a uma reflexão sobre o fenômeno, importante, a meu ver, no atual cenário de dissolução de fronteiras culturais, em que artistas do brega são alçados ao estrelato e a representantes da Amazônia a nível internacional e o show de uma aparelhagem é o maior evento cultural do ano dentro de uma universidade, como aconteceu no ano passado em Belém.
            Gostaria de encerrar esse texto falando do que foi, para mim, especial de se ver, para além de qualquer análise, que foi uma espécie de reverência que todo o evento de domingo significou à história da arte do palhaço e do circo. O teatro Margarida Schivasappa, com seu formato italiano em degraus, que lembra a de uma plateia de circo, lotado, e os aplausos que a plateia rendia às passagens do personagem do narrador, que me lembrava uma espécie de mestre de cerimônias circense, foram um toque de saudosismo, um carinho na memória mais importante até do que os das canções de brega. Foi muito bonito.

REFERÊNCIA
COSTA, A. M. D. Festa na cidade – o circuito bregueiro de Belém do Pará. Belém: EDUEPA, 2009.

Ficha técnica:
Realização:
Cia. dos Notáveis Clowns – SEIVA – Fundação Cultural do Estado do Pará – Governo do Pará
Apoio cultural:
Parque Musical – CEB Aldeia – Grupo Experimental de Teatro Aldeato
Elenco:
Adhara Belo, Ariane Caldas, Artur Neves, Erurico, Hudson dos Passos, Jimi Brito, Roberta Passinho, Luciano Lira, Nilton Cézar, Neire Lopes, Wallace Horst
Carpintaria:
Rubinaldo Soares Silva
Adereços:
Rubinaldo Júnior, Wallace Horst
Visualidade:
Cléber Cajun
Confecção de figurino:
Olívia Dias
Operação de iluminação:
Enoque Paulino
Design gráfico:
Raíssa Araújo
Assessoria de imprensa:
Leandro Oliveira
Dramaturgia:
Livre adaptação da companhia
Direção geral:
João Guilherme Ribeiro Pinho

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Quarta-Feira de Carnaval – Por Geane Oliveira

Geane Oliveira: Graduada em Licenciatura em Teatro/UFPA, Participante do Projeto TRIBUNA DO CRETINO.    

É carnaval, a marchinha está animada, colorida e canta com vigor! Sigo no fluxo da música, sou conduzida por essa pequena multidão de mais ou menos dezoito atuantes adolescentes; sento e me deparo com um palco no centro do teatro. A marchinha continua cantando e dançando no espaço entre a plateia e o palco montado. Nessa marcha entre tantos personagens há um “policial” que sempre para alguém no meio da folia e pergunta: Quem és tu? Nunca se contenta com as respostas que lhe são dadas e repete a pergunta. É sempre ignorado pelos outros personagens, ninguém se importa com essa pergunta. É carnaval...!
Allah-ôô, ô ô ô ô ô ô ô ô
Mas que calor, ô ô ô ô ô ô ô ô
Atravessamos o deserto do Saara
O sol estava quente
Queimou nossa cara
Viemos do Egito
E muitas vezes
Nós tivemos que rezar
Allah, Allah, Allah, meu bom Allah!
Mande água pra ioô
Mande água pra Iaiá
Allah!meu bom Allah
(Composição de Haroldo Lobo-Nássara,1940)

Vamos falar de “minorias”: homossexuais, mulheres e negros. São esses os temas abordados no espetáculo. As cenas são conduzidas em esquetes, como acontecimentos isolados em uma festa de carnaval. Jovens adolescentes discutem os temas que lhes atravessam. Mas... Quem és tu? Encontro nesse carnaval a atual condição política do país: tudo é uma grande festa, vamos celebrar a morte de nossos direitos; ou ainda a “inexistência” da democracia; façamos longos discursos que gerem tretas nas redes sociais; criemos memes para rir de nossa própria desgraça. É carnaval...!
Você pensa que cachaça é água
Cachaça não é água não
Cachaça vem do alambique
E água vem do ribeirão
...
 Um beijo entre duas atuantes adolescentes adoça o espetáculo, mas não me faz esquecer a maldita pergunta – Quem és tu? Enquanto tento pensar em uma resposta entra um “Padre”, e no traseiro de vossa santidade está escrito a frase que se repete em tantos outros espetáculos – FORA TEMER. Continuo pensando em uma resposta e chego à resposta mais simples: sou mulher recém formada e até então desempregada.  Outras respostas tendem a surgir quando a marcha passa animada na mudança de cena. No forçar da mente encontro a seguinte resposta: Não sei quem sou, mas como a maioria do público não gritei FORA TEMER (eu já gritei em algum momento, mas não neste dia). Provavelmente porque essa expressão já se tornou comum ao ponto de passar despercebida, ainda que seja um grito. Um grito que parece está sendo sufocado a cada decisão tomada por este governo. Por hora prefiro seguir a marchinha, gosto do calor do “empurra, empurra”. Não quero gritar nada, quero continuar embriagada com o discurso de cada cena, onde a corrupção é apresentada nas relações de micro política. É carnaval...!
As águas vão rolar
Garrafa cheia eu não quero ver sobrar
Eu passo mão na saca saca saca rolha
E bebo até me afogar
Deixa as águas rolar
...
Quem és tu?
Alguém sem direito ao voto, mas faço parte desse carnaval, onde há confetes e serpentinas para agradar-me. Vivo a ilusão do carnaval e estou embriagada com discurso político de adolescentes!
A caminhada com essa pequena multidão de foliões foi agradável e cheia de vigor. Eles se despedem presenteando sua plateia com rosas vermelhas, e a ressaca chega sem gritar FORA TEMER, mas encarando-me nos olhos e perguntando – QUEM ÉS TU?
Geane Oliveira
07 de Dezembro.

Espetáculo: Quarta-Feira de Cinzas.
Ficha Técnica:
Elenco: Grupo de Teatro Juvenil da ETDUFPA
Direção: Inês Ribeiro
Olinda Charone
Dramaturgia: Ana Marceliano