sábado, 16 de dezembro de 2017

Convite - Peça Teatral: A Outra Irmã – Por Fernanda Karen das Chagas Oliveira

Montagem Teatral: A Outra Irmã
Montagem: Teatro de Apartamento
Autora da crítica: Fernanda Karen das Chagas Oliveira, assistente social e blogueira literária no Garota Pai D'Égua.

Crítica publicada originalmente no blog Garota Pai D’Égua

A Outra Irmã” foi escrito e dirigido por Saulo Sisnando, um autor paraense maravilhoso que temos um contato forte aqui em Belém. 
Nós, do blog Garota Pai D’Égua, fomos convidados para assistir a peça e lá fui eu, com namorado e amigos a tira colo, prestigiar o trabalho do autor amigo.
Não darei NENHUM spoiler sobre o roteiro aqui, pois não quero estragar a experiência de vocês então vou expor os meus feelings a respeito, tá bem? Então tá bem. 
A Casa Cuíra, local onde a peça está sendo apresentada, é literalmente uma casa. Com cadeiras distribuídas em uma sala, os espectadores ficam no mesmo espaço que é feito de palco. E a troca realizada é impressionante. Os autores nos envolvem, nos olham nos olhos, desconfiam de nós. Somos levados a ser partes da peça. 
"A outra Irmã" teve a influência forte do livro “O Caso dos Dez Negrinhos”, de Agatha Christie. Ou seja, seu roteiro é envolto em mistério, crime, ambição e plot twists. Tenham isso em mente quando forem assistir: as coisas podem não ser o que aparentam. A autora de mistério é ovacionada por suas conclusões geniais e fora do comum e Saulo Sisnando bebeu dessa fonte ferozmente, levando o espectador a fazer conjecturas a todo o momento e, mesmo assim, acabamos surpreendidos. 
O humor de Saulo também está impregnado em todo seu texto. E não é um humor qualquer, mas aquele inteligente, elegante e desdenhoso. Claro que posso estar vinculando diretamente à atuação de Leonardo Moraes que me enredou de jeito com suas expressões, seus tons e seus "docinho"s. Leonardo é um dos atores que interpretam mais de um personagem e é maravilhoso ver a transformação das “personas” acontecendo em nossa frente. 
O elenco composto por Olinda Charone, Zé Charone, Leonardo Moraes, Leoci Medeiros, Pauli Banhos, Sônia Alão e Flávio Ramos é todo incrível cheios de charme, compondo lindamente o estilo noir do cinema clássico de Hollywood. Estou longe de ser uma especialista em crítica teatral, mas estou completamente encantada e rendida. 
O grupo Teatro de Apartamento é de Belém e está cheio de amor e talento para dar. O teatro paraense é maravilhoso e esse post é um convite para vocês irem prestigiar essa arte que é nossa. E aproveitar para darem boas risadas e se divertirem tentando desvendar o caso de mistério que rodeia o enredo de “A outra irmã”. 
Até logo, DOCINHOS.
16 de Dezembro de 2017. 

Ficha Técnica:
Montagem Teatral:
A Outra Irmã
Teatro de Apartamento
Elenco:
Olinda Charone, Zê Charone, Leonardo Moraes, Leoci Medeiros
Participações especiais:
Pauli Banhos Sonia Alão e Flávio Ramos
Direção:
Saulo A. Sisnando
Dramaturgia:
Saulo A. Sisnando
Criação de Luz:
Patrícia Gondim
Operação de luz:
Luiza de Marillac
Cenário:
Patrícia Gondim
Consultoria de Maquiagem:
Danielle Cascaes
Consultoria de Figurinos:
Grazi Ribeiro
Operação de Som:
Gisele Guedes
Direção de fotografia (filmagens)
Alexandre Baena
Edição de vídeos (Filmagens)
Saulo A. Sisnando
Assessoria de Imprensa:
Edyr Augusto Proença
Produção:
Grupo Cuíra e Teatro de Apartamento


Tic Tac: A Hesitação do Relógio – Por Murillo Olegario

Montagem Teatral: O grande dia qualquer.
Montagem: Grupo de Teatro Universitário (GTU NOITE)
Autor da crítica: Murillo Ferreira – Ator, graduando em Licenciatura em Teatro.
O relógio quebrou ás 19:30h, criando uma mudança dramática nos métodos de mensuração do tempo, nos processos contínuos, as variáveis repetições de processos oscilantes, igualmente como o balanço de um pêndulo. A luz da minha cadeira acende, as peças estão espalhadas, tenho um conjunto de dezenove ferramentas ao meu alcance: ajustador de bracelete em metal + buchas soltas, suporte de bracelete, caneta barra / mola para remover e substituir pinos de mola do bracelete de relógio, cinco chaves de fenda com blet plana, sete chaves de fenda, abridor de tampa para soltar a placa traseira do relógio, universal de dois pontos, abridor da caixa do relógio parafusado, pinça de relógio e um martelo de relógio.
 Organizo o processo de montagem do relógio ou o meu próprio tempo? Entre movimentos de um corpo suspenso, movimentos intermitentes em sentidos opostos (no sentindo figurado é o envolvimento de incerteza entre duas propostas). Abro a tampa, encontro peças que repetem várias vezes o mesmo movimento, deixando de ser constante entre cada recapitulação; preso ao oscilador há um maquinismo intermediador que não conduz essa engrenagem, peças enferrujadas pela fricção. Fecho a tampa, dou umas batidinhas e os pulsos voltam como se fosse algum tipo de contador para demonstrar o tempo em unidades pertinentes, frequentemente segundos, minutos e horas.  Pois bem, os processos não exibem o desfecho inteligível.
Olho para o relógio – 20h, como o tempo passa de vagar. O mais rápido que pude tentei compreender outra vez a função de cada ferramenta, tirei peça por peça, limpei com o maior cuidado para montar e engrenar novamente. Às 20:30h ajusto os ponteiros... TIC... TAC, estagnou, corro contra o tempo para desmontar o relógio, como um relojoeiro principiante, tento me focar nas variações das peças, busco ouvir o som do pulsar de um dos ponteiros, mas só me vem gritos e desespero como se seguissem a dizer: é a minha hora e não a sua. Anulo, saio em busca dos mecanismos, desde as ampulhetas do século XV até as do século XXI, no relógio atômico. Será que preciso ter outras peças ou funções, como: ajuste, balanço, bezel, calibre, cronômetro, válvula de escape de hélio. Não. Já sei: a corda principal ou movimento de corda manual, mais rápido... mais rápido... mais rápido... engrenou.
Ás 20:57h, meu corpo engrenou nesse tempo e espaço onde só faço, o mais rápido possível, compreender outra vez a função de cada ferramenta, tirar peça por peça, limpar com maior cuidado para montar e engrenar novamente. Como todas as coisas que me cercam eu nasço, cresço, sou sistematizado analogicamente no tempo, no TIC TAC; eu solfejo ou engreno e, no derradeiro dia, PARO.
TIC... TAC... TIC... TAC... TIC... TAC... Não entendo! Perdi alguma peça, uma ferramenta, o tempo?  Não, foi apenas falta de graxa.
16 de dezembro de 2017.

Ficha Técnica:
Montagem Teatral:
O grande dia qualquer.
Grupo de Teatro Universitário (GTU NOITE)
Elenco:
Adriane Henderson, Costa Junior, Carolina Monteiro, Dalila Costa, Fellipe Sena, Igor Moura, Ibsen Caio, Ivany Palheta, José Neto, Karol Ferreira, Lane Amorim, Luan Calderone, Mardox Maia, Matheus Folha, Natalia Aprigio, Rose Mendes, Ronaldo Santos, Thiago Oliveira e YsamyCharchar.
Dramaturgia:
Alana Lima e Lucas Serejo.
Direção:
Rhero Lopes e Paulo Jaime.
Assistente de Direção:
Luiza Imbiriba.
Arte, Iluminação e Cenografia:
Manuela Ferraz.
Assistente de cenografia:
Madu Santos.
Preparador Corporal e Coreógrafo:
Natan Magno.
Preparador de Elenco:
Paulo César.
Músico, Compositor e Preparação Vocal:
Arthur da Silva.
Assessoria de Imprensa e Fotografia:
Allyster Fagundes.
Assessoria de Comunicação:
Igor Moura e Allyster Fagundes.
Produção:
Rhero Lopes, Paulo Jaime e Luiza Imbiriba.
Figurino e Maquiagem:
Ana Luz Marinho e Mayla Serrão

(Equipe Ateliê Galeria).

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

urUBUservando a situação: tudo aqui é carniça – Por Karimme Silva

Montagem teatral: I(MUNDO) UBU.
Montagem: Grupo Imundas.
Autora: Karimme Silva, Psicóloga, Psicopedagoga, Atriz formada pelo Curso Técnico em Ator pela ETDUFPA e ex-bolsista do projeto de extensão PREAMAR TEATRAL.

urUBUservando, a situação
uma carraspana, na putrefação;
a lama chega até o meio da canela;
o mangue tá afundando e não nos dá mais trela!
(Chico Science e Nação Zumbi)

Sejam bem vindos ao caos e à desordem! Não, não tirem seus sapatos, pois eles já estão sujos. O negócio vai feder... Apenas tirem todas as máscaras e se vejam sobre a máscara mais frágil... E percebam o quão somos estúpidos! Essa podridão generalizada, bem como sugere o nome Imundas, faz um paralelo à condição se absorver dentro de uma dramaturgia, com aquela sensação de “Eu já vi isso antes...”. Não me refiro à adaptação da obra Ubu-Rei, de Alfred Jarry, mas à sensação que ela provoca. Dez atores se desdobram em cena, para dar vida ao Pai e à Mãe Ubu. Percebo a importância do caráter grotesco em cena: os gestos grandiosos, os corpos em expansão, algumas expressões faciais e vocais melhores marcadas do que outras. Há o tom carnavalesco e já esperado dos bufões ali presentes. Para Bakhtin (2010), o bufão

“está na fronteira entre o permissivo e o não permissivo, carrega consigo a crítica à humanidade através do sub-humano. É, por excelência, uma figura grotesca e traz a ligação com a mãe terra geradora e as capacidades fisiológicas humanas. Suas origens estão ligadas também à cultura cômico­-popular, na qual sua aparição é mítica e burlesca. Por trás dessa máscara corporal, a risada provocada surge em diferentes graus de intensidade, e parece que a ridicularização do ‘feio’ e do ‘anormal’ é reveladora de grandes verdades.”

Ser o casal Ubu, longe dos escrúpulos pelo poder, lembra bem a caricatura demarcada dos discursos políticos reais. As frases clichês e toda a demagogia ensaiada pelos que buscam o poder só confirma que a imundície não permeia apenas a ficção: ela é mais real e fedorenta do que se imagina.
Panis et circenses!
É hora de entreter o público! Vamos dar a eles o que eles querem? Alimento pros miseráveis e diversão pros babacas. Vamos entreter, ou como diriam algumas pessoas: ‘INTERTER’. Entretenimento é importante (e precisamos de audiência), vamos ligar a TV pra que esse público esqueça esse cheiro ruim e saia daqui bem satisfeito. Há uma programação variada pro espectador: talk-shows, plantões jornalísticos, a porta dos desesperados, games, o sensacionalismo. As cenas ditas cômicas nos fazem rir da desgraça alheia, mas na verdade não estaríamos entretidos rindo da nossa própria desgraça? 

Quando o gatilho é tão frio
quanto quem tá na mira: o morto!
(...) outros não,
ainda conseguem abrir os olhos
e no outro dia assistir TV

Dramaturgicamente a TV apresentada em I(MUNDO) UBU pouco se diferencia do que estamos acostumados a ver ou saber pelos noticiários diariamente. Os recortes da atualidade ajudam a engrossar este caldo pútrido e indigesto: ponto sujo pra vocês, Imundas. Muitas vezes é importante repensar os fatos da realidade dentro da ficção, de repente somos todos os cachorrinhos que comem a ração do Dória e constatamos que direitos trabalhistas e previdenciários agora agonizam.  A atemporalidade da obra original de Jarry possibilita uma compreensão maior sobre os meios nos quais vivemos hoje: um déspota que chega ao auge do poder após passar por cima das leis vigentes, após cometer uma série de crimes... É realmente uma coisa Temerosa.  A peça – bem como a realidade – nos coloca cara a cara com a nossa própria miséria. Vasculha-se a podridão existente na lama da ambição, remexem-se as carnes podres. Estamos fedendo.
A nível interpretativo, destaco a excelente cena da navegação: é preciso ser ágil (em corpo, voz e intenção) e não perder o timing, ainda mais quando se trata de coringagem. Muitas vezes uma “passada de bastão” pode comprometer uma cena e o andamento de um espetáculo. Nesta cena, o elenco foi hábil (tirando algumas expressões visivelmente preocupadas com um tecido rasgando em cena), e soube se aproveitar bem o improviso que, grosso modo, é isso mesmo: lidar com imprevistos sem comprometer a qualidade da cena. Na cena de Pai e Mãe Ubu com o capitão, percebi um jogo muito afinado entre os atores que seguravam o plano principal, em nenhum momento houve queda de energia. Isto é essencial para um trabalho em grupo: saber a hora de passar e receber o bastão, saber reter e expandir energia.
Destaco aqui também a grandiosidade que é para um ator não se “restringir apenas” (aspas devidamente propositais) ao ofício da cena. É de suma importância a noção de que vestimentas, objetos e cenários compõem o rito cênico. São elementos carregados de símbolo e significado para a imersão em qualquer espetáculo. Em tempos nocivos e sombrios para as políticas públicas que envolvem o teatro, construir todo um espetáculo pautado no “faça você mesmo” mostra que atuação é resistência; atuar é contexto político e de forma a exalar o mau cheiro que a realidade nos apresenta. Depois que morre, toda pessoa fede. Mas algumas, fazem questão de deixar exalar seu fedor em vida.
Pai e Mãe Ubu, vocês fedem. 
Nós todos fedemos, e depois de pouco tempo, tudo vira carniça pros urUBUs que restarem.
12 de dezembro de 2017.

REFERÊNCIAS
BAKTHIN, Mikhail. Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento: François Rabelais. São Paulo: Editora Hucitec, 2010.
SCIENCE, Chico; PEIXE, Jorge Du. Maracatu de Tiro Certeiro. In: Da Lama ao Caos. Gravadora Chaos, 1994.


Fica Técnica:
Montagem Teatral:
I(MUNDO) UBU
Grupo Imundas
As Imundas da cena:
Arthur santos, Bernard Freire, Loba Rodrigues, Enoque Paulino,
Evy Loiola, Filipe Marques, Kayo Conká, Ruber Sarmento,
Sandrinha Wellem, Thamires Costa.
Trilha:
Aj Takashi e Jimmy Góes.
Direção:
Marcelo Andrade
Assistente de Direção:
Bruno Rangel.
Fotos:
Kauê Barp, Laércio Esteves.
Teaser:
Paulo Evander.
Apoio:
Fórum Landi, Zecas Coletivo de Teatro,
Dirigível Coletivo de Teatro, Notáveis Clown,
Os Varisteiros, João Ribeiro.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Opereta Antropofágica – Por Oswald de Andrade.

Montagem teatral: Boêmios
Montagem: Grupo de Teatro Universitário (GTU TARDE).
Autor: Oswald de Andrade – Escritor, ensaísta e dramaturgo BRASILEIRO[1].
Diletos, selvagens tupiniquins, voltei para analisar a atual conjuntura do Pau-Brasil. Nesta terra onde nem o sabiá gosta mais de cantar, rogo que um meteoro termine logo este Brasil colonizado. Voltemos para “idade de ouro” da não colonização, com sua própria linguagem e cultura. Porém, caso o dito meteoro não caia, tiremos a roupa! De fora, deixemos apenas o carnaval, a buzanfã e a boemia – a alegria é a prova dos nove! Mas, caso Deus não permita, façamos Cristo nascer na Bahia, e a mãe dele em Belém do Grão-Pará. Porque somos fortes e vingativos como o pirarucu ou boitatá.
Senhoras e senhores, fomos enganados! Nossa independência ainda não foi proclamada! Nem em Ipiranga; e muito menos em Atalaia. Se tudo isso persistir, selvagens tupiniquins, tomemos injeção de antropofagia! Contra todos os importadores de consciência enlatada. Falaremos do que é nosso por direito. Uma nova revolução instauraremos – O mundo não datado. Não rubricado! Sem Napoleão, César, Aristóteles, Temer, Paulo Chaves e Zenaldo. Caminhemos... Todavia, se tudo der errado, sejamos nacionalistas zombeteiros! Apesar deste manifesto, não seremos xenófobos e muito menos adeptos a xenofilia, seremos antropofágicos! Comeremos tudo o que nos foi imposto e faremos do nosso jeito apimentado.
Povo pentacampeão, chega de tentar entender ciência política, nossa história já é cheia de mentiras. Até o fazer artístico é recheado de invencionice. Disseram que o tal do Nelson Rodrigues foi o precursor do modernismo nessa terra de “ordem e progresso”... COF, COF, COF... Que cinismo! Com certeza não leram minhas dramaturgias: “O Rei da Vela” ou “O Homem e o Cavalo” escrito dez anos antes do “Vestido de noiva” do tal cretino “revolucionário”. Mas me digam: Quem liga? Logo aqui, no país do bala(PEI)-CU-Baco...
Me refiro, neste momento, aos preguiçosos fazedores de teatro do Brasil. Fomos catequizados por Stanislavsk, Brecht, Grotowski, Tchekhov, Sófocles, Genet, Shaskpeare e tantos outros. Mas não damos importância para Boal, Millor, Suassuna, Guarnieri, Dias Gomes, Nelson, Nazareno Tourinho, este que vos escreve e tantos outros pobres miseráveis contemporâneos e não famosos dos livros literários. Portanto, sejamos contra as sublimações antagônicas trazidas nas caravelas! Mas, caso não aderir a esta rogatória, que nos mostre um bom entendimento para sua história. Transforme “Édipo” em anarquista, “As Três Irmãs” em feministas, “Antígona” na rainha louca brasileira, façam um “Romeu” transviado e uma “Julieta” Transformista! Chega de eurocentrismo e todos os sufixos que vem de FORA! Falaremos da trivialidade brasileira e de nossa (não) sabedoria! Sim, isso também é necessário na terra do sarcasmo! Nesta perspectiva, precisamos fugir dos estados tediosos. Contra as escleroses ocidentais. Contra os conservatórios e o tédio especulativo. Precisamos de um novo gênero teatral – O DEBOCHISMO.
Precisamos votar não, também, ao “Dolarcentrismo”! Não precisamos de Hollywood! Tupy or not tupy, that is the question... Broadway? Só se for no teatro operístico. Ali, o money rola solto nas ceroulas dos assaltantes de colarinho. Contudo, se o fizer espelhado no tio Sam, corte as pernas, os braços e cerebelos, devore e beba água não potável (pode ser da baia do Guajará, mesmo) e traga para nossa atualidade Tupiniquim.
Catiti Catiti
Imara Notiá
Notiá Imara
Ipeju[2]
Foi o que pude perceber no espetáculo “Boêmios”, inspirado no musical americano “Rent”. A direção e atuantes reformulam a história para o presente, e os fazem a partir da nossa língua portuguesa (poderia ser tupi, ninguém é perfeito) e colocam temas atuais a partir do signo imagético belenense. Este, sem dúvida, é o maior trunfo de “Boêmios”. O musical – Que musical coisa nenhuma... Opereta antropofágica! – nos revela um grupo de oito jovens abordando os temas: AIDS, miséria, drogas, homossexualidade, desemprego e relacionamentos entre os jovens da contemporaneidade. Com um teor simples na abordagem dos mesmos, mas não deixando que a peça se torne planfetária. Eles apenas narram as mazelas – os jovens que assistem podem se ver no papel dos atuantes.
Antes de tudo, eu gostaria de parabenizar a garra em fazer um teatro praticamente impossível em pouco tempo de ensaios e sem recursos financeiros para a grandiosidade que se pede. É um tiro nos culhões! Mas a juventude liga para isso? Esses questionamentos são coisas de velhos feitores de teatro. COF, COF, COF... Que dependem de recursos para montar uma peça que não precisa nem de cenário. A opereta “Boêmios” é um grande desafio para a direção e elenco, primeiro porque usaram o corredor do teatro Cláudio Barradas para a encenação, isso são quase uns 30 metros. Segundo: não ter grana para usar microfones de lapela para todos os atuantes. Terceiro: o pouco tempo de ensaio para um espetáculo de duas horas de duração. Quarto: não tiveram tempo para ensaiar com a iluminação, sonoplastia, adereços e o próprio palco da narrativa. Isso é um tiro no pé! Culpa da direção? Não! Culpa de um sistema que faz os artistas e fazedores de teatro montarem espetáculos na marra, porque caso contrário, não se faz teatro. Haja vista que não temos incentivos financeiros para montagem. Tem de se ter CORAGEM!
Coragem que não falta nas atuações que corroboram no carismático suporte cênico da personagem Maureen – destacando-se pela energia ferina e maravilhoso jogo com os espectadores. Um dos pontos altos da peça. Mais a boa atuação do inquieto músico Roger e a equivalência na vigorosa composição de personagem e de voz de Mimi Marques – apenas cuidado para que na continuação do espetáculo a vela não se apague. Além da feroz espontaneidade de Joanne e seu timbre retumbante, aliada a mimese corpórea agoniante do atuante “Aracy da Top Therm’. No mais, a sincronia do elenco, embora favorecendo mais um ou outro personagem dá QUASE conta das duas horas de espetáculo. Sobre iluminação e problemas técnicos eu não posso analisar, e seria escrotice de minha parte falar sobre a mesma, mormente porque fui assistir o último ensaio aberto ao público, e nada estava afinado – NA-DA! Apenas a boa cenografia que atende à funcionalidade do que se pretende, aliada ao colorido dos figurinos. Obviamente, muito se tem que melhorar em “Boêmios” mas isso não tira o brilho do mesmo. Aliás, o espetáculo faz um trabalho social nas temáticas supracitadas, em apenas duas horas, onde o governo no ano de 2017 não deu conta (essa nova). Portanto, a adaptação do “dolarcentrismo hollywoodiano”, surte um efeito positivo. É disso que necessitamos – Antropofagismo!
Para encerrar este manifesto, preciso explanar sobre os últimos acontecimentos, isto é, as manifestações de ódio e violência marcadamente conservadoras e supostamente defensoras dos “bons costumes”, direcionadas aos artistas e fazedores de teatro tupiniquins. Parece-me que estão nos encaminhando para uma nova Auschwitz ideologizada. Neste caso, campo de concentração de inculturas. Muito me assusta, no país onde a liberação da libido é permitida nos seus trezentos e sessenta e cinco dias carnavalizados, não se pode mais mostrar o peito e o rabo. Seria o pater famílias e a criação da Moral da Cegonha: Ignorância real das coisas + fala de imaginação + sentimento de autoridade ante a prole curiosa sedentária? Acho que podem me responder os vigilantes, aqueles que nem se quer vão ao teatro ou em outras formas artísticas. Para estes, minha contribuição: vão para casa descascar mangas simbólicas e joguem as Chaves fora – FORA! Porque precisamos de anarquismo para sobrevivência! Repito, fiquemos todos nus! Voltemos a ser indígenas! Contra, também a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud – a realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições... Aqui não! É preciso estar atento, antropófago e forte! Tupy or not tupy, that is the question?!
08 de dezembro de 2017.
Ficha Técnica:
Montagem Teatral: 
Boêmios
Elenco:
Alice Maria, Andrey Jandison, Bianca Rolim, Danielle Oliveira, Felipe Cordeiro, Felipe Fernandes, Joyse Carvalho, Julya Campelo, Junior Campos, Luciana Silva, Matheus
Amorim, Matheus Gomes, Priscila Ribeiro, Raíssa Gama, Vanessa Lisboa, Victória Aben-Athar, Yuri Warris.
Direção:
André Launé
Preparação de Elenco:
Miller Alcântara
Preparação Vocal:
Mauro Coutinho
Coreografias:
Madson Santos
Produção:
Raíssa Gama e Danielle Cascaes
Fotografia:
Danielle Cascaes
Figurino:
Thais Squires





[1] Raphael Andrade: Ator e graduando em licenciatura em teatro – e inserções do manifesto antropófago de Oswald de Andrade.
[2] Alusão irônica a um episódio da história do Brasil: o naufrágio do navio em que viajava um bispo português, seguido da morte do mesmo bispo, devorado por índios antropófagos.

domingo, 3 de dezembro de 2017

Jarry nasceu aqui! – Ou da Impossibilidade da Fabulação em Tempos de MBL – Por Edson Fernando

Montagem Teatral: I(MUNDO) UBU.
Montagem: Grupo Imundas
Autor da Crítica: Edson Fernando – Ator e diretor teatral; Coordenador do projeto TRIBUNA DO CRETINO.
Manifesto
Suspendam os filtros poéticos, cancelem as suavizações estéticas, as metáforas bem elaboradas, os versos rimados, a sofisticação dramatúrgica, o requinte literário, o apuro das unidades de ação... Conspirem contra os roteiros estabelecidos em atos, prólogos, epílogos, cenas, entreatos... Enforquem as personagens estabelecidas e polidas por um psicologismo empático e catártico. Cantem sem o compromisso da nota certa, da melodia harmônica ou da voz afinada. Gritos são bem vindos, assim como as palavras chulas, as gírias, o “Caralho”, a “Buceta”, o “Cu” e toda sorte de palavrões sórdidos. Devolvam o pudor aos demagogos e moralistas (?) de plantão, para que eles se envenenem com suas próprias setas pudicas – vide os escândalos de pedofilia envolvendo o clero da Igreja Católica, acobertado pelo Vaticano, ou a voracidade financeira dos pastores das igrejas neopentecostais, pra citar apenas alguns. Foda-se os cânones e gêneros literários. Interrompam o fluxo natural das narrativas, dos grandes ou pequenos acontecimentos a pretexto de nada fazer, de nada comentar, de nada planejar, de nada sonhar, de nada querer... Simplesmente interrompam para que o “nada” desmascare os preceitos da “jornada do herói”, preceitos que se tornaram inócuos num mundo onde nenhuma lógica ou causalidade parece se sustentar. Exponham ao ridículo os “heróis” dos grandes clássicos de outrora os fazendo confessar, em praça pública, que eles não têm mais nada a oferecer a uma nação em vias de ser dominada pelo obscurantismo. Abandonem as proposições apodíticas, os imperativos categóricos, os algoritmos, os silogismos e toda a sorte de velhacaria que impregnou o exercício dramatúrgico e poético. Visitem o fundo do Mato-Virgem, encontrem e abracem Macunaíma, calorosamente. Cuspam na cara de Odete Roitman. Tratem com escárnio todos aqueles que ultrapassam, cínica e deliberadamente, os limites entre ficção e realidade. Façam troça dos usurpadores da ficção, estes sujeitos caras-de-pau que transformam a realidade num palco macabro para destilar suas vilanias impunemente. Contra estes últimos, espalhem o espírito anarco-bufônico presente nos atos dos anti-heróis mais prestigiados que a história do teatro já criou, para que uma vez mais a ficção, por meio da paródia burlesca, ofereça a imagem patética, mas fiel, dos tempos conturbados e obscuros que vivemos. E se acaso, ainda assim, suspeitarem que a caretice reinante consegue ocultar-se nos pequenos gestos de nossos mais admiráveis bufões, é hora de lembrar o grito do glutão glorioso: – “Patafísica ou morte!”. 
Imundices
É tempo de bufonaria. Quem me lembra desta possibilidade de acesso aos acontecimentos mais repugnantes que temos testemunhado no cenário político brasileiro dos últimos anos é a montagem teatral I(MUNDO) UBU, uma adaptação da obra “Ubu Rei” de Alfred Jarry, realizada pelo Grupo Imundas. A montagem arrola pra si a responsabilidade do debate político da conjuntura nacional de nosso país, e o faz por meio de uma encenação corajosa e despudorada, sem se importar ou investir tempo na fabulação de uma paródia farsesca. Nada se sobrepõe ao desejo de problematizar um Brasil atravessado por questões graves, sejam elas questões políticas, éticas, sociais, jurídicas, financeiras e/ou religiosas. Nem mesmo a dramaturgia de Jarry é poupada: a adaptação coloca sua ênfase no roteiro de ações dramatúrgicas, transformando-o numa espécie de canovaccio no qual as personagens Pai Ubu e Mãe Ubu são os motores dos acontecimentos.     
Movendo-se pelo ideário de uma Patafísica – que procurei esboçar na abertura desta crítica – a montagem trabalha, sem melindres, com o que a realidade tem oferecido. Pai Ubu e Mãe Ubu, por esta via, são exercitados como máscaras sociais que são compartilhadas por todo o elenco ao longo da apresentação. Não sendo trabalhadas como papeis fixos, elas – as máscaras “Pai Ubu” e “Mãe Ubu” – se movem indistintamente de atuante para atuante revelando-me, assim, a natureza “Ubu” de todos nós. Uma pista importante que talvez nos leve a constatar um dos motivos de tolerarmos passivamente o comportamento inescrupuloso dos agentes públicos do mais alto escalão da república: o jeitinho Ubu de ser brasileiro – na pior acepção Ubu de ser.  
 A dramaturgia que o Imundas nos apresenta segue a mesma perspectiva de apropriação da realidade e não se preocupa com nenhum tipo de velamento dos acontecimentos mostrados. Desse modo, muito apropriadamente eles nos dizem que a “A ração humana é do Doria”. Não se trata de uma paródia de algum governante de uma terra distante, mas sim o prefeito João Doria, citado textualmente para nos lembrar, do modo mais claro e objetivo possível, do controverso programa de alimentação para os pobres, proposto pela prefeitura de São Paulo. O mesmo se dá todas as vezes que a montagem dialoga com outros fatos reais – e não são poucos.
O perigo neste tipo de abordagem é transformar a montagem teatral num panfleto político descarado, repleto de clichês com verniz progressista, mas que se limita a ser a mais rasa propaganda ideológica. Assisti desconfiado aos primeiros dez minutos de imundices e tudo parecia caminhar exatamente para este lugar. As atuações, embora fundadas na caricatura, reforçavam minha desconfiança, pois pareciam repetir os mesmo clichês de sempre, tendendo pro exagero irresponsável. Cheguei a pensar se tratar de mais uma montagem teatral onde o elenco tenta ser engraçadinho a cada minuto de atuação.
No entanto, passada esta minha primeira impressão, a montagem se impõe de modo vigoroso, pois em nenhum momento me deixa esquecer o seu propósito maior: a crítica desvelada e escrachada ao Brasil que se desmancha num mar de lama e sangue. As atuações escrachadas, na medida em que reproduzem fatos reais do nosso cotidiano político encontram, portanto, sua razão de ser exatamente no escracho. Imediatamente me percebi diante da imundice que nos assola. Como retratar poeticamente tamanha imundice? A montagem responde com simplicidade, conjugando os verbos no presente do indicativo: escrachar, debochar, zombar, troçar, escarnecer, caçoar, achincalhar, ridicularizar... E se há excessos, eles não se encontram nos atuantes, mas, pra nossa tragédia social, nas situações que retratam. Aliás, penso ser importante registrar que os atuantes lidam muito bem com a tentação de fazer piadinhas das situações retratadas. Demonstram, com isso, maturidade e consciência crítica ao não desviar a atenção – a deles e a minha – para a capacidade de improvisar gracejos inconseqüentes. E o mérito aqui merece ser compartilhado com a direção da montagem que nos entrega uma obra com assinatura e objetivo precisos, suplantando ou sabendo lidar muito bem, ao que me parece, com a força dos egos e vaidades inerentes a todo artista.
Destaco, no entanto, minha discordância com a interpretação política que a montagem adota. A adaptação da obra de Jarry nos mostra Pai Ubu e Mãe Ubu na perspectiva que corrobora com a tese do “golpe parlamentar” que levou ao impeachment da presidente Dilma Rousseff. Insisto que esta tese é falaciosa e não passa de uma peça de publicidade barata elaborada pelos marketeiros petistas. Lula, Dilma, José Dirceu, José Genuíno, Aloizio Mercadante e toda a alta cúpula do Partido dos Trabalhadores sempre teve conhecimento do jogo de alto risco que era a aliança com o PMDB, partido conhecido de longa data por sua política de “balcão de negócios”. Sabiam o significado de apertar a mão de Michel Temer, Jader Barbalho, Renan Calheiros, Geddel Vieria Lima, Eduardo Cunha e outras grandes raposas da nação. Aceitaram o jogo sórdido do “toma lá da cá” dos “trezentos picaretas” do Congresso Nacional. Aceitaram colocar o “Michelzinho” como vice-presidente nas eleições de 2010 e 2014. E tudo isso em nome de um projeto político para nação? Não! Em nome de um projeto de poder. Em nome deste projeto de poder desenvolveram, sem nenhum escrúpulo, o jogo sórdido da politicagem nacional. Deitaram-se com os porcos, chafurdaram sem nenhuma cerimônia até o fim da festa. Fizeram o jogo pérfido de um parlamento que pouco ou nada tem haver com os ideias republicanos. Assim, a tese do “golpe parlamentar” é nobre demais e completamente descontextualizada da história e da realidade dessa gente inescrupulosa que, em nome da república, só pensa na manutenção do poder, a qualquer custo.
Tenho dificuldade, portanto, em acompanhar a leitura proposta pela montagem que dialoga com a realidade política do país por este viés que considero equivocado. E embora assuma esta perspectiva que leva a tese do “golpe parlamentar”, ressalto que a montagem não incorre na reprodução das palavras de ordem – “Fora Fora”, por exemplo – tão desgastadas e esvaziadas de sentido e valor. Isso é curioso e animador, pois demonstra novamente maturidade e seriedade ao abordar a grave situação do país.  
Compartilho uma última impressão sobre a montagem: como toda boa bufonaria, a montagem encontra-se afinada para desenvolver seu jogo com as praças e ruas de nossa cidade. A visualidade e vitalidade da encenação, assim como a energia vibrante e a desenvoltura consistente do elenco permitem – se a equipe assim o desejar – uma experiência em teatro de rua. Obviamente que se isso vier a se tornar o desejo do Imundas, será necessário um período de adaptação para as especificidades da linguagem de rua – o jogo com o público na rua exige tempo, energia e desenvoltura diferenciados, pois é necessário saber lidar com as intempéries próprias do local e público presente. Mas o principal elemento a montagem já possui: o caráter de uma ação sociopolítica provocativa, como um genuíno Teatro de Agit-Prop.
É uma satisfação inestimável ver o Imundas estreando nos palcos da cidade no momento da ofensiva ultraconservadora que invade o país. Em tempos de MBL, da Bancada BBB – Boi, Bala e Bíblia – e dos discursos de ódio, o Imundas nos saúda com sua Patafísica mais que irreverente: NECESSÁRIA!     

Evoé Imundas.  

Fica Técnica:
Montagem Teatral:
I(MUNDO) UBU
Grupo Imundas
As Imundas da cena:
Arthur santos, Bernard Freire, Loba Rodrigues, Enoque Paulino,
Evy Loiola, Filipe Marques, Kayo Conká, Ruber Sarmento,
Sandrinha Wellem, Thamires Costa.
Trilha:
Aj Takashi e Jimmy Góes.
Direção:
Marcelo Andrade
Assistente de Direção:
Bruno Rangel.
Fotos:
Kauê Barp, Laércio Esteves.
Teaser:
Paulo Evander.
Apoio:
Fórum Landi, Zecas Coletivo de Teatro,
Dirigível Coletivo de Teatro, Notáveis Clown,

Os Varisteiros, João Ribeiro.