sábado, 25 de novembro de 2017

Terra Seca, Gente Seca. E o Rio... – Por Edson Fernando

Montagem teatral: A Casa do Rio, Grupo Gruta de Teatro.
Autor da crítica: Edson Fernando, Ator diretor e coordenador do projeto TRIBUNA DO CRETINO.

Preamar: Elas já se encontram na casa quando chegamos. Passeiam inquietamente pelos cômodos, como se esperassem por alguém ou por algo muito importante que talvez esteja prestes a acontecer. A mais velha, de cabeça branca, carrega uma gravidade serena no semblante; serenidade de quem soube cultivar o pote de barro que abriga a sabedoria aquosa de uma geração inteira. A do meio, de vestido vermelho, trás nos passos o peso da maturidade atravessado por memórias traumáticas, experiências de rachar o pote da mais resistente argila que se possa imaginar. A mais nova, de tomara que caia, embora ostente a vitalidade e impaciência, próprios da juventude, parece harmonizar em si as energias, angústias e expectativas das outras irmãs; o pote encontra-se de modo iminente sobre sua cabeça e pouco há a se fazer para mudar esta situação. 
A mesa, revestida de tolha de tecido florido, permite-lhes o encontro rotineiro para as trocas. Reúnem-se ali, ao centro da casa-cozinha-sala, acomodadas nos seus banquinhos de madeira crua. A conversa, em tom de solilóquio-solipsista, raramente se reverbera na troca de olhares entre elas. Fitam o infinito a sua frente, mas não com o desejo de repousar os olhos na solidão ou no vazio, e sim com o propósito de me encontrar na outra margem do rio que nos separa. E me encontra sempre, por mais que eu me recuse a permanecer olhando-as de frente. O olhar encantado das irmãs-matintas que são (?), exerce influência sobre mim, enleva a pele, enfeitiça e paralisa o movimento das sombras platônicas que ainda povoam a gruta de ideias constituída culturalmente em minha cabeça. Como flechas enfeitiçadas, suas palavras cortam o ar, atravessam o rio, rompem as paredes – a quarta, sobretudo – e conduzem meu olhar para o espelho d’água turvo que nos separa-cerca.       
A natureza tem seus truques e quis ela que nosso espelho d’água fosse feito por águas barrentas, cujo reflexo não revelasse de modo imediato e límpido nossa imagem refletida. Talvez uma precaução contra o possível narcisismo que poderia se desenvolver por estas paragens. Então, olho, mas não me vejo no rio, não me reconheço imediatamente neste espelho mágico capaz de revelar uma porção significativa do que sou ou do que me tornei. “– Preciso me umedecer nestas águas barrentas” é a conclusão mais dura que as três habitantes da casa me fazem perceber. Tornei-me uma pessoa seca, numa terra, paradoxalmente, seca. É pelo olhar e pelas palavras encantadas das três pajés (?) que percebo, então, esse ardil estabelecido neste lugar de abundante água, com gente de natureza seca, como eu.
E, no entanto, não basta chegar a esta constatação. Elas desejam mais. Como se quisessem me fazer enxergar com outros olhos, colocar em ebulição a água que existe em mim. O aprendizado, então, vem sob forma de mnemósines. A janela-portal, ao fundo, permite o miraculoso lapso espaço-temporal para que elas revivam suas reminiscências de família. E no ato extraordinário de furtar o tempo presente para me fazer aprender com o passado – seja com a brincadeira de transformar a toalha de mesa em boi bumba, seja com as rezas e benzedeiras pra curar cobreiro – sou levado à gruta – não platônica – de minhas pequenas lembranças.      
Vazante: Tal como a casa do rio das irmãs-curandeiras (?), nosso assoalho era de tábuas, com abundantes e generosas frestas que permitiam ver o alagado que corria por baixo. A vila no bairro do Jurunas, de minha infância na década de 80, era completamente tomada por este cenário: casas de madeira construídas por sobre o igapó nas proximidades do rio Guamá. Era divertido deitar de barriga pra baixo e espiar, pelas frestas, as coisas que navegavam por baixo da casa: cabeças de boneca, sacos plásticos, tufos de mato, pedaços de paus, latas de óleo, leite ninho... A água, que por ali passava, brincava de se aproximar e se afastar do assoalho. Havia dias em que a água estava tomada pela lama escura e não dava pra identificar os objetos. Então, eu e meu irmão mais novo, amarrávamos um imã num pedaço de fio, enfiávamos por entre as gretas das tábuas e disputávamos pra ver quem pescava mais moedas de cruzeiro. Às vezes a pesca era tão boa que até dava pra interar e comprar dois chopes de ki-suco de uva. Mas na maioria das vezes valia mesmo só pela expectativa de pescar algo inusitado naquele rio que passava debaixo de casa.
Tal como acontece na casa do rio das irmãs-assombrações (?), era comum faltar luz em casa. Eu e meus irmãos reagíamos imediatamente com medo e apreensão das coisas que poderiam acontecer no escuro; meus pais, por sua vez, ficavam indignados com a situação e temiam mais os vivos do que as assombrações. Corríamos pra procurar os tocos de vela que ficavam guardados, segundo meu pai, “em cima do petisqueiro”. Três eram acesas, no máximo, e ficavam afixadas em cima da lata de leite, e dos potes de arroz e feijão. Quando meus pais se distraiam, brincávamos de passar o dedo na chama da vela; me sentia o super-homem fazendo isso sem queimar o dedo. Depois vinham as brincadeiras de criar sombras animadas que se formavam na parede. Invariavelmente isso acabava levando as histórias de assombrações que íamos criando na hora. Quando a luz voltava era possível ouvir os gritos de comemoração da vizinhança inteira – coisas do tipo: gol da seleção brasileira numa copa do mundo. Mas ainda aproveitamos uma última brincadeira com as velas que ainda estavam acesas: reuníamos ao seu redor, catávamos o “parabéns pra você” e, juntos, assoprávamos as velas. Era demais.
Tal como acontece na casa do rio, eu vivia bichado com males que nenhum médico conseguia diagnosticar. Meu principal problema, segundo atestava a sabedoria milenar de dona Guita, era “peito aberto”. Eu ficava tomado por uma dificuldade de realizar uma respiração profunda, me cansava muito facilmente perdendo o fôlego para realizar pequenas peraltices de moleque, como brincar de pira mãe ou de bandeirinha. Mamãe me tomava pelas mãos e me levava à humilde casa de madeira, de apenas dois cômodos e de telhado de palha, da prestigiada curandeira. Por vezes, aguardávamos na sala enquanto ela realizava suas rezas em outros pacientes. Isso me deixava muito tenso, pois era possível escutar as ladainhas que ela entoava no cômodo ao lado, pois a divisória era simplesmente uma cortina de tecido florido. Chegada minha vez eu tirava a camisa, deitava de peito pra cima e recebia as rezas de dona Guita. Enquanto rezava, ela levava seu polegar direito contra o meu corpo e ia fazendo o sinal da cruz, principalmente no meu peito – isso me dava uma agonia atroz e até hoje sofro quando alguém tenta tocar no meu plexo solar. Em seguida, ela depositava uma moeda de cruzeiro no centro do meu peito, acendia um toco vela e a colocava sobre a moeda; cantava alguma coisa, elevava seus olhos pro céu e tapava a vela com um copo de vidro. Eu apertava a mão da mamãe e fechava os olhos morrendo de medo. Quando a chama da vela se apagava, dona Guita colocava um pedaço de emplasto sabiá no centro do meu peito e fazia as mesmas recomendações de sempre: “– Ele não pode correr e nem fazer esforço até o emplasto se descolar completamente do corpo”. Então, eu amargava algumas semanas de tédio sem poder brincar de verdade, como todo moleque do Jurunas.       
Tal como acontece na casa do rio, chovia bastante dentro e fora da minha casa, nos meus tempos de garoto. Os pingos de chuva castigavam as telhas de barro do nosso telhado, principalmente em nosso período mais chuvoso. A casa não possuía forro e os respingos da chuva forçavam mamãe a insistir para ficarmos debaixo das sombrinhas, mesmo dentro de casa. Outro refugio era debaixo do beliche que transformávamos em cabanhinha, usando os lençóis como paredes. Dormir ouvindo o barulho da chuva no telhado, sem dúvida, tornava o sono mais gostoso. Menos pros meus pais que conseguiam enxergar a ameaça que as chuvas traziam: as águas subiam e invadiam o assoalho, indo por vezes bater bem próximo dos colchões da cama. Geladeira e fogão ficavam suspensos em pés improvisados de tijolos. A rua se transformava num verdadeiro rio, se reencontrava com sua ancestralidade. O que me cabia fazer era aproveitar para brincar com barquinhos de papel. Os moleques da rua tinham brincadeiras bem menos inocentes: pescavam mussum para decepar suas cabeças com terçados, pelo simples prazer de vê-los se debaterem em espasmos até a morte. Aquela situação de “alagamento”, no entanto, não era vista por meus pais e vizinhos, pelo olhar inocente (?) e lúdico de uma criança. As águas eram vistas como um tormento que precisava ser superado. A vila começou a ser aterrada. Dezenas de carradas de aterro foram usadas para elevar o nível da vila ao da pista. Começou uma corrida entre os vizinhos para aterrar, o mais rápido possível, o terreno debaixo de suas casas, pois ao elevar o nível do chão da vila as águas, inevitavelmente, escorriam pra baixo delas. Nossa casa foi uma das últimas a conseguir erradicar esse problema por completo, levando aproximadamente uma década – e quase uma dezena de carradas de aterro – para conseguir expulsar todo aquele rio que nos cercava. Por fim, tornei-me um ser que lutou desesperadamente contra as águas. Queria o terreno seco. Desejei a terra seca, o piso de concreto com lajotas, as paredes de tijolo rebocado substituindo a madeira encharcada das tábuas podres que precisam ser substituídas com bastante freqüência. Passei a sonhar com uma laje que me protegesse dos respingos da chuva. Queria, a qualquer custo, alcançar o sonho de consumo de todo Jurunense àquela altura, isto é, queria tirar o pé da água. E isso pode ter custado muito caro pra um povo que não se deu conta de lutar contra sua própria natureza.
O Barco: A casa do rio, montagem teatral que comemora os cinqüenta anos do Grupo Gruta de Teatro, proporciona um aprendizado estético-poético inestimável para uma cidade como Belém do Pará, acostumada a dar as costas para o rio e a culpar a chuva por suas mazelas sociais. Como um barco navegando por nossa ancestralidade liquida, a montagem nos provoca a olhar para as águas turvas do rio Guamá e reconhecer nelas, o espelho genuíno capaz de nos mostrar sem véus. No entanto, não é um exercício simples de se fazer, pois requer um ajuste de percepção que, talvez, somente a arte tenha capacidade de proporcionar. Um dos problemas a enfrentar é saber o quanto nossa percepção já foi assoreada, vindo a repousar nossas expectativas no porto seguro e não no fluxo continuo do rio.
Talvez exatamente por isso, a montagem se estabeleça, no meu entendimento, por meio de uma encenação sensivelmente icônica que opta, com voracidade, por uma atuação predominantemente épica. A dramaturgia – também icônica – somada à atuação épica das três atrizes – Astrea Lucena, Monalisa da Paz e Waléria Costa, que faço questão de citar os nomes por reconhecer que suas trajetórias artísticas têm muito a ensinar aos que estão dispostos a fazer teatro em nossa cidade; ensinamento estético, poético, político e, sobretudo, ético – gera um potente amalgama criativo que não permite a contemplação incólume do público. Quem fala com olhar estarrecedor e nos confronta na platéia não é a personagem de uma fábula fechada, tão pouco a atuante que pretende nos provocar o efeito D, e nem a própria pessoa das atuantes. O que se apresenta aos nossos olhos são três entidades de realidade fantástica que agregam em si a potência e características mencionadas acima. Apresentam-se, portanto, a meu ver, como seres capazes de nos inquirir na atmosfera civil – sem que sua fala se confunda com um panfleto ideológico – mas também na atmosfera estética – sem se tornar entretenimento ingênuo e casual e nem incorrer em clichês popularescos ou folclóricos.
Seguinte esta perspectiva, considero, no mínimo, instigante a trama na qual as três entidades se encontram enredadas. Há entre elas a inexorável responsabilidade da transmissão dos valores do seu tempo e lugar – o pote de barro que abriga toda sabedoria de uma geração. Fiquei instigado a pensar estas entidades – a mais velha, de cabeça branca, a do meio, de vestido vermelho e a mais nova, de tomara que caia – como ícones das três últimas gerações de fazedores de teatro na cidade. Com qual delas o Gruta se identifica? Com qual delas eu me identifico? Com qual delas tantos outros grupos importantes da cidade – Grupo Cuíra, Cia Atores Contemporâneos, Grupo Palha, Cia dos Notáveis Clowns, In Bust Teatro com Bonecos, Palhaços Trovadores, Grupo Usina, Teatro de Apartamento, Grupo de Teatro Encenação Cultural do Pará, Cia Teatral Nós Outros, Trupe Nós Os Pernaltas, pra citar apenas alguns – se identificam?  
Sinceramente não sei responder estas perguntas, mas sei o quanto é importante saber quem carrega atualmente o pote, se preserva a sabedoria de luta e resistência erguida na cidade nas últimas décadas (sete pelo menos), se recolhe novos aprendizados e a quem pretende repassar a guarda futuramente. A água preciosa chamada Teatro que nele carregamos, precisa ser preservada e repassada as novas gerações. Qualquer ação que negligencie este aspecto joga com o risco de não umedecer as futuras gerações do teatro em Belém.
Preciso me umedecer pro teatro e pra vida e a montagem teatral do Gruta me arremessa esta verdade na cara, sem nenhuma cerimônia. Olho para a mais velha, de cabeça branca, e encontro nela o elemento provocador que me faz querer ser cada vez mais como ela: íntegra e intensa nas suas experiências, grave e serena com as palavras no palco e na própria vida. Ela me transmite a ideia de que é preciso se umedecer para bem envelhecer. Infelizmente nem todos envelhecem como o José Celso Martinez – com vitalidade pra luta, energia anárquica e capacidade antropofágica auto-regenerativa. Alguns envelhecem como o Luis Inácio Lula da Silva – se adaptando as condições nefastas, preterindo as convicções ideológicas e apertando a mão dos algozes de outrora.  
Contra todas as ameaças que pairam no horizonte, precisamos nos umedecer. Umedecer, a terra, o palco e a vida.  

25 de novembro de 2017.

Ficha Técnica
Montagem teatral:
A Casa do Rio
Grupo Gruta de Teatro
Texto:
Adriano Barroso
Direção:
Henrique da Paz
Elenco:
Astréa Lucena, Monalisa da Paz e Waléria Costa
Cenário:
Boris Knez e Aldo Paz
Figurino:
Jeferson Cecim
Maquiagem:
Mariana Paz Barroso
Cabelos:
Germana Chalu
Iluminação:
Sonia Lopes
Assistente de iluminação:
John Rente.
Produção:
Belle Paiva Tati Brito

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Mais flores, por favor! – Por Edson Fernando

Montagem Teatral: Falando sobre flores
Autor da crítica: Ator e Diretor Teatral; Coordenador do Projeto TRIBUNA DO CRETINO.
Considerações em terceira pessoa
Montagens teatrais que assumem como tarefa abordar questões de caráter histórico são extremamente relevantes. Sabemos que o Teatro não precisa estar a serviço de nada para validar seu discurso e/ou linguagem, mas quando consegue estabelecer relações profícuas com outras áreas de conhecimento, torna sua existência ainda mais interessante. Os artistas que tomam esta tarefa pra si, no entanto, precisam garantir o equilíbrio e harmonia dos elementos incomuns ao jogo estético, para que eles não se transformem em ruídos estrondosos capazes de comprometer a natureza específica da própria obra artística. Quando isto ocorre, invariavelmente, as chances do Teatro se tornar uma ferramenta ou um panfleto a serviço de algo, aumentam exponencialmente.   
A montagem teatral “Falando sobre flores” assume esta tarefa ao eleger como eixo central de sua dramaturgia e encenação o período da ditadura militar brasileira, ocorrido de 1964 a 1985. São dois atuantes em cena, Demi Araujo e Renan Coelho, nos confrontando diretamente com as personas de um militar e de um membro do movimento da resistência política armada, respectivamente. A partir destes personagens antagônicos a montagem tenta zelar, precariamente, por uma abordagem que nos possibilite avaliar os pontos positivos e negativos deste período da história brasileira. A tentativa é “precária”, pois opta nos mostrar o confronto a partir da uma cela do DOPS – Departamento de Ordem Política e Social –, transformando rápida e decisivamente os antagonistas em torturador e torturado, respectivamente. E ao fazê-lo, induz nosso olhar para uma empatia com este último, pois o apresenta numa situação de co-relação de forças desigual, em condições miseráveis e exposto a atos humilhantes. Difícil julgar imparcialmente neste contexto.   
A montagem se estrutura, então, a partir de quadros realistas que revelam o modo de tratamento destinado aos presos políticos do “regime”. Os quadros são intercalados por depoimentos de ambos os personagens (?) que chocam seus “pontos de vista” sobre a conjuntura nacional naquele período traçando ainda, em alguns momentos, relação com o atual quadro político do país. Os depoimentos intercalando os quadros realistas permitem inferir o desejo da montagem em equacionar, de modo imparcial, dados históricos para que o espectador tire sua própria conclusão sobre o período do governo militar. Tal procedimento, no entanto, se vê comprometido exatamente pela força dramática dos quadros, pois eles, como dito anteriormente, induzem à empatia com a parte mais frágil do embate, isto é, com o torturado.    
Não fica claro também se os depoimentos intercalando os quadros são proferidos pelos atuantes – Demi e Renan – ou pelos personagens – torturador e torturado. Esta dúvida fragiliza, sobretudo, a defesa dos argumentos pró “regime militar”, pois soa falso o discurso exaltando avanços e conquistas na área da economia, saúde e educação. Assim, mais uma vez, a balança pende a favor de um posicionamento político que nos induz a reprovação da ditadura militar. Tomar partido sobre a questão não é o problema – é importante não esquecer que a imparcialidade científica, política ou filosófica é um mito –, mas isso depõe contra a montagem na medida em que a mesma deseja que o próprio espectador julgue e tire sua conclusão sobre o tema.        
Considerações em primeira pessoa
Os quadros realistas que a montagem apresenta, embora mantenham certo grau de fidelidade com os fatos históricos – e aqui se encontra um grande mérito da montagem – , não me comovem, atravessam ou me provocam a pensar sopre o tema por um lugar novo. A sensação de “mais, do mesmo” se impõe à medida que os quadros são apresentados. Talvez falte ousadia ao abordar o tema – a falta de ousadia, aliás, parece se impor a todos os setores da sociedade que seguem em estado de letargia profunda. Talvez a conjuntura do país seja tão absurdamente dramática e nefasta a ponto de arrefecer minha recepção desta obra. Ou talvez ainda eu, simplesmente, esteja projetando meus anseios e inquietações na montagem. O que posso afirmar com convicção é a minha sensação crescente de que estamos tomados por um torpor indolente que parece se alojar nas diversas e variadas tentativas de atos de resistência, de rebeldia, de insubordinação, de desobediência civil, de insurreição, de motim, de levante, de revolta, de desordem, de revolução... Tenho acreditado, cada vez mais, que estes estados ou atos de resistência devem ser testados, despudoradamente, em nossos pequenos atos cotidianos, em nossos modos de existência, em nossa arte, em nossa escrita, em nossos amores e dores. Nada pode escapar a tentativa de encontrar novamente o princípio gerador do “caos criativo”, princípio que irá embaralhar as cartas marcadas deste jogo espúrio que se tornou viver no Brasil de 2017.  
E assim, em meio ao turbilhão de incoerências que atravessamos no país, “Falando sobre flores” embora se constitua, na minha percepção, com o “mais, do mesmo”, os quadros da montagem me permitem estabelecer paralelos que se cruzam na insólita, mas não remota, possibilidade da ascensão de um novo regime ditatorial no Brasil. Neste contexto e sem me preocupar com a acusação de auto plágio apresento, portanto, a seguir, um texto que postei recentemente no Facebook, no qual reflito sobre o fantasma da intervenção militar que nos ronda novamente. É importante não esquecer que se trata de paralelos que cruzam: a montagem teatral “Falando sobre flores”, o texto intitulado “Fumaça, muita Fumaça!!!”. Deixo a cargo de leitor/espectador a tarefa de cruzá-los do modo que julgar conveniente, ou mesmo sequer cruzá-los. Desobediência é o mote.        
Fumaça, muita fumaça!!!
“Intervenção Militar Já” é o que se lê na faixa de um pequeno grupo de manifestantes que protestam ao som de “hinos patrióticos”, no ultimo domingo (22.10), na rua da Paz – ao lado do Teatro da Paz. Esta manifestação não me causou nenhum assombro. São pessoas alinhadas ao pensamento do que podemos chamar de “extrema direita”, dentro do confuso cenário político brasileiro. Na minha percepção, a manifestação arregimenta lentamente alguns simpatizantes, mas ainda recebeu a esmagadora indiferença dos que circulavam pela Praça da República. Embora não a considere inofensiva – seria muita ingenuidade de minha parte – ela não é o que me assombra e inquieta na conjuntura nacional. O que me assombra é o silêncio e apatia dos demais setores da sociedade civil diante do vilipendiamento da nação.
Não há em curso no país nenhuma reação enérgica de algum setor da sociedade civil que consiga dialogar e mobilizar os cidadãos de modo direto e simples, canalizando o sentimento de revolta e indignação, presentes na população, diante do escândalo que se transformou o nosso regime de democracia representativa alicerçada nos três poderes – executivo, legislativo e judiciário. Não conseguimos construir uma via de mobilização nacional que lute pela reconstituição do regime – uma nova Constituinte, por exemplo, formada somente por membros da sociedade civil sem vinculação com as instituições partidárias vigentes.
Ao invés disso, “grupos de poder” lutam entre si tentando extrair da miserável e degradante situação, capital político para se manter ou retornar ao poder. Se cristaliza, com o passar do tempo, o enredo nefasto que mais uma vez tentará nos vender a retórica simplista de que contra o inimigo “nazi-facista”, encarnado pela figura do deputado Jair Bolsonaro, devemos votar no “menos pior”. Nesta perspectiva se equivalem a “direita” e a “esquerda” – uso as convenções partidárias estabelecidas, sabendo que não há muita diferença no projeto de poder de ambas – e tanto faz os candidatos que despontam como adversários capazes de enfrentar e vencer Bolsonaro. Tanto faz o Dória, Ciro Gomes, Marina ou o Lula. Todos estão enredados no vil jogo de poder plutocrata que se transformou o regime democrático brasileiro.
Desse modo, na estratégia de alto risco que vem se delineando para a disputa presidencial de 2018, Bolsonaro é o adversário ideal para “direita” e “esquerda”, pois sua personalidade tragi-bulfônica constrói uma cortina de fumaça capaz de obnubilar a percepção política, arrefecendo a consciência crítica para personalidades tão ou mais controversas politicamente, tais como o atual prefeito de São Paulo, João Doria ou o ex-presidente Lula, dentre outros. O que esperar deste último, por exemplo, quando vemos na sua trajetória política fatos no mínimo inusitados como acordos políticos selados, sem nenhum pudor ideológico, com personalidades marcadamente cínicas e corruptas como Paulo Maluf, José Sarney, Jader Barbalho, Michel Temer... Luis Inácio Lula da Silva representa muito bem a escória da classe política brasileira e não tenho dúvidas que ele apertará a mão do próprio Jair Bolsonaro se julgar conveniente para seus planos políticos. E, no entanto, tentam nos fazer acreditar que há mocinhos e vilões. Votando, então, no “menos pior”, dentre aqueles, querem nos fazer acreditar que as instituições seguem em pleno funcionamento, ilibadas, autônomas, soberanas e defensoras dos direitos dos reles mortais.
Como se assombrar com um punhado de fanáticos fazendo apologia a intervenção militar quando temos uma nação inteira incapaz de exorcizar os fantasmas, espantalhos e arremedos de um regime que se diz democrático? A democracia brasileira sangra há décadas e os que fazem parte do seleto circulo do poder desejam que assim permaneça, por um motivo simples: são vampiros sedentos da nossa jugular. A retórica publicitária do golpe contra a ex-presidente Dilma só ajudou a segregar ainda mais os fronts de resistência contra os posicionamentos ultraconservadores, posto que colocou em lados diferentes “petralhas” e “coxinhas” que seguem, estupidamente, trocando farpas entre si, quando em verdade não se distinguem no projeto de poder que colocaram em prática.
E enquanto não conseguirmos ultrapassar a cortina de fumaça fúnebre acessa a partir dos escombros da democracia brasileira, Bolsonaro e os fanáticos que clamam por intervenção militar, na minha percepção, apenas adicionam o combustível de alta periculosidade no cenário de guerra que já vivemos há muito tempo.
Mais flores...
Quem julga as flores por sua aparente doçura e candura se esquece do perfume do Louro-da-Montanha, da Tasneirinha, do Veratrum, da Cerbera Odollam, da Sanguinaria Canadesis, da Adenium Obesum e da Oenanthe Crocata. Exorto todas estas flores oferecendo-as aos que insistem em se manter inertes. Mais flores, por favor.
 02 de Novembro de 2017.

Montagem teatral:
Falando Sobre Flores
Direção:
Karine Jansen
Dramaturgia:
Renan Coelho
Atores:
Demi Araújo e Renan Coelho
Iluminação:
Luciana Porto
Sonoplastia:
Jairo dos Anjos
Aderecista:

João Calado

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Terra, fogo, água e ar – Por Leonel Ferreira.

Pachiculimba
Criação: Usina
Autoria da crítica: Leonel Ferreira. Ator, Diretor e Educador

Já acompanho o Usina desde o final da década de 1980 quando na Praça da República apresentavam o espetáculo “Farsas Medievais”.  Assisti quase todos os espetáculos produzidos pelo grupo, tanto os de salas convencionais como os de rua e porão. O Usina em mais de seus 20 anos de fazer teatral tem na pesquisa, na experimentação cênica e no discurso político uma das suas marcas mais potentes. 
Alberto Silva Neto assina as direções dos espetáculos “Tambor de Água”, “Paresquei”, “Eutanázio e o princípio do mundo e “Solos de Marajó” onde se percebe o exercício da construção de uma dramaturgia centrada no homem amazônico, em suas memórias e costumes. Em “Solos de Marajó” surge a parceria com Claudio Barros, ator oriundo dos grupos Experiência e Cuíra. Falo parceria porque somente quem já dirigiu um monólogo talvez compreenda a dimensão desta palavra, é um exercício de extrema generosidade. Assim deveria ser as relações entre as pessoas em todas as esferas, mas...
Ainda bem que existe o fazer teatral de algumas pessoas que generosamente abrem sua morada, sala, quintal para compartilhar os seus tesouros. “Pachiculimba”, último trabalho apresentado pelo Usina, repete a parceria entre Alberto Silva Neto e Claudio Barros no que chamo de exercício pleno dos sentidos e da magnitude do saber tradicional do homem ligado a terra e aos seus mistérios. Não se trata de um espetáculo, não há release a respeito do que se vai assistir, não há um teatro, praça, porão como já se viu em montagens anteriores do grupo, mas sim o quintal da agradável casa de Alberto Silva Neto, na Ilha de Mosqueiro, na praia do Paraíso. Ali a natureza impera e mesmo com todo o larelare de quem vai chegando na casa de um amigo, logo o ambiente fala mais alto, os passarinhos, como que ensaiados para aquele evento dão o tom do lugar. Ali é um lugar raro, que já foi comum, mas hoje é santuário.
O quintal com suas árvores e plantas, o céu num azul esplêndido de outubro amazônico, os pássaros (mais uma vez), o som do vento compõem o cenário daquele ambiente. Não precisa de mais nada, de nenhum efeito ou truque cenográfico. Nada é mais perfeito que a natureza e rente a terra em bancos e esteiras o público se acomoda para assistir a performance de Claudio Barros. Mas que personagem é ele? Uma entidade espiritual? Um monge? Um xamã? Não interessa! O que o importa é o sentido das suas palavras ditas de maneira gutural e pausadamente. Ele traz um carrinho de mão com tapetes coloridos feitos em tricô. Há também um terçado e um vaso com uma planta num vaso. Descalço ele pisa o chão de barro daquele quintal. Há um peso em cada frase dita por ele, mas também há beleza e suavidade... Claudio Melo, faz uma delicada participação produzindo efeitos sonoros e percussivos que dialogam com a encenação.
Num determinado momento o que se houve é apenas os sons do lugar e Claudio Barros reage aos sons de passarinhos, cães, cigarras numa dança pessoal que não irá se repetir no dia seguinte. As cigarras cantam e anunciam o fim de mais um dia e início de mais uma noite. O sol vai se pondo e o breu vai tomando conta do quintal. Então uma fogueira é acesa por Claudio Barros e fazendo uso de uma linguagem inventada ou dialeto indígena, não importa, o que se vê é um homem lamentando, chorando a perda de algo que fica na imaginação de quem assiste seu drama. Por quem chora o pobre homem? A vontade que dá e de levantar do assento e acolher num abraço seu corpo miúdo. Num instante tudo se transforma em fúria, Claudio Barros, agora um xamã (?), bate o terçado contra o carro de mão e o choque entre os metais sublinham a força daquele momento. Não há alegria na dor, não há beleza na perda. Me lembrei de Tuira Kayapó com seu terçado que lambeu a cara do presidente da Eletronorte para impedir a construção da usina de Belo Monte em 1989... Os fatos se repetem, o drama se repete e vai se perpetuando diante da indiferença... A escuridão da noite reforça a mensagem.
Entre o arvoredo e no breu da noite, diante de uma luz fraca de um lampião, o Xamã nos fala de um apocalipse e dos fim dos tempos na visão cosmogônica do velho índio. A fala é um trecho do livro A QUEDA DO CÉU, de Davi Kopenawa e Bruce Albert.

O valor de nossa floresta é muito alto e muito pesado. Todas as mercadorias dos brancos jamais serão suficientes em troca de todas as suas árvores, frutos, animais e peixes. [...] Tudo o que cresce e se desloca na floresta ou sob suas águas e também todos os xapiri e os humanos têm um valor importante demais para todas as mercadorias e o dinheiro dos brancos. Nada é forte o bastante para poder restituir o valor da floresta doente. Nenhuma mercadoria poderá comprar todos os Yanomami devorados pelas fumaças de epidemia. Nenhum dinheiro poderá devolver aos espíritos o valor de seus mortos (355)[1].

        Ao público é servido um caldo de peixe em cuias com gravuras indígenas e por fim o Xamã se recolhe. De onde estou ouço apenas o som da água caindo e se espalhando pelo quintal.

Pachiculimba
Grupo Usina
Local
Ilha de Mosqueiro – Praia do Paraíso
Com Claudio Barros e Claudio Melo
Direção
Alberto Silva Neto
Sonoridades
Claudio Melo
Visualidades
Claudio Rego de Miranda
Corporeidades
Valéria Andrade






[1] Marina Pereira Novo. Revista de Antropologia da UFSCar. Jul./dez.2016:167-170

sábado, 14 de outubro de 2017

Do exercício distanciado – Por Dani Franco

Afrânio – Um Solo em Decomposição
Montagem: GITA – Grupo de Investigação do Treinamento Psicofísico do Atuante.
Autora da Crítica: Dani Franco – Jornalista Cultural, pós-graduanda em Gestão e Políticas Públicas pela Cátedra de Políticas e Cooperação da Universidade de Girona, Espanha, via Instituto Itaú Cultural.

Atores em solo. Minha espinha dá uma leve tremida de nervoso sempre que leio isso, e assim já têm alguns anos que tenho evitado ser espectadora desses pretensos espetáculos, um erro pautado mais na impaciência do que na preguiça, mas que, sem que eu me dê conta, estou levemente corrigindo.
O nariz de cera acima é pra dizer não apenas que voltei a ser público de teatro, mas também que minha percepção a respeito dos espetáculos continua crítica. Há coisas boas sendo montadas em Belém, mas a maioria ainda é bem mediana, pra não dizer ruim. Tenho visto uma necessidade de colocar corpos na rua e ecoar gritos de gueto indiretamente proporcionais às técnicas de atuação e inteligência dos textos; quando não, apenas montagens caça-níquel querendo ser televisionáveis (o que de fato não é ruim, pois ainda ajuda a formar público); mas ver um espetáculo bem montado, com o ator sendo de fato um intérprete, continua sendo raro. Por isso, quando me deparo com exercícios teatrais bem executados minha espinha vibra com leve esperança e foi isso o que eu vi no solo “Afrânio: um solo em decomposição”, de Cesário Augusto.
Uma montagem com técnica, presença e segurança como pouco vista, um exercício que na verdade foi uma aula prática de teatro, com o professor saindo do papel de mediador para assumir aquilo que sabe: mostrar como se interpreta. Confesso que o texto em si não trazia nada que de revolucionário ou maravilhoso, mas nós nos acostumamos tanto a chamar qualquer coisa de incrível que não elogiar um papel desses pode parecer coisa de gente (apenas) ranzinza. Mas, não, Afrânio não é incrível, apenas é o que a maioria das montagens não consegue ser: uma boa montagem. Seu pulso forte colocou de volta no palco a voz como recurso técnico, com todas as suas nuances, texturas e curvaturas, trazendo um bálsamo para quem não se acostuma a ouvir atores gritando em qualquer texto, aliando trabalho de corpo e mostrando o que de fato é se colocar em cena.
Tive essa boa surpresa ontem, no primeiro dia da Semana GITA 2017, um trabalho que está se fazendo ver sem alardes e talvez por isso seja tão mais instigante do que muitos. Do pouco que vi ontem, a necessidade de se pensar o teatro e suas formas de atuação ali estão baseadas na teoria posta em prática, condensando o fazer teatral em sublimações de auto-conhecimento e expansão, o que, afinal, é pra isso (também) que a arte (r)existe.
Que mais montagens-aula como essa sejam abertas para o grande público, mas também e – principalmente – que os novos atores do teatro possam ter acesso à verves que possibilitem o auto-questionamento e retornem à arte como força transformadora.
13 de outubro de 2017.

Afrânio: um solo em decomposição
GITA
Grupo de Investigação do Treinamento Psicofísico do Atuante
Criação, Direção e Atuação:
Cesário Augusto
Consultoria de Visualidade:
Aníbal Pacha
Consultoria de Iluminação:
Sônia Lopes


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Pensando alto – Por Edson Fernando

Pachiculimba
Criação: Usina 
Autoria da crítica: Edson Fernando. Ator, Diretor e professor de Teatro. Coordenador do Projeto TRIBUNA DO CRETINO.

Diálogos férteis entre Teatro e Rito ocupam minha atenção há algum tempo. As reflexões que desenvolvo sobre o tema ganharam relevância, particularmente, por ocasião da escrita de minha dissertação de mestrado em 2009/2011, sob o título “Ritual em Artaud: Considerações e reconsiderações por uma poética da crueldade”. Embevecido com o pensamento estrondoso de Nanaqui tomei como objeto de investigação, naqueles anos, o processo poético denominado “Quando a música terminar...”, ocorrido em 2007, portanto, dois anos antes de iniciar a jornada do mestrado. Pretendia compreender, dentre outras coisas, o que havia ocorrido comigo durante os nove meses de vivência naquele processo; compreender se a dimensão da “crueldade”, tal como concebida por Artaud, havia sido alcançada, em que medida e sob quais condições estéticas e éticas seria possível cultivá-la em uma montagem teatral. Teatro como rito, rito como condição para renovação do teatro.   
Um marco importante que estabeleci para desenvolver meus pensamentos desde então, situa Teatro e Rito num lugar fronteiriço de mútuas trocas. Mas transitar por estas fronteiras me exigiu colocar na mochila um kit de sobrevivência acadêmica (livros, revistas, monografias, teses, dissertações, dicionários, glossários, etc.) que me permitisse compreender o rito mais por sua dimensão ética e menos por sua dimensão estética, exatamente a via concebida por Artaud. Esta foi, talvez, a primeira e uma das maiores lições que o Momo me ensinou: um teatro sem ética é o mesmo que um rito sem mito, isto é, um simulacro da realidade.
Passei, então, a inquirir o processo “Quando a música terminar...” tendo como questão norteadora saber se nele havia “teatro ritual” ou “ritualização no teatro”. Esta questão me persegue e inquieta até hoje. E todas as vezes que sou levado a refletir sobre trabalhos que julgo se encontrarem neste lugar de fronteira entre Rito e Teatro, me pego com as mesmas dúvidas e inquietações. Foi assim com “UM”[1], montagem da Companhia Moderno de Dança, dezembro de 2014; “Em busca do meu Xamã[2], instalação-performance de Leandro Haick, maio de 2015; “Da cabeça aos pés[3], montagem do Grupo Experimental de Teatro – GEMTE, dezembro de 2015; “O velório de Dona Pereira[4], instalação performática da In Bust Teatro com Bonecos e Produtores Criativos, novembro de 2016. O mesmo ocorre agora com “Pachiculimba”, cerimônia realizada no quintal de uma casa localizada na praia do Paraíso, na ilha do Mosqueiro. A proposta é resultado das pesquisas de Alberto Silva Neto e Claudio Barros, nova criação do Grupo Usina.
De todos os trabalhos citados apenas em UM, me ative a uma discussão mais conceitual sem, no entanto, pretender chegar a respostas categóricas sobre o assunto. Considero que são pensamentos expressos em voz alta, ou melhor, pensamentos escritos e publicizados que me ajudam a pensar meu próprio fazer poético. Portanto, antes de serem questões voltadas para que os artistas do Usina resolvam em “Pachiculimba”, são minhas inquietações que me perseguem novamente, inquietações que procuro resolver inclusive na atual pesquisa que desenvolvo. Vamos às inquietações.
O aconchego da casa de Alberto Silva Neto é o refugio para a cerimônia Pachiculimba. È o próprio dono da casa quem nos recepciona afetivamente na entrada. Alberto nos apresenta o lugar, faz uma brevíssima contextualização sobre o trabalho que estamos prestes a conferir e orienta para nos dirigirmos até o quintal, local onde se dará a cerimônia.
Friso por três vezes o termo “cerimônia”, pois o considero um termo/conceito caro a todos as pesquisas de fronteira Teatro/Rito. Na verdade é um termo controverso no âmbito da própria antropologia, onde encontramos autores com posicionamentos diametralmente opostos ao abordar os conceitos de “rito” e “cerimônia”. Aldo Natale Terrin, professor de Antropologia e História das religiões, tem sido meu guia para estes assuntos. Seguindo os ensinamentos preciosos que encontrei em sua obra O rito: antropologia e fenomenologia da ritualidade, inferi que ao longo do tempo “rito” e “cerimônia” foram se estabelecendo em campos distintos de ação e compreensão, ladeados por outros termos como ritual, ritualizar, ritualismo e ritualização. Terrin destaca, no entanto, que se fizermos um recuo generoso na história, veremos que “não se conhecia cerimônia que não fosse um rito, e sempre religioso”. (Cf. TERRIN, p. 20). Infiro, então, que o processo de secularização das ações gerou uma distinção problemática entre “rito” e “cerimônia”, levando-nos a crer que todo rito é uma cerimônia, mas nem toda cerimônia seria, a rigor, um rito. 
Tal querela sobre o assunto se mantém aberta entre os estudiosos da área. Não sendo meu interesse desenvolvê-la aqui, destaco apenas que evito usar indistintamente os termos “cerimônia” e “rito” como se fossem sinônimos e, ao mesmo tempo, evito distingui-los pelo caráter secular das ações, pois este modo de concebê-los gera uma visão dicotômica com prejuízo maior para o termo/conceito “cerimônia”. Me parece mais sensato pensá-los – “rito” e “cerimônia” – na perspectiva de Richard Schechner que nos permite compreender as mútuas trocas entre “ritos” (religiosos) e “cerimônias” (seculares) por um processo de derivações e dependências que não privilegiam nenhum dos pólos.
Uma rápida verificação, tomando como exemplo algumas cerimônias seculares, talvez ajude a perceber as derivações e mútuas trocas que a perspectiva de Schechner aponta: cerimônia de formatura, cerimônia de abertura e encerramento dos jogos olímpicos, cerimônia de diplomação de mandato eleitoral, cerimônia de inauguração de um prédio público, cerimônias militares, etc. Em todos estes casos a acepção da palavra “cerimônia” volta-se para ações que são realizadas num determinado tempo e lugar, com ordenamento, classificação e/ou passagem de status, características em comuns ao conceito de rito. E embora, tais cerimônias não proporcionem experiências de ordem mística e/ou mítica – traço fundamental do “rito” – elas oportunizam vivências nas quais valores e virtudes humanas são colocadas em relevo e, portanto, também trabalham numa dimensão ética.
Esta pequena digressão me parece necessária para dizer que minha inquietação não é definir se Pachiculimba é uma cerimônia ou um rito, mas compreender como este trabalho se relaciona com esta fronteira complexa onde os conceitos a todo o momento, parecem escorregar para outros domínios da atividade humana.  E isto porque, segundo Terrin, o “rito” constitui-se como uma “realidade poliédrica”, isto é, uma realidade que estabelece relação teológica, fenomenológica, histórica, religiosa, antropológica, lingüística, psicológica, etológica e biológica. Sendo tão diverso em sua natureza é necessário eleger o lugar de onde parte a abordagem. Minhas abordagens sempre partem do campo fenomenológico, isto é, do ângulo de quem participa/vivencia o acontecimento. É deste lugar que procuro refletir, também, sobre Pachiculimba.
Meu maior desconforto na vivência que Pachiculimba me proporcionou se deu no que considero ser primordial para trabalhos desta natureza: a preparação para testemunhar o acontecimento. Para me dirigir até o local da cerimônia, que ocorre no distrito de Mosqueiro, utilizei o translado de van que o grupo Usina oferece para os convidados. No trajeto que dura cerca de uma hora e meia tudo transcorre cotidianamente: somos onze pessoas no total, a maioria se conhece e desenvolve diálogos descontraídos sobre vários assuntos. O desconforto: sigo descontraidamente e sem nenhuma preparação ou orientação rumo a uma cerimônia que por sua natureza complexa, mencionada anteriormente, irá me solicitar um comportamento não rotineiro e não cotidiano. O deslocar no espaço, portanto, não é acompanhando de um deslocar de comportamento – do cotidiano para o extra-cotidiano.     
 Quando chego, então, ao local da cerimônia encontro-me completamente em estado cotidiano. A tranquilidade, a natureza e o aconchego do lugar não são suficientes para me colocar em sintonia fina com o estado absolutamente alterado que Claudio Barros oferece antes, durante e depois da cerimônia. O contraste é absurdo. O primeiro contato visual que tenho dele – ainda antes do início da cerimônia, onde ele se encontra no corredor lateral da casa – é o suficiente para perceber que seu trabalho funda-se para muito além do que convencionamos chamar de representação teatral: Claudio encontra-se em estado de meditação ativa, em perfeita harmonia com o lugar; ele sente, dialoga e se retroalimenta de tudo a sua volta. Eu, no entanto, ainda em clima de “festinha” e deslumbre com o local, preciso conter o estado de ânimo, pois ainda me sinto envolvido numa atmosfera de descontração e desbunde.    
A condução até o quintal da residência, onde propriamente irá ocorrer à cerimônia, também é feita de modo espontâneo por Alberto. No local há árvores, uma arena sutilmente saliente com terra clara e algumas cadeiras e esteiras de palha ao seu redor. É fim de tarde, por volta das 17:20. Tomo meu assento em uma das esteiras, descalço as sandálias e aguardando o início da cerimônia. A primeira aparição de Claudio Barros +no quintal confirma minha sensação de que ele se encontra conectado em outra dimensão: o universo do xamanismo ameríndio[5] se estabelece em suas ações, atitudes, gestos, narrativas, canções, objetos, instrumentos musicais e indumentárias. Considero que Claudio Barros ata-se irremediavelmente a esfera do rito, definida por Terrin do seguindo modo:             
[...] o rito, fenomenologicamente falando, é uma ação sagrada repetitiva, composta de um drómenon (ação) e de um legómenon (palavra, mito). Nele e na conjunção de palavra e ação se manifesta um agir “holístico” que não é do tipo instrumental e não pretende induzir uma causação normal entre meio e fins. Tal ação ritual procura realizar o legómenon (o mito) por meio da estruturação de um jogo simbólico místico onde vigora uma premissa indiscutível segundo a qual x vale y no contexto ct, isto é, onde alguma coisa está no lugar de outra. (Cf. Terrin, p.27-28, ênfases originais)

Gosto desta citação, pois ela consegue ser objetiva, profunda e didática ao mesmo tempo. Utilizando-a para pensar o trabalho de Pachiculimba, observo que todas as ações (drómenon) desenvolvidas por Cláudio Barros e Cláudio Melo durante a cerimônia só encontram sentido quando dimensionadas, percebidas e executadas em função do universo mítico xamânico ameríndio (legómenon).
Na perspectiva dos atuantes da cerimônia a equação proposta por Terrin me parece absolutamente exeqüível. No entanto, eu na condição de testemunha da mesma, me sinto deslocado, desconfortável e apartado da cerimônia por não ter sido preparado e não receber as chaves de acesso para abrir os canais de percepção adequados para penetrar no contexto ct. Sem estas chaves de acesso, minha vivência voltou-se para a fruição de uma montagem teatral. Passo, então, a acompanhar tudo com o olhar distanciado e contemplativo de um espectador que tem o privilégio de presenciar um trabalho tecnicamente bem executado e dirigido.       
As tentativas de me fazer parte integrante da cerimônia esbarram, no meu caso, na falta de um deslocamento de comportamento: de um comportamento de espectador para um comportamento de partícipe liminar ou liminóide, comportamento alterado que me permita fazer parte da comunidade e do universo mítico do acontecimento. Insisto em lembrar que não se trata de uma preparação inteligível para compreensão do universo dos símbolos xamânicos, mas sim da convocação dos canais sensíveis e sensitivos para alargar minha percepção do fenômeno que se dá naquele tempo e espaço não convencionais.   
E assim como começa sem esta preparação para um contexto de rito, termina, sob o céu estrelado, também sem as ações de despedida. O curioso é que o mesmo não se aplica a Claudio Barros que sai de “cena” para continuar seu estado de plena meditação dirigindo-se e mantendo-se em posição de lótus, no mesmo corredor lateral da casa, local onde havia iniciado a cerimônia. Claudio vivencia um “antes”, um “durante” e um “depois” que lhe potencializa, no meu entender, para uma dimensão holística profunda. Enquanto que eu vivencio apenas o “durante” de um acontecimento que se estrutura, na minha percepção, mais por seus elementos estéticos do que por sua dimensão ética.
Não são certezas, apenas inquietações, desconfortos e angustias que insistem em aparecer todas as vezes que observo o teatro dialogando de modo peremptório com a dimensão do rito. Não busco respostas ou justificativas da equipe envolvida em Pachiculimba, mas sim refletir sobre este lugar de fronteira que tanto me fascina. São “pensamentos altos” de um servo de Dioniso. Evoé.  
11 de Outubro de 2017.      

Referencia:
TERRIN, Aldo Natale. O rito: antropologia e fenomenologia da ritualidade. São Paulo: Paulus, 2004.


Pachiculimba
Grupo Usina
Local:
Praia do Paraíso – Ilha de Mosqueiro
Com Claudio Barros e Claudio Melo
Direção:
Alberto Silva Neto
Sonoridades:
Cláudio Melo
Visualidades:
Claudio Rêgo de Miranda
Corporeidades:
Valéria Andrade




[1] Ver crítica “Confluências de UM lugar entre” publicada da TRIBUNA DO CRETINO: Revista de Crítica em Teatro e Dança, Vol. 01, Nº 01, 2015, pg. 59-62.
[2] Ver crítica “Nu espelho” publicada da TRIBUNA DO CRETINO: Revista de Crítica em Teatro e Dança, Vol. 01, Nº 02, 2015, pg. 26-27.
[3] Ver crítica “Tenso como a batida do tambor. Suave como as brincadeiras de roda. Quem é essa GEMTE-Demônio?” publicada da TRIBUNA DO CRETINO: Revista de Crítica em Teatro e Dança, Vol. 02, Nº 03, 2016, pg. 29-32.
[4] Ver crítica “Sonhos de uma noite com Pereira”, publicada da TRIBUNA DO CRETINO: Revista de Crítica em Teatro e Dança, Vol. 02, Nº 04, 2016, pg. 86-90.
[5] Tenho duvidas se o termo mais adequado seria xamanismo “amazônida” ou “amazônico”. Optei por “ameríndio” por considerar seu lastro mais amplo, mas posso estar absolutamente equivocado.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Um deslocamento para a fronteira – Por Afonso Gallindo

Performance: Pachiculimba.
Montagem: Usina 
Autoria da crítica: Afonso Gallindo, jornalista, publicitário e documentarista; Participante do Minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?”

Um deslocamento para a fronteira.
Esta foi a sensação nítida que percebi na mística não-encenação, e sim partilha, que esta performance me proporcionou.
Desde a chegada, é possível perceber o mergulho de Claudio Barros num universo singularmente energético, como que imerso numa vibração. Mais nem de longe é possível prever o que nos será ofertado. Para início de prosa, o espaço utilizado é no mínimo fantástico. O chão batido ao céu aberto e a interação com os elementos nativos do lugar, possibilita uma integração do ato e a natureza que poucas vezes tive a felicidade de vivenciar.
Acompanho o trajeto do Claudio Barros desde A Terra é azul, que na época já me impressionou muito, mas o que tive a oportunidade de assistir atesta seu amadurecimento e complexo trabalho corporal apresentado.
Seu corpo parece ter vida própria. Ora portando o peso da sabedoria do velho xamã, ora conectado ao espaço e as sonoridades existentes.
Injusto definir um ponto alto apenas na atuação. Mas, pretensiosamente, permito destacar o momento da relação com os sons presentes no entorno e a resposta de seu corpo. Nesse, particularmente, consegui visualizar uma tal “conexão” com a terra. Muitos falam e escrevem sobre o assunto. Já tive inclusive a satisfação de sentir isso. Mas, assistir isso no outro, fisicamente, confesso ter sido a primeira vez. 
Outro momento que muito me chamou a atenção foi quando estabelecia relação com as árvores do entorno da cena. As palavras pronunciadas, entendo oriundas de línguas também brasileiras, carregavam da emoção o lugar no lamento e no corpo dele e me remeteram a processos praticados ao retorno de guerreiros em algumas etnias brasileiras, onde um membro do grupo é escolhido para expressar toda a saudade e dor pelo longo distanciamento em busca da caça.
Com o passar do tempo, o sol se esconde no horizonte e o cenário natural muda. E também a área por nós visitada, onde fomos silenciosamente direcionados. Oculto na copa de uma pequena árvore, parte viva da cena, uma voz densa narra o momento da queda do céu. Me percebi, então estar cercado pela noite. Apenas uma fogueira ilumina a cena, onde dessa vez somente a voz do ator se faz fortemente presente. Pequenos pontos de luz, oriundos dos lampiões colocados por ele no momento anterior, remetem a estrelas de um pequeno sistema, onde a chama da fogueira parece reproduzir uma luz central. Neste momento ouve-se sobre um outro céu, de um outro tempo, e por um instante consegui visualizar esta outra possibilidade, que nascia da voz representante do xamã, forte e sábio, que nos indicava a necessária reflexão sobre o chão e o céu que vivemos.
A integração neste processo chega a um tal nível de cumplicidade, que torna-se difícil identificar onde inicia o trabalho de direção ou encontra-se somente o trabalho dos atores em cena.   
Estas poucas linhas infelizmente, bem sei, não terão o poder de transcrever a experiência vivida por mim durante a performance. Digo vivida por se tratar de um processo também sensorial e convida a visitar um lugar, o universo cultural que também é nosso e que, infelizmente, fazemos questão de ignorar.
8 de outubro de 2017

Pachiculimba
Grupo Usina
Local:
Praia do Paraíso – Ilha de Mosqueiro
Com Claudio Barros e Claudio Melo
Direção:
Alberto Silva Neto
Sonoridades:
Cláudio Melo
Visualidades:
Claudio Rêgo de Miranda
Corporeidades:

Valéria Andrade