sábado, 28 de março de 2015

Curso de Crítica em Teatro e Dança - Recepção da obra Saudade do Sonho

Detalhe da apresentação de Saudade do Sonho, de Marileia Aguiar
Um túnel de chita. Um túnel de poesia conduzindo os olhares para a imensidão dos sonhos. A guardiã do túnel, Marileia Aguiar, com sua simpatia singular foi a grande responsável pela viagem inicial proposta aos participantes do curso de extensão de Crítica em Teatro e Dança que iniciou no último dia 23 de Março. Os olhares atentos e curiosos dos participantes foram desafiados a atravessar o túnel e compartilhar, com os leitores deste blog, suas impressões da obra Saudade do Sonho, da artista convidada.  O que segue abaixo é o primeiro exercício do curso onde são registrados textualmente a recepção da obra na visão de cada fruidor.      

Recepção de Andrey Gomes
Quando não se sabe o que se viu, e o que se vê
Dizem que o ato de criar é uma atribuição divina, e se for verdade, compartilho o espanto desta experiência através de suas provocações.
Como diferenciar o concreto do abstrato, o vivido, do sonhado? Se de fato o artista cria, ele pode desafiar a razão e quem sabe mudar as leis da física, se ela existir em sua realidade.
O que se vê: o véu sob a caixa guarda um segredo, mistério oculto dos transeuntes que nem o tempo e a chuva podem atingir; mas a caixa tem uma guardiã, disposta a rasgar o véu.
O desafio: quem ousa arriscar-se? Voluntários... ou escolhidos? Entre a desconfiança e o medo, a inocência, uma criança se arrisca e deslumbra o que vê. Inocência contagiante; tomo coragem.
  Rasgou-se o véu – uma imagem, algo perdido nos confins da memória ou reflexo de minha mente? Nessa imagem alguém lê, luta contra o sono, penumbra e luz em conflito, lamparina acesa.
O que se vê atravessa os primórdios do saber, pois é imagem animada, madeira ganhando vida através de mãos humanas, o segredo de qualquer arte.
  Fecha-se o véu – o sono vence, e com um sopro (o mesmo que dá vida) a lamparina se apaga. Perplexo olho ao redor e recebo a folha em branco, devo relatar.
Quando se repetirá?

Recepção de Cleide Sousa Fernandes
Numa primeira instância, o contato com a presente obra suscita imensa curiosidade ao espectador, observando os meios que se utilizam para transmitir tal apresentação… E, mesmo atendendo a falta de domínio textual (filantrópico), neste vasto universo da dramaturgia, atrevo-me a expressar um ‘olhar fixo e penetrante’ a essa performance de Mariléia Aguiar, observando as dificuldades que se podem atravessar, na busca pelo conhecimento; a necessidade que o indivíduo apresenta de saciar sua ‘sede de informação’, e com muita dedicação, esforço e abnegação, abre mão de determinadas necessidades básicas e inerentes a manutenção de seu próprio organismo, para então se entregar a essa incessante busca, visto que o avanço da ciência e da técnica tem marchado intimamente na carência do tempo, e no âmbito da arte, a expectativa vai aumentando cada vez mais e mais, numa perspectiva de se aprimorar o “senso crítico”, dando asas a imaginação e enriquecendo de maneira inovadora esse vasto universo.
Nessa incessante, paciente e laboriosa busca, o indivíduo se torna até mesmo capaz de “ignorar” suas próprias necessidades fisiológicas, pela satisfação de sua ‘carência’ e “valoração do seu ser”; uma delas ressaltada nessa obra, durante um período em que as imagens, sons, e até mesmo as vivências do quotidiano se propagam na memória, as idéias se tornam mais fluentes, as informações se ‘compactam’ e dão asas a imaginação, resultando num aumento da capacidade de produção do indivíduo e, na maioria das vezes, levando-o a uma sensação agradável, prazerosa e bastante estimada por muitos, o ‘sonho’, sonho de atingir ou até mesmo ambicionar uma fase da vida que todos anseiam, a “realização pessoal”.
E para finalizar, numa análise mais minusciosa, partindo de um contexto psicológico, ao observar a referida performance, a visão do indivíduo expectante também pode tomar uma direção mais pertinente, mergulhando na realidade que é a dimensão do pensamento, a complexidade das emoções, desejos e convicções; existe a liberdade de se cogitar a possibilidade da descrição de um momento em que o indivíduo passa por dificuldades de conseguir obter um ‘sono de qualidade’, que o possibilite então alcançar a fase de propagação do sonho, devido a algum processo psicopatológico ou algum provável ‘abalo emocional’, daí o título da obra “Saudade do sonho”. Já numa perspectiva mais filosófica, remete a ousar em ressaltar que o indivíduo enquanto responsável pelo seu próprio emponderamento, na busca pela informação, pode evoluir à uma ‘inquietude ambiciosa’, preocupado em alcançar aquilo que o deixa mais emotivo, o impulsiona a se inserir melhor no seu contexto social, enquanto um “ser pensante” e, pelo e que o leva à um estado e/ou sensação de realização pessoal.

Recepção de Danielle Francy
Antes de entrar em contato com a obra, ela provoca grande curiosidade. O fato de ser mostrada individualmente gera grande expectativa em quem espera, foi que gerou em mim.
Ao estar diante da cena do garoto lendo seu livro à luz do que me pareceu uma vela ou lamparina, vi um momento tão importante – a leitura – sendo representado de forma tão delicada e única.
O momento final do apagar da lamparina com o sopro da atriz dá a sensação do fim de um sonho, que na verdade não é o fim, mas sim o começo se pensarmos nas grandes possibilidades de sonhos que a leitura pode nos proporcionar.

Recepção de Darciana Martins
Vestida de poeta, Mariléia sempre agradável, conversa informal, uma expressiva maturidade. Em mim despertou a curiosidade de caixa umbilical, onde a interprete carrega com gosto.
Sempre espero por uma singela semelhança quando vejo um trabalho assim, porque sempre contam histórias no qual me identifico... Entrar no sonho de alguém é compartilhar um pouco do outro.
Ao ver aquela velha moça no sereno de sua lanterna, paginando seus sonhos... Vi-me de alguma forma ali... Um trabalho delicado, singular, preciso, me remete a muitas coisas, um olhar multifacetado e difícil de contornar, de fazer.
Remete-me ao trabalho árduo dos artistas de rua, minuciosos, dedicados, pessoas apaixonadas pelo que fazem... Vejo-me mais uma vez... É uma doação ao outro, sem pedir nada em troca... Só a sua entrega.
Quando um artista se dedica ao prazer da doação a arte, ele se entrega ao outro... Mais uma vez me vejo em uma caixa de pandora, onde as lembranças e o amor á arte se faz presente...
Blá a maturidade da arte...

Recepção de Emanuella Souza
Medo! Curiosidade! Surpresa... Foram estes os sentimentos da minha recepção de “Saudade do sonho”. O medo do que encontraria dentro de uma caixa tão bonita e misteriosa, segura pelas mãos de uma doce e simpática senhora, no entanto, este sentimento não durou muito, logo foi substituído pela coragem da curiosidade.  O que tem lá dentro? Ah! Não foi nada do que pensei! Foram tantos pensamentos, tantas ideias que no final a surpresa tomou conta de mim.
Que fantástico! Foi o meu pensamento, uma história simples, envolta em mistério, mas cheia de sentimentos, uma experiência única.

Recepção de Geane Oliveira
Caixa das lembranças
A poesia de um garoto ou quem sabe sua historia de ninar é visitada nas páginas de um livro. A imaginação o leva ao passado talvez, mas nem todas as lembranças lhe permitem vencer o pesado sono. A vela que se apaga seria o término do livro ou da luz da vida.
Sou transportada a minha remota infância, as mãos que manipulam o boneco são de minha avó, ouço suas palavras ainda que fora do mundo pequeno da caixa haja apenas o barulho da chuva. O dedo na cabeça do boneco são cafunés dos quais tenho saudades. Velavelavela, na verdade uma lamparina e o cheiro de querosene vêm acompanhado de um sobro e da frase: Já é hora de dormir para poder sonhar!

Recepção de Louise Bógea
Estávamos todos na sala, quando o professor Edson, ao perceber certa vontade de ação dos seus alunos, encaminhou todos para fora do recinto. Lá, começamos a presenciar a performance artística da Mariléia. De um pouco entediados, os participantes se tornaram atentos novamente. Confesso que aquela caixa colorida, os movimentos das mãos da artista pelas laterais do objeto e o seu olhar sob a fresta estavam realmente me deixando curiosa. E não posso esquecer daquele seu pequeno assopro, ao final de cada performance, após quase três minutos de expectativa. Eu achava que não poderia ficar ainda mais curiosa: engano meu. E, de bônus, ainda me senti medrosa. Um garotinho, ao furar a nossa pequena fila, encorajou-me a sentar naquela cadeira e a cobrir a minha cabeça com o pano colorido, para observar o que, enfim, havia dentro da caixa misteriosa. Ele, sorrindo, enfiou o rosto ali, para depois sair entusiasmado e saltitante, preenchendo-me de curiosidade. Forcei-me a decidir que chegara a minha vez e sentei na cadeira. Para a minha surpresa, sorri também. Ao ver aquele pequeno boneco lendo, sob a luz de uma pequena lamparina, senti-me saudosa. Não sei dizer o porquê, mas lembranças me invadiram, e, com elas, a solidão. Comecei a sonhar com aquela cena que me fora apresentada, mesmo com mais de vinte pessoas lá fora. A minha atenção havia sido quase que magicamente roubada, e já não queria acordar. Em certo momento, porém, junto ao silêncio que se formou, os dedos, ao passarem as páginas do livrinho – ou talvez a expressividade do boneco? –, tornaram aquele ambiente um tanto macabro. Detectei um pouco de sinistro naquilo tudo, em meio à calmaria de antes. Enquanto o pesadelo se instalava e interagia com a minha alma, a luz se apagou, retirando-me dali. Neste instante, entendi o sorriso no rosto dos outros participantes, ao término da experiência: eles também estavam com medo que nem eu. Em uma última análise, e com saudade do sonho, digo que Mariléia conseguiu arrancar sorrisos dos críticos sérios.

Recepção de Ludimilla Cunha
Num momento, o desconhecido que a escuridão abraça. É novo e oculto inicialmente, porém, quando a cortina se levanta, os olhos se abrem e a escuridão dá lugar à luz de lamparina, percebo como cada canto se parece um tanto com os da minha casa. Como se cada centímetro ganhasse ar de gigantesco nesse tempo que é largo e também escasso, como o tempo dentro de uma caixa de sonhos que tenho por hábito chamar de vida.

Recepção de Malu Rabelo
A obra "saudade do sonho" da atriz Mariléa Aguiar veio á calhar com o primeiro dia de aula do curso. Aquela caixa conduzida por ela combina com a curiosidade e timidez do primeiro encontro.
Mas o que faz essa mulher parada ali na sacada? Com uma caixa pendurada ao pescoço? Usa uma roupa listrada que me fez lembrar dos judeus, um sorriso amigável e convidativo.
O silêncio impera a cena, todos que iam até a caixa, saiam de lá com uma expressão mansa e um leve sorrio, esticavam o corpo pareciam querer alcançar algo? Bem, chegou a minha vez, entrei naquele túnel de chita sem criar expectativas, sem esperar nada, queria vê se ia ter que me esticar também ou se ia sair com aquele leve sorriso.
Quando entrei ali, vi um menino, tava sem roupa ao contrário da mulher, ele esfolheava um livro compenetrado, com apreço e atenção que incomodava a ponto de querer vê, enxergar o que tinha ali. Foi ai que percebi a luz que iluminava a cena, ela me conduzia a isso, a querer ver. Vinha de cima da mesa, tinha uma espécie de luz arcaica, uma lamparina (que na verdade, era um led, provavelmente funcionando através de uma bateria de uns 9v) não deu para não me voltar para a luz e pensar como tinha feito aquela gambiarra. A luz criava a temperatura do ambiente me permitindo entrar naquele sonho. Quando comecei a pensar demais, ela veio e fuuu! Apagou minhas instigações num sopro, acabou o folhear do livro o menino cansado, adormeceu e eu acordei de um sonho fantástico que aquela mulher me proporcionou.

Recepção de Paula Barros
O ALIMENTO
A curiosidade provoca sensações. E a primeira que me foi desperta, foi a expectativa do que esperar, em seguida a ansiedade de querer descobrir o que se passava dentro daquela pequena caixa, a partir daí, mesmo ansiosa por querer ir logo, me permitir esperar. Então comecei tentando perceber as reações dos olhares que saiam depois de observar a pequenina caixa, e a curiosidade aumentou a medida que as pessoas começaram a esboçar risinhos de cumplicidade com a atriz; alguns demoravam mais, outros menos, mas os risinhos permaneciam, e a atriz sempre atenta ao trabalho, que ao fim terminava com um sopro para dentro da caixa; e quando sem mais poder esperar, fiz com que chegasse minha vez, e na escuridão se acendeu uma pequena luz, uma luz de vela, era algo tão simples, um menino sentado numa sala com um livro e a atriz o “alimentava”; com as mãos ela fazia com que vagarosamente pudesse absolver aquela “sopa de letrinhas” e ao fim ela desligava a vela com um sopro. Assim, me foi desperta outras mais sensações o primeiro o esquecimento do mundo fora daquela agora sala, o segundo procurar saber o que estava escrito naquele livro, mas o momento era tão belo que mais uma vez me permitir, dessa vez de outro modo, através do menino e sua leitura eu vaguei no imaginário e no mundo que agora eu podia visitar e me alimentar o do sonho.

Recepção de Silvia Teixeira
Como fiquei com vontade de roubar as palavras ou as frases daquele livro... Mas da janela não daria.
O que será que aquela garota tanto lia? Estiquei-me para um lado e para o outro, mas não consegui ler nenhuma letrinha. Nem ao menos saber se a obra era em português. Mas que garotinha egoísta! Nem percebeu que havia uma pessoa que queria ler. Será que estou sendo egoísta também? Pois ela estava tão concentrada, talvez nem estaria ali; quem sabe em uma praia, ou até mesmo passeando nos lindos barcos de Veneza; sonhando com qualquer outro lugar, menos em um quarto com uma lamparina acesa.
Como gostaria de estar no lugar dela, exatamente onde a menina estava... Era tão aconchegante, tão silencioso; com gosto de cidade do interior, de um tempo em que não havia eletricidade.
A sensação de curiosidade que tive ou de até mesmo roubar o livro da jovem é a mesma que tenho quando alguém chega próximo de mim com um livro ou jornal. Sempre corro com os olhos entre as linhas para descobrir o que a pessoa está lendo, e dentro daquela caixa preta não foi diferente, não dispensei o minúsculo livro da boneca de miriti.

        Recepção de Carla Baia
A obra “Saudade do Sonho” foi algo que despertou muito a minha atenção e atiçou a minha curiosidade. Antes de experimentar a situação, passou varias coisas em minha cabeça, menos o que estava de fato lá dentro. Eu percebia o comportamento das pessoas ao passarem pela experimentação e o modo como elas se portavam, era algo que me deixava ainda mais instigada.
Era como se algo puxasse a pessoa para dentro da caixa, porque elas iam sentando cada vez mais na ponta da cadeira, umas ficavam com o corpo inclinado, acredito que para poder ver melhor e mais de perto o aquela caixa tão misteriosa guardava dentro de si.
E quando finalmente chegou a minha vez, não pude me conter e me levantei rapidamente, na verdade fiz isso para que mais ninguém sentasse naquela cadeira tão desejada por mim, super pronta e ansiosa para o que me esperava fui ao encontro do desconhecido. Ao por minha cabeça na caixa e poder ver o que estava lá, foi um momento de pausa, parece que naquele instante tudo começava a passar em câmera lenta.
E lá, estava um menino, sentado em uma cadeira com um livro sobre a mesa e nessa mesma mesa, bem no canto, uma lamparina, iluminando o ambiente, iluminando a minha mente. Por vezes ele se afastava por frações de segundos daquele mundo e era nesse momento que ele deixava a cabeça pesar e inevitavelmente cochilava em um piscar de olhos, mas quando se recuperava, voltava a ler o livro, como se algo também o puxasse para dentro do livro, talvez fosse o conteúdo que havia lá ou mesmo só a vontade de estudar como meio de mudar algo.
Eu não sei ao certo o que aquela cena queria me passar, mas foi algo que ficou em minha mente até agora e tenho certeza que não é algo que vá sair tão rápido. E isso deixou uma saudade, saudade daquela tranqüilidade que estava guardada naquela caixa, fora dela havia um mundo tão turbulento que naquele momento nem pude perceber. E o sopro que apagou a lamparina foi o mesmo que me pós de volta para a realidade, me despertando de um sonho, me deixando com saudade.

Recepção de Roberta Castro
O espetáculo começou quando saimos encontramos a obra e a artista na saída da sala. Em princípio o que mais me chamou atenção foi a reação das pessoas para com a obra e também da artista perante a nós expetadores.
            Com o pedido de Mariléia artista e criadora da obra artística, as pessoas foram se organizando para irem uma a uma sentando na única cadeira que dava acesso ao espetáculo. No momento não me incomodava com nada muito menos a quantidade de pessoas que iriam passar por ali antes de mim, afinal eram cerca de 20 pessoas estava mas preocupada em analisar o comportamento da artista que sugeria que há qualquer momento poderia nos surpreender devido à altura de sua voz a qual era sempre em volume baixo. Olhar atento, obsevava cada detalhe gestual da artista e também dos expectadores que me deixavam cada vez mais ansiosa, mas ainda sim, queria analisar mais e mais sob a ótica de um olhar externo ao espetáculo.
            Primeiro foi uma moça assistir, ela sentou na cadeira e ficou numa posição de estado de alerta e medo, parecia que a qualquer momento ia levantar-se dali. A artista soprou para dentro da caixinha onde ela manuseava e acontecia todo o espetáculo e a moça se assustou ficando com o cabelo atrapalhado, a reação dela me deixou bastante curiosa para saber o que  tinha a deixado daquele jeito.
            Seguida Kauã, um dos colegas do curso foi o próximo ele sentou e ficou bem quietinho demonstrando uma reação oposta ao da primeira expectadora. Mariléia soprou novamente e Kauã parecia estar hipinotizado, ficou por alguns segundos paralisado com um semblante sereno e um leve sorriso, ele só saiu daquela zona hipinótica quando o professor o cutucou para lhe entregar a ligação a seguir.
            Mais um motivo para me deixar ainda mais curiosa, eram duas reações distintas. Eu, bastante curiosa falava para mim mesma, o que se passa ali? O que deixa as pessoas sairem com essas reações? O que tinha naquele sopro que aparentemente desestabilizava todos que levantam daquela cadeira.
Na  caixa estampada um teatro em miniatura tão pequeno que dava para carregar tranquilamente de um lugar para o outro nos braços. Dentro um  cenário preto, uma mesa, uma cadeira e um garoto sentado lendo um livro sob a luz de uma lamparina. O garoto folheava página por página. As folhas passavam e eu, o que será que ainda esta por vir? Passavam-se as páginas e nada! Em meio a leitura o menino ficou sonolento o qual cochilou rapidamente deixando a cabeça pesar sobre o livro, o cansaço tentava dominá-lo mas o desejo de  se superar não o deixava desistir,  se espertou levantou a cabeça e continuou a ler.

Eis que o livro acaba, a lamparina é apagada por aquele conhecido sopro de Mariléia e fim, nada de surpreendente, nada que me fizesse ter medo ou que me tirasse do meu estado de corpo anterior apenas a mensagem do menino humilde que tinha saudade de buscar seu sonho de vencer na vida por meio de seu estudo, saudade de tentar ou simplesmente a saudade de adentrar na magia de algum conto que podia estar naquela miniatura de livro.
Recepção de Alvaro Batista
“Saudade do sonho”, um trabalho que ao primeiro olhar, aguça a curiosidade, que na fila de espera se torna cada vez mais forte, tão forte, que, os que passam e percebem a cena, acabam esperando por um espaço para adentrar ma magia do espetáculo criando uma expectativa, que acaba por envolver a todos.
Uma performance, já que a cena não necessita do espaço cênico propriamente dito, para ser realizada, podendo ser levada e apresentada nos mais diferentes espaços e tempo, carregada de poesia, magia e criatividade.
O trabalho da atriz Marileia Aguiar, que na cena atua apenas como a condutora e manipuladora da sua pequena caixa e da sua animação, leva ao mais distante da imaginação, trazendo lembranças e recordações, da vida de quem o assiste, pelo menos essa foi a minha sensação na minha viagem dentro daquela caixa.
Olhando o pequeno boneco sonolento, a folhear o pequeno livro diante da pequena luz, me fez esquecer que eu estava ali, dentro daquela pequena caixa, mergulhado naquela história lida pelo pequeno leitor, naquele pequeno mundo isolado da cena que acontecia ao meu redor do lado de fora da caixa.
E apesar da certeza de que você se encontra em um corredor de uma escola, a magia que envolve a cena, faz com o público e o espaço acabem por se envolver pela figura, que esteticamente e delicadamente se compõe ao ato, com a finalidade de levar você a um outro tempo e uma outra atmosfera, bem distante daquele movimentado corredor.




quarta-feira, 4 de março de 2015

Curso de Extensão "Crítica em Teatro e Dança" e Outras Novidades para 2015

O Curso de Extensão Critica em Teatro e Dança é apenas uma das novidades que o projeto TRIBUNA DO CRETINO reservou para o ano de 2015 que se revela, desde o início, promissor em suas metas. Mas antes de apresentarmos as informações sobre o curso temos a satisfação em anunciar que o projeto foi contemplado com o IV PRÊMIO PROEX DE ARTE E CULTURA. Sem dúvida, é o reconhecimento do crescimento e importância das ações que vem sendo desenvolvidas desde Julho de 2013 quando o projeto ainda era realizado do modo experimental.
Os recursos oriundos do edital da PROEX garantem ações fundamentais para expansão do projeto, sendo esta a terceira grande novidade: a criação e publicação dos primeiros números da TRIBUNA DO CRETINO: Revista de Crítica em Teatro e Dança. Trata-se de um periódico impresso e semestral dedicado exclusivamente a publicação de críticas de espetáculos produzidos em nossa cidade. O lançamento da revista Vol.01, Nº 01/ 2015 está previsto para acontecer ainda no mês de Março e trará as dezesseis críticas produzidas e/ou publicadas pelo projeto no ano passado e apresentam um intenso e instigante debate sobre as obras analisadas pela visão de dez novos autores críticos.
Compreendendo, desse modo, a importância e o crescimento do projeto, em 2015 o mesmo oferecerá curso de extensão onde haverá oportunidade para aprofundar conteúdos diretamente ligados a crítica em Teatro e Dança. O mais importante desta ação, no entanto, é continuar estimulando pessoas interessadas nos modos de formular e produzir textualmente reflexões críticas sobre Teatro e Dança. A produção crítica que resultará do curso será publicada no segundo número da revista. O projeto continuará recebendo, no entanto, a contribuição de qualquer pessoa que queira publicar seus pensamentos críticos – no blog ou na revista – mesmo não participando do curso. Os autores de novas críticas interessados na publicação devem observar a coluna ao lado com as normas para publicação no blog e na revista.
Agora vamos às informações sobre o curso: O Curso de Extensão: Crítica em Teatro e Dança oferece 20 Vagas, é aberto a comunidade em geral e terá carga horária total de 90 Horas. Será realizado na Escola de Teatro e Dança da UFPA e será dividido em dois módulos: 1º Módulo – Introdução à crítica de 23 de Março a 22 de Junho; 2º Módulo – Parâmetros possíveis para a crítica em Teatro e Dança: de 10 de Agosto a 16 de Junho. Os encontros serão semanais e ocorrerão sempre às segundas-feiras das 15h às 18 h. Os interessados devem solicitar ficha de inscrição pelo e-mail cretinofundamental@gmail.com até o dia 18 de Março.
E por fim a última grande novidade já deve ter sido notada você desde o início do acesso a esta plataforma virtual. Sim, a identidade visual do projeto ganhou uma logomarca pelos traços criativos de Aníbal Pacha. Nela Pacha nos lança ao campo de batalha empunhando a arma ideal para fustigar a cretinice reinante: os pensamentos afiados na ponta de uma caneta. Os mais familiarizados com o universo rodrigueano encontrarão ainda dois signos indiciais que completam o layout da logomarca (observe atentamente a logomarca e tente encontrá-los), desenvolvidos sutilmente por Pacha, a quem agradeço sinceramente pela colaboração e parceria.

   


   


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Confluências de UM lugar entre

Crítica ao espetáculo UM, por Edson Fernando

Quando se está “entre” nos é permitido gozar da suspensão das categorias absolutas, pois no estado intermediário as coisas ou seres adquiriam uma potência ambivalente que retroalimentam sua condição mais elementar. Na adolescência, por exemplo, deixamos a infância pra trás sem, no entanto, termos alcançado a idade adulta e este estado intermediário proporciona a situação paradoxal de um ser – o adolescente – que deixou de ser – criança – mas ainda não se tornou o ser – adulto. Ele, portanto, encontra-se em estado de suspensão, pois deixou de ser, sem ainda ter se tornado. A adolescência, neste sentido, pode ser considerada uma categoria relativa a um ser em estado de transição.
Se voltarmos esta pequena reflexão para problematizar nossa condição humana em suas múltiplas dimensões – ética, política, econômica, filosófica, sociológica, etc. – poderemos constatar que estar no lugar “entre” de alguma forma nos permite o ultrapassamento de nossa dimensão mais subjetiva, proporcionando-nos a revisão, abstração ou mesmo a subversão de todos os nossos valores instituídos. O mesmo se aplica as práticas artísticas que se colocam como operacionalizadoras destes espaços “entre”, isto é, as práticas que instauram no palco a dimensão e realização de um rito. É o que ocorre com a pesquisa mais recente da Companhia Moderno de Dança no espetáculo UM. É a partir do lugar “entre” que me permitirei tecer algumas considerações à pesquisa que se encontra em andamento.
O primeiro elemento relevante a se considerar encontra-se exatamente no fato da Companhia compartilhar, primeiramente, a pesquisa em andamento por meio de sessões de fruição da obra aberta ao publico para, então, de modo colaborativo posteriormente afinar o espetáculo. Este encaminhamento mostra a maturidade do grupo envolvido na pesquisa e sua responsabilidade e preocupação em encontrar novos meios de compartilhamento dos seus conhecimentos e de sua arte, meios que se estabeleçam para além do entendimento da obra como produto. O processo criativo é importante, tão importante ou até mais importante que a visão mercadológica estabelecida que concebe o artista como mais um trabalhador no meio social. Não causa surpresa, neste sentido, que a pesquisa tenha sido contemplada com o PRÊMIO FUNARTE PETROBRÁS DE DANÇA KLAUSS VIANNA 2013; pelo contrário, mostra o reconhecimento de um projeto maduro que pensa e estabelece sua arte em consonância com as demandas atuais da sociedade.
Assim, as considerações que apresento, a seguir, configuram-se como tentativas de colaboração com o corpo de uma obra que, embora se encontre em andamento, já se mostra plenamente vigorosa e com seu arcabouço processual muito bem estabelecido, ou seja, o lugar do “entre”, ou para ser mais exato, utilizando a nomenclatura de Victor Turner, a esfera da experiência liminóide – espécie de experiência contemporânea que proporciona similaridade ao tempo e espaço instaurados pela liminaridade dos ritos antigos. É por esta lente que discorro agora.
A imponência da área de atuação estabelecida pela arena circular, iluminada por candeeiros de velas e chão de terra – muita terra – imediatamente nos defronta com nossa pequenez diante dos espaços sagrados ou sacralizados. A sacralidade do espaço é completada pela sonoplastia executava ao vivo e, fundamentalmente, pelos atuantes a ritualizar suas ações iniciais. O choque com esta imagem inicial que a Companhia nos oferece é brutal e, talvez por isso, o processo de reconhecimento dos elementos destoantes se imponha também tão imediatamente aos nossos olhos: as cadeiras de plástico brancas, reservadas aos espectadores, rompem a estética de ancestralidade visual formando um anel frio em volta da área de atuação, anel visual apartado de todas as ações intensas que serão vivenciadas pelos atuantes no solo arenoso. E se por um lado temos terra, fogo, água e ar intensamente trabalhados no espaço sacralizado da vivencia do rito, por outro é reservado aos espectadores o plástico das cadeiras e o chão em carpete formando um pequeno fosso que separa o espectador do alcance do solo viripotente da vivência. Desse modo, o contato direto com a terra, capital na relação dos atuantes e sua dimensão gestual ancestral durante toda a vivência, revela-se de modo antagônico com o público por sua relação asséptica com o espectador.
Esta arena, portanto, constrói seu próprio espaço liminóide reservado exclusivamente aos seus iniciados – os atuantes. Assim, dentro dela – arena como espaço liminóide – tudo se passa de modo não rotineiro, numa intensificação da experiência do tempo presente que se opõe veementemente ao comportamento dispersivo e difuso do cotidiano; cada gesto, movimento, canto, sonoridade e ação são realizadas – por boa parte dos atuantes – de modo a ritualizar o espaço. É impressionante como experiências dessa ordem conseguem acionar um comportamento semelhante aos que simplesmente assistem: o público mesmo apartado do espaço e da ação central manifesta respeito a sacralização do lugar e procura manter-se em silencio respeitoso e com o mínimo de gesticulação aleatória possível.
Um elemento em particular, no entanto, nos dá pistas de que o espaço liminóide poderia ou poderá ser estendido ao alcance do público: os três alguidares com banho de ervas. Dois deles se encontram estrategicamente colocados em cada portal de entrada que nos levará ao encontro da arena; mas nenhum tipo de preparação nos é sugerida e nenhum tipo de orientação nos é ofertada pela equipe ou mesmo pelos atuantes. Ficamos a mercê de nossa curiosidade na relação com este elemento tão rico pela simbologia que porta e que é explorada, posteriormente, durante a vivência, por ocasião do banho de purificação dos atuantes. 
Importante frisar que uso o termo “vivência” e não “apresentação” ou “representação” para me referir ao ato proposto pelo espetáculo, posto que aquelas palavras não dão conta da potência operada na esfera do rito e, consequentemente, pelo desenvolvido neste espetáculo. Na experiência linimoíde se “vive intensamente” diferentemente de se “representar intensamente”. Trata-se de uma entrega intensificada por uma experiência de restauração da parte – o homem – com o todo – o universo – intimamente ligado à ideia de uma dimensão harmônica e existencial perdida. Isso é possível de notar em boa parte dos atuantes quando vemos seus corpos num processo de ritualizar o movimento, diferentemente de alguns outros que permanecem na esfera da execução coreográfica dos movimentos. 
Ora, mas poderíamos objetar que por se tratar de um espetáculo de Dança, realizado por uma Companhia de Dança, nada mais natural do que assistirmos aos movimentos tecnicamente coreografados, ou seja, nada mais natural do que os atuantes dançarem suas coreografias. A questão que proponho, então, para refutar ou não tal objeção é a seguinte: UM pretende ser meramente um espetáculo de dança convencional? O que e como se pretende dançar em UM? O que interessa na construção da pesquisa do movimento em UM? O que se deseja ao se aproximar e se apropriar da esfera do rito? É possível tal aproximação sem que haja mutuas trocas entre as esferas da dança e do rito? É possível passar impune pela esfera do rito? Toda dança é rito e vice e versa? Quando UM deixou de ser dança para ocupar o lugar “entre” Dança e Rito?
Podemos ensaiar parte das respostas observando o que ocorre no fragmento final da vivência: após o ato de purificação que envolve canto e o banhar de todos os atuantes, os mesmo despem parte de sua indumentária e se dirigem solenemente para fora da arena, longe da vista do publico. Quando retornam, já desprovidos do restante das indumentárias do rito, o estado que se apodera de todos é de ordem completamente diferente do anterior: todos agora circulam pela arena em movimentação circular e rítmica acelerada, grunhindo sons em estado de êxtase delirante executando movimentos em sincronia notoriamente coreografada. A transformação é tão radical na comparação com tudo vivenciado e visto anteriormente que ouso dizer que este retorno a arena não somente não se coaduna com a proposta desenvolvida até então, como também provoca uma mácula no próprio percurso processual da pesquisa. Fico então, com a impressão de que o trabalho já havia acabado antes deste último retorno dos atuantes.
Penso este trabalho como uma confluência “entre” Dança e Rito e, por esta perspectiva, procuro compreendê-lo como uma meta-tentativa ritual de restabelecimento da harmonia das partes – Dança, Teatro, Música, Performance, Visualidade – com o todo – o próprio Rito como síntese produtiva dessas artes. Se aproximar e se apropriar da esfera do rito significa, então, suplantar as barreiras categóricas que separam as supracitadas artes. E isso de alguma forma embaralha o jogo na recepção do espectador, pois ele – via de regra – segue o que está estabelecido convencionalmente, isto é, sua expectativa tenderá sempre para a recepção de um espetáculo de dança. O grande desafio, deste modo, é saber comunicar que o jogo no palco se estabelecerá por outros modos de percepção.
Para tanto, um elemento de crucial importância é o itinerário de entrada e saída do espaço ritualizado. Assim como já mencionei os alguidares no portal de entrada, que podem ser trabalhados como elementos para preparar os que irão adentrar o espaço sacralizado, também deve-se atentar para o modo como todos deverão ser conduzidos de volta  após o encerramento do ato.  
Há uma premissa de Aldo Natale Terrin que considero muito interessante e que tem me auxiliado a refletir sobre as práticas artísticas que confluem para o lugar do rito: x vale y no contexto ct. A premissa aparentemente sisuda expressa de modo simples que na esfera do rito alguma coisa (x) encontra-se no lugar de outra (y), mas que o jogo simbólico que permite esta permutação depende inteiramente do contexto que é criado. Segundo Terrin, trata-se de um jogo simbólico-místico entre uma ação (x = drómenon) e um mito (y = legómenon) que se estabelece num contexto que permite aos que vivenciam o rito reconhecer uma coisa (x) na outra (y). Entenda-se por contexto a determinação do tempo – duração da ação ritual: início e fim –, preparação do espaço, dos elementos, dos mestres de cerimônia e dos participantes. Sem a devida preparação de algum dos elementos que constituem o contexto do rito, o próprio ficará passível de uma recepção que comprometerá o jogo simbólico-místico proposto.
Observo que no caso das praticas artísticas que se estabelecem na confluência com os ritos, um contexto inadequado inevitavelmente remete a uma ação de representação de um rito ao invés de uma ação de vivencia do rito. E minha principal inquietação é que representar um rito leva o atuante ao falseamento do pólo mítico (y). Vejo então, atuantes executando ações (x) tentando me convencer de que estão desenvolvendo um mito (y) sem, no entanto, professar sua própria fé no que executa; e isso ainda ocorre com parte dos atuantes de UM, como já mencionei anteriormente. Em outras palavras, se cada atuante de UM não conseguir realizar seu próprio rito pessoal, o contexto da obra pode ser ver abalado.
O que me anima bastante ao tecer estas considerações é saber que a Companhia Moderno de Dança encontra-se com o processo criativo em andamento e maduramente aberta para pensar e re-pensar sua prática. Evidentemente que as considerações tecidas aqui, longe de encerrar alguma verdade, apenas prestam-se a tencionar a obra para o lugar de onde ela mesma se erigiu. E, neste sentido, é importante não esquecer que a obra se erigiu “entre” a dança e o rito, lugar privilegiado para a revisão, abstração ou mesmo a subversão de todos os valores instituídos. A longevidade que desejo a esta obra nos dará pistas para pensarmos, posteriormente, sobre a responsabilidade de nos reconhecermos como homens comprometidos a reinventar mais que simplesmente as linguagens artísticas, mas recriar nossa relação com o mundo.     
Edson Fernando

21.12.2014       

sábado, 20 de dezembro de 2014

Oração ao tempo: memórias de lembranças que não passam.

Espetáculo: Oração ao tempo.
Credenciais do autor da crítica: Dênis Bezerra é Ator, Diretor e Prof. Dr. da UFPA.

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo, tempo, tempo, tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo, tempo, tempo, tempo.

Caetano Veloso

O espetáculo Oração ao Tempo, do segundo ano do curso Técnico de Ator da Escola de Teatro e Dança da UFPa, dirigido por Marton Maués e Jorge Torre, provocou-me a tecer algumas linhas sobre o trabalho. Tive a oportunidade de assistir duas vezes, na estreia e na sexta-feira, em ambos os momentos fui levado às minhas memórias, e à intensa relação que tenho com os velhos.
Dividido em quinze quadros, o espetáculo organiza-se como uma grande instalação na qual os espectadores podem interagir e trocar experiências com os personagens. Cada história perpassa pela temática da velhice, de um momento na vida do homem cujos sentimentos se misturam: a morte, a lembrança da juventude, a espera pela família, por um carinho, um afeto, uma mão para tocar peles marcadas pela história, sedentas de calor humano.
São diversos universos apresentados a nós espectadores, que precisamos nos deslocar pelos vários espaços e estabelecer conexões com as histórias de vida narradas. Cada detalhe é especial, o figurino, a cenografia, mas principalmente a interpretação dos atores em comunhão com o passado e presente juntos.
As palavras que aqui teço não são tomadas pelo olhar apurado de um exercício crítico, mas tocadas pelas sensações que senti ao presenciar esse digno trabalho, porque ele é para fruir, e foi isso que ocorreu comigo, a fruição, deletei-me com o espetáculo, cheguei ao estado de prazer relatado por Roland Barthes, em O prazer do texto:
O que eu aprecio, num relato, não é pois diretamente o seu conteúdo, nem mesmo sua estrutura, mas antes as esfoladuras que imponho ao belo envoltório: corro, salto, ergo a cabeça, torno a mergulhar. Nada a ver com a profunda rasgadura que o texto da fruição imprime a própria linguagem, e não a simples temporalidade de sua leitura.

Esse estado de fruição foi alcançado em vários momentos. No primeiro dia, pelo impacto de tudo; no segundo, pela sensação de apreciar o que no dia anterior não tinha sido possível, devido à emoção que me arrebatou, e por ter presenciado novamente essas histórias. Resolvi interagir mais, mergulhar com mais profundidade pelo café servido, pela rede que me lembra minha avó, pelos brinquedos, discos, vitrolas, mosquiteiro, álbuns, fotos que representam várias trajetórias de pessoas que não conheci, mas que se apresentaram pelo corpo dos atores ali em comunhão comigo.
Com relação à interpretação, quase todos me convenceram, cada detalhe, a transformação de um corpo jovem, pulsante, que aos poucos vão ganhando as marcas do tempo. As mãos trêmulas, o andar marcado pelo peso do tempo, as vozes num compasso da experiência.
Os elementos cenográficos me permitiram viajar para as minhas histórias, aos momentos os quais convivi com velhos, tanto em minha família, quanto em outras oportunidades do dia-a-dia, quando encontramos senhoras perfumadas, arrumadas em suas janelas à espera de alguém ou de um afeto, a contemplar a passagem do tempo ou à chegada do fim, pois como diz Ecléa Bosi, em Memória e sociedade: lembranças de velhos,
A lembrança é a sobrevivência do passado. O passado, conservando-se no espírito de cada ser humano, aflora à consciência na forma de imagens-lembranças. A sua forma pura seria a imagem presente nos sonhos e nos devaneios.
Quero destacar duas cenas. A primeira é a de um senhor em diálogo com as lembranças de sua esposa, representada pela pintura na parede. Ele desenha para não esquecer. Assim, sobre os papeis surgem cores e formas, imagens e recordações de sua vida, da mulher amada, materializada pelo deslizar dos lápis coloridos.
A outra cena, é da velha senhora, envolta por seu mosquiteiro-casa, à espera de seu amado filho que nunca vem, e que mergulha na esperança desse encontro, sustentada pelo cordão da realidade, que a faz emergir do mar da saudade para o aguardar cotidiano. Esse “quadro” me fez lembrar das várias imagens de mulheres que na história da humanidade esperam por seus filhos, maridos, amigos. O fiar silencioso enquanto Eles não retornam a sua Ítaca.
Só tenho a agradecer à equipe de Oração ao tempo, por ter proporcionado esse momento de lembranças, com cheiros de memórias em cada álbum, em cada imagem, em cada história apresentada.

O tempo tem tempo de tempo ser,
o tempo tem tempo de tempo dar,
ao tempo da noite que vai correr,
ao tempo do dia que vai chegar...


Denis Bezerra.
20.12.2014


sábado, 13 de dezembro de 2014

Sobre a Maresia dos Tempos de Experimentação

Espetáculo: Maresia. Grupo Projeto Vertigem.
Crítica produzida por Edson Fernando, Ator e Diretor Teatral.

Enquanto observava o bamboleio das três atuantes numa desenvoltura lúdica com os colares de conchas do mar durante a apresentação do espetáculo Maresia, do Projeto Vertigem, as questões inquietantes que alimentam esta reflexão me atravessaram: até quando a ênfase dos processos criativos em artes cênicas recairá na experimentação? Até que ponto esta ênfase não esgota – ou esgotou – a essência das artes do espetáculo? Em que medida a experimentação fragiliza os condicionamentos técnicos necessários para a manutenção da qualidade da cena? Quais os desdobramentos econômicos, sociológicos, filosóficos, políticos e ideológicos do uso indiscriminado da experimentação? Quando o uso da experimentação se volta contra os criadores e os tornam agentes anacrônicos da história e da cena local?
Embora estas questões tenham me atravessado durante a apresentação do espetáculo supracitado, elas não se dirigem especifica e exclusivamente a este grupo e sua montagem, mas estabelecem relação direta com boa parte da produção local em artes cênicas. Por este motivo, penso ser importante repercuti-las com os criadores locais para tentarmos juntos compreender o labirinto poético-conceitual em que nos encontramos. Sempre que necessário, no entanto, tomarei como exemplo, para ilustrar ou aprofundar alguma questão, as cenas de Maresia. É importante ressaltar ainda que, novamente, corro o risco de desenvolver as questões de modo hermeticamente voltado para os criadores, negligenciando, portanto, o papel de mediação com o público que cabe ao crítico. Assumo o risco compreendendo que a função em relevo colocada aqui é a de pensar criticamente a cena e não propriamente o da assinatura de uma crítica teatral.
O primeiro desafio que se impõe é o de saber lidar com os termos e seus desdobramentos conceituais. Então, quando falamos em experimentação no teatro invariavelmente remetemos a diversas práticas contemporâneas: teatro de vanguarda, performance,  teatro-laboratório, teatro de pesquisa, dança-teatro e – a mais em voga recentemente – teatro pós-dramático. Todas, no entanto, apontam para um lugar inicialmente comum: oposição e superação da relação tradicionalmente estabelecida pelo que se convencionou chamar de teatro burguês.
Opor-se e superar tal tradição exige de um processo criativo experimental a revisão de vários elementos estruturantes da linguagem teatral, tais como: destituição do texto como eixo principal; novas e diversas formas de conceber a relação palco-plateia; o público passa a ser parceiro da cena – dependendo da obra, de modo mais contundente e explicito – e não espectador passivo e submisso; atuante como mais um signo dentro do conjunto de elementos da obra – cenografia, sonoplastia, iluminação, figurino; pluralidade de sentidos em oposição ao sentido fechado e unívoco; vulnerabilidade das fronteiras entre as linguagens das artes plásticas, cênicas e performativas; entretenimento, ação política e fruição estética agrupadas – ou diluídas? – num mesmo ato.
Nada disso, no entanto, é novidade por aqui. Basta tomarmos como exemplo o trabalho do grupo Cena Aberta criado na década de 1970 por ex-alunos da Escola de Teatro e Dança da UFPA e retratado de modo primoroso pela pesquisa histórica de Denis Bezerra. O trabalho inaugural do grupo, Quarto de Empregada, de Roberto Freira – dirigido por Luiz Otávio Barata com atuações de Margaret Refkalefsky e Zélia Amador de Deus – já atesta segundo Bezerra (2013, p.95) o uso de inovações que vão ao encontro de alguns dos elementos citados anteriormente.
Interessante observar como o trabalho deste grupo dialoga com as práticas catalogadas por Hans-Thies Lehman no período que compreende os anos de 1970 a 1990 e definidas como pós-dramáticas. Não somente dialoga como se insere no mesmo período histórico datado por Lehman. Não podemos negligenciar, então, os aspectos eminentemente políticos destacados pelo pensador alemão ao compreender as práticas pós-dramáticas como práticas pós-brechtianas, pois são tentativas diversas de se contrapor ao projeto de subjetivação do sistema capitalista voltado a passivar a percepção estética do público (2007, p.10).
A produção do Cena Aberta, neste sentido, encontra-se em consonância com as premissas pós-dramáticas como podemos atestar visitando os registros de alguns trabalhos emblemáticos do grupo, novamente pela lente de Bezerra (2013, p.100-2): Theastai, Theatron de 1983, dá início a exploração de uma poética fundada na corporeidade e, em particular, ao corpo nu como elogio a liberdade e protesto contra a repressão da Censura do regime militar; Genet: o Palhaço de Deus de 1988, Posição Pela Carne de 1989 e Em Nome do Amor de 1990 – todos dirigidos por Luiz Otávio Barata – compõem a trilogia do grupo que ratifica sua poética alicerçada na corporeidade e valorização da sexualidade além da vinculação à uma linguagem voltada para as origens ritualísticas e religiosas do teatro.
Observo, portanto, que a experimentação no contexto do Cena Aberta desenvolveu-se numa relação dialética entre a necessidade de forjar sua própria poética – forma – e o imperativo político que se impunha para discutir a conjuntura do país e da cidade – conteúdo. Experimentar naquele contexto configurava-se – dentre outras coisas – como ato de legitimação de uma arte de resistência política objetivando um modo de percepção que reconhecesse o público como elemento ativo e transformador do quadro social.
Vinte quatro anos nos separam de Em Nome do Amor, último espetáculo criado pelo Cena Aberta e me vejo em meio as questões que abrem essa reflexão, tentando compreender o labirinto conceitual em que estamos enredamos, sem saber se somos vítimas ou algozes da experimentação. É obvio que temos de considerar que a conjuntura é outra, o regime político é outro e que a formação dos grupos teatrais atende por outras motivações. Não se trata, portanto, de estabelecer uma analogia entre os períodos históricos e as formas de atuação poética-política, mas de procurar compreender como o conceito de experimentação tem potencializado o esvaziamento de uma visão holística que articule forma e conteúdo, poética e ética, arte e política. 
Voltemos, então, a cena que me disparou as inquietantes reflexões: o bamboleio que as três atuantes executam com os colares de conchas do mar. Há nesta ação do bambolear uma dimensão eminentemente lúdica: a descoberta do objeto – sua sonoridade, textura e balanço – sendo explorada no corpo das atuantes e provocando uma brincadeira de bailado entre elas. É notório que a movimentação, a marcação e quiçá a concepção da cena tenham sido estabelecidos a partir da experimentação com este elemento cenográfico – o colar de conchas do mar. Mas o que se estabelece para elem desta ludicidade? Podemos e construímos sentido para esta ação – afinal sabemos desde Ernest Cassirer (1874 – 1945) que o homem é um animal simbólico – mas o que se impõe em cena é o jogo experimental das atuantes com o objeto. Há desse modo, ênfase na experimentação enquanto forma, ao passo que o conteúdo se vê fragilizado e dependente de uma inferência lírica e pessoal do público.
Processo semelhante ao descrito nesta cena de Maresia ocorre com recorrência na produção local modificando-se, via de regra, somente o elemento indutor para o processo de experimentação. Quando isso se dá, fico sempre com a impressão de que cenas como a do “bambolear dos colares de conchas do mar” não foram feitas para serem assistidas e sim para serem fruídas na prática por cada espectador. O curioso é que esse convite por vezes não ocorre, como não ocorreu em Maresia. Ficamos provocados pela ludicidade da ação, mas não somos autorizados a praticá-la no palco e por isso recorremos à construção de um sentido simbólico para a cena. E quando o convite ocorre, inevitavelmente, o que se explora com o público é tão somente a mesma dimensão lúdica da experimentação a partir do objeto. Ou seja, a ênfase da experimentação enquanto forma aprisiona os gestos na dimensão lúdica apartando-os de sua dimensão econômica, política, sociológica, filosófica e ideológica.
Então, poderíamos nos questionar: Em que medida os processos de experimentação que assentam sua ênfase na forma tem contribuído para um posicionamento estratégico e político em nossa conjuntura? Por que continuamos experimentamos? Quem têm se servido desta espécie de experimentação?
Uma constatação lamentável pode ser extraída dos últimos atos organizados coletivamente pela classe artística em nossa cidade, ocorrida por volta de Junho de 2013: nossa capacidade de compreender a experimentação como ato altamente subversivo e implosivo se viu, e se vê, absolutamente desprovida de consistência e caráter histórico. Àquela altura o máximo que conseguimos foi gritar um “Chega!!!” as portas do Teatro da Paz, sem sequer incomodar uma única alma que fruía tranqüila e confortavelmente a abertura do XII Festival de Opera promovido pelo Governo do Estado do Pará. O exercício da experimentação se deu de que modo naquela ocasião? Reproduzimos uma forma de nos portarmos diante do Establishment seguindo os próprios princípios do Establishment: o grito comedido de “Chega!!!” estava pautado pela preocupação da repercussão do ato junto a opinião pública. Então, era perigoso ousar propondo qualquer tipo de experimentação mais radical. A experimentação como ato subversivo, no entanto, se pauta tão somente com vistas a implodir o que já está estabelecido, como mencionamos anteriormente. Nossa ação no que se convencionou chamar de “Movimento Chega”, não ultrapassou, portanto, a dimensão lúdica proposta pelas apresentações artísticas que foram colocadas na frente do Teatro da Paz.                         
É apenas um exemplo do quanto temos que aprender com os métodos que aparentemente são tão corriqueiros e recorrentes nos nossos processos de criação.
Outra questão pertinente é voltada a refletir sobre quem tem fomentado a experimentação como procedimento metodológico legítimo para processos de criação. Em nossa cidade, sem dúvida, merece destaque as Bolsas de Criação, Experimentação, Pesquisa e Divulgação Artística promovidas pelo IAP – Instituto de Artes do Pará. São treze anos promovendo este tipo de fomento voltado às linguagens da fotografia, instalação, audiovisual, música, teatro, dança, poesia, curadoria e design. O próprio Maresia, do Projeto Vertigem, é resultado de uma dessas bolsas contemplada no ano de 2013. A questão, obviamente, não é afirmar o comprometimento de qualquer projeto vinculado às bolsas do IAP ou de qualquer outra agência financiadora – exemplo disso é a própria obra literária de Denis Bezerra citada anteriormente aqui ou mesmo o resultado do Projeto Vertigem –; muito menos colocar em xeque de modo irresponsável este tipo de fomento tão raro e escasso em nossa cidade quanto à seriedade na aplicação das leis de trânsito. Mas provocar o exercício crítico nos pesquisadores-artistas fazendo-os perceber que é preciso problematizar este lugar e tipo de experimentação. Do contrário, o exercício de ludicidade continuará a ser cada vez mais aprofundado por meio das experimentações mais variadas, em detrimento de uma experimentação que nos favoreça reconhecer nossa capacidade de protagonizar as mudanças desejáveis no momento presente.   
O desafio que atravessa todas as questões levantadas aqui parece ser impor ainda: Por que Experimentamos? Como Experimentamos? Pra que Experimentamos? O propósito não é encontrar respostas absolutas para estas questões, mas voltar o olhar para a própria prática artística compreendendo que na primeira questão – Por que Experimentamos? – encontra-se a dimensão filosófica de nosso trabalho, na segunda questão – Como Experimentamos? – os procedimentos e arcabouço propriamente poéticos do nosso fazer e, por fim, a terceira questão – Pra que Experimentamos? – nos coloca diante de nossa responsabilidade ética em face da conjuntura sócio-político-econômico de nossa sociedade.

Meu desejo é que o exercício crítico voltado a estas questões nos permita discernimento para compreender o presente e não perder os trilhos da história e, quem sabe ainda, perceber e atuar com os elementos que nos levem a descoberta de uma era pós-experimentação.