terça-feira, 4 de abril de 2017

O amor incomum – Por Maria Christina

Montagem teatral: Marahu
Montagem: Cia de Teatro Madalenas.
Autora da crítica: Maria Christina. Produtora; Jornalista Cultural; Participante do Minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?”

O espetáculo Marahu homenageia o poeta paraense Max Martins, falecido em 2009, operando vários elementos concomitantemente, ultrapassando o modus operandi do teatro mais tradicional quando adiciona efeitos especiais, como o fazer contemporâneo da arte em geral. Embora sua constituição seja artesanal, refina-se o discurso linkando-o a outra expressão artística e utiliza recursos high tech sem, naturalmente, comprometer o conteúdo e a ação, mantendo a visceralidade, sem a qual não se pode falar do poeta.
Impossível não fazer, em determinado momento de muita suavidade, uma analogia com o filme O Livro de Cabeceira, de Peter Greenaway (1996), no qual em alguns trechos o corpo feminino assume outros contornos, como a sugerir um território a ser tocado e explorado pelas palavras, como um receptáculo de imagens e desejos, meio brincando também com o caderno de artista de Max, o qual imprimia ali, em palavras, desenhos e colagens, sua inspiração, suas projeções.
Os haicais no fundo do palco, e a atriz interpondo-se como a usurpar daquela tela a primazia de tê-los gravados no corpo, é um dos momentos mais híbridos do espetáculo, que avança sempre declinando da atuação clássica e assume como que a performance artística, dialogando com a imagem projetada, dançando ao som de entremeio para uma voz que mesmo estando, não está mais ali.
O corpo mexe e se contorce, as palavras sobem e descem em movimentos de onda pelas curvas dos braços e pernas, caminham sobre o intruso permitindo-se um dueto, repetindo sob nova roupagem o que desde o início a peça nos sugere,  transportando-nos todos a uma nesga de praia sob a luz prata que invade as janelas de uma cabana, testemunha de um amor incomum do poeta por aquela natureza.
Nada é ao acaso. Tudo o que está ali é matéria prima a tecer loas ao homenageado, e cada ato e fração de luz leva-nos a Max, que mesmo observando-nos com os olhos levemente apertados, levanta-se, pega o cajado de madeira e some no horizonte que se funde na areia.
Inverno de 2017

FICHA TÉCNICA:
Montagem:
Cia de Teatro Madalenas
Elenco:
Flavio Furtado, Leonel Ferreira e Marta Ferreira.
Iluminação:
Thiago Ferradaes.
Direção e Edição de Vídeos:
Carol Abreu.
Direção Musical:
Diego Vattos.
Dramaturgia:
Saulo Sisnando.
Coordenação Geral:
Leonel Ferreira.
Realização:
Cia de Teatro Madalenas.
Registros:

Naldo Silva.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Anônima – Por Diego Maia da Costa

Montagem teatral: PopPorn – Sete vidas e infinitas possibilidades de corações partidos.
Montagem: Teatro de Apartamento.
Autora da crítica: Diego Maia da Costa: graduando em História na Universidade Federal do Pará e aluno do minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?”

Ela vinha... em passos sensoriais. Não sei de onde, não sei pra onde. Sua face expunha um jogo aleatório de sedução serenamente ofuscado pelo seu traje branco que, tal com ela, displicentemente tinha poderes que irradiavam nos transeuntes as mais perigosas picardias feromônicas.
Seu movimento era como a mais perfeita e broxante equação física: retilíneo e uniforme, sem a mínima convicção de que a fugacidade do tempo deixara rastros ao seu redor. E aproximava-se... anestesiada pelo automatismo cerebral... até que de repente... ela olhou em nossa direção.
O sonambulismo dera lugar a passos longos e apressados que trazia, em nosso sentido, a curiosidade instintiva de todos os seres. Ao chegar até nós, deparou-se com a cena inicial do PopPorn executada em plena Domingos Marreiros, num sábado agradável. Sem delongas, após poucos segundos de empirismo, seus lábios expressaram com a mais profunda honestidade – irrisória aos olhos de gente “culta” – o ponto de vista mais racional e original daquela noite:
 – Que diabo é isso?
Pouco depois, ao fim da cena gratuita, antes de adentrar ao recinto da apresentação, olhei pela última vez seu rosto paralisado ainda com ar de incompreensão – e de certa reprovação – me indagando:
 – Quem és tu, mulher de branco?!
– És manipuladora ou manipulada pela coercitividade social? Tu te humilhas, briga consigo mesma pela carência do matrimônio, o fato social menos animalesco e mais hipócrita da consciência coletiva?
– Ou será que és mulher de meia-idade, já corrompida pelos ideais do senso comum e que vê no instinto humano o mais sórdido dos inimigos?
– Será que és a mais pura das donzelas? Casada há um século, mas que não admite suas fantasias e julga seu cônjuge por tê-las?
– E o teu marido, mulher de branco?! É o tipo ideal?! Ancorado por um bom emprego, bom salário e boa reputação, mas que internaliza uma personalidade enrustida em seus próprios preconceitos?
– Ou seria ele, antes de ti, um mulherengo sem escrúpulos, que personificava suas conquistas em uma ata inacabável?
– Ou Talvez um aventureiro nato, mas que ao seguir os vieses corriqueiros do amor adolescente e da paternidade precoce sofrera por saber que viveria eternamente o estado pleno de acrasia?
– E o teu filho, mulher de branco?! Estaria preparado para realizar um sonho impossível? O de romper os paradigmas homofóbicos em um ambiente jurídico?
Bom, seja como for, mulher de branco, quem sabe um dia a gente se encontre e talvez possas me falar quem tu és e todas as tuas histórias, mas não se esqueças de mencionar nelas, todas as infinidades de corações partidos.
01 de abril de 2017.

FICHA TÉCNICA
PopPorn – Sete vidas e infinitas possibilidades de corações partidos
Elenco:
Eliane Flexa, Erllon Viegas, Gisele Guedes, Leonardo Moraes, Rony Hofstatter, Sandra Perlin e Saulo Sisnando.
Participação Especial:
Drag queen Tiffany Boo e do bailarino Mauro Santos.
Iluminação:
Sônia Lopes
Sonoplastia:
Breno Monteiro
Supervisão de Figurinos:
Grazi Ribeiro
Assistência de Direção:
Marina Dahás.
Direção:
Saulo Sisnando


Sorteios de Contos ou o dia quando a verdade se transvestiu de fábula – Por Leonel Ferreira.

Montagem teatral: Sorteio de Contos.
Montagem: Sorteio de Contos.
Autor da crítica: Leonel Ferreira: Artista de Teatro e Sociólogo. Participante do Minicurso de crítica teatral “O que pode uma crítica teatral?”

Tem coco, tem embolada, tem capoeira, tem artes marciais. Tem de tudo um pouco em Sorteios de Contos, espetáculo de Lucas Alberto, que assisti na programação Amostra Aí, do Casarão do Boneco. E mais, tem verdade! Esta nos atravessa porquê traz a simplicidade de um menino-homem que brinca, faz o que acredita e divide suas verdades, convicções e quem decide que história será contada é o publico, através de uma escolha aleatória feita por Lucas Alberto, que de olhos vendados,  percorre a arena do anfiteatro. Feita a escolha, o ator apresenta quatro cartas ao espectador e este, então, terá que sortear três histórias para serem contadas. As cartas fazem referencias as cartas do tarô. O ator, então, apresenta ao público, fazendo uso de alegorias, o que pra ele é verdade.
As histórias:
Savitre, uma história de amor, onde a princesa cansada das tentativas de arranjarem um esposo para ela resolve partir para encontrar um amor verdadeiro. Ela encontra, então, Satyavan, que na versão de Lucas Alberto, além de leal, generoso, cheio de coragem e paciente, luta pelos direitos humanos, em particular das prostitutas.  Mais uma vez o ator toma a liberdade poética para apresentar suas convicções, pois para ele um verdadeiro herói é aquele que se importa com as causas dos excluídos. Para ter o final feliz desejado, Savitre terá que rebolar para conseguir tal intento, pois Satyavan não viverá mais que um ano e não poderá se casar com a jovem princesa.  Mas ela consegue vencer a morte e consegue seu intento. Mas isso já é outra história.  A história seguinte é a história de DJecupé AdJú, um índio guerreiro que se vê em volta com invasores em suas terras e para protegê-las enfrenta os invasores provocando um derramamento de sangue. E por fim a fábula da Verdade.  Malba Tahan conta à fábula que certo dia a Verdade vestida num véu claro e transparente resolveu visitar o grande Sultão, porém foi barrada pelo primeiro ministro do Sultão, alegando o que seria dele e de todos se a Verdade entrasse no palácio, então ordenou que a Verdade fosse embora. A história continua e a Verdade tenta mais uma vez entrar no palácio do Sultão, agora vestida com roupas pesadas em couro e apresentando-se como sendo a Acusação. Mais uma vez o Primeiro Ministro impede que a Verdade entrasse no palácio do Sultão alegando o que seria dele e de todos se a Acusação ali entrasse. Então, ordenou que ela fosse embora. Porém a Verdade era obstinada e não desistiu. Vestiu-se então com joias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e dirigiu-se ao palácio do Sultão dizendo ser a fábula. O Primeiro Ministro, envaidecido com a notícia que uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa de nome Fábula estava a solicitar uma audiência com o Sultão, ficou radiante e determinou que a Fábula fosse acolhida no palácio como uma rainha.  É assim, transvestida de Fábula, que a Verdade conseguiu se apresentar ao poderoso Sultão.[1]
Amor, coragem, verdade. As três histórias se completam e acendem aquela luzinha que fica piscando para chamar atenção de que alguma coisa está fora da ordem, ainda mais em tempos de tamanha falta de ética e justiça. Ainda acredito na força e simplicidade do amor, tal qual Savitre, porém, nos dias de hoje amores para vida inteira são fenômenos da natureza humana. Por outro lado não sei te tenho a disposição de Djecupé Adjú para botar pra correr uns pilantras que invadiram o legislativo, o executivo e o judiciário. Talvez me reste me transvestir de Verdade para iludir aqueles que se julgam melhores que os outros. Ou não, deixar tudo como está. A verdade às vezes incomoda e com corações embrutecidos e desconfiados, fica mais difícil ainda furar a casca bruta da arrogância. Contudo, acredito que o teatro é uma grande brincadeira de faz de conta, na qual o mais importante não é quem vence ou perde, mas o que se aprende com a história. Mas do que ir ao mundo das ilusões, dos desejos que guardamos e coragem que encontramos, o que vale mesmo é ir adiante, seguir em frente e juntar mais e mais pessoas para que o mundo seja um pouco melhor, menos triste, menos desumano, um pouco melhor do que o encontramos. Evoé!
03 de Abril de 2017

FICHA TÉCNICA:
Montagem Teatral: Sorteios de Contos
Lucas Alberto


[1] www.muraljoia.com.br/02hiverdadefabula.htm

Essas vidas estão ao meu redor! – Por Marta Teixeira

Montagem teatral: PopPorn – Sete vidas e infinitas possibilidades de corações partidos.
Montagem: Teatro de Apartamento.
Autora da crítica: Marta Teixeira: Atriz; Acadêmica de Licenciatura em Teatro na Universidade Federal do Pará; Participante do Minicurso de Crítica Teatral: “O que pode uma crítica teatral?”

É interessante como fatos da atualidade nos fazem pensar quando são representados por personagens.
O dia 19 de março foi um dos dias marcados para o grupo Teatro de Apartamento apresentar o espetáculo Pop Porn – Sete vidas e infinitas possibilidades de corações partidos, este completava 16 anos de exibição e contava com novo elenco.
O espetáculo tem início na rua (Domingos Marreiros) com a apresentação de uma “drag queen” conjunta a um “gogo boy” – início bastante interessante, não apenas pela performance em si como também pela reação e fisionomia dos moradores do outro lado da rua.
Entramos no local preparado para a apresentação. Nos chamou a atenção (minha e de minha amiga) o modo como os assentos estavam postos e logo lembrei do “Odin Teatret”[1], mais especificamente do Espaço Rio: os assentos estavam dispostos apenas ao lado das paredes, plateia paralela a outra (paredes com maior comprimento) e uma que realizava a ligação (parede com menor comprimento; esta não era presente no Espaço Rio) – no “Odin Teatret”, à distância de uma parte da plateia para a outra não podia passar de 9 m, certifico-me que não medi a distância. Provavelmente, a disposição dos bancos foi feita desse modo devido à disponibilidade do espaço.
Um breve comentário é feito a respeito da origem e permanência do espetáculo. As luzes de holofotes delimitam o espaço do palco. Entra um rapaz, aparentemente, um pesquisador com um binóculo, porém isto transmitiu-me a sensação de que o rapaz era minha pessoa no cotidiano e que o binóculos eram meus olhos, pois a partir do momento que os outros personagens iam entrando demonstrando, de certa maneira, sua história percebi que todos os dias me deparava com pessoas assim – mas, depois percebi que o rapaz era mais um com quem me deparava.
Holofotes são direcionados para a poltrona do consultório. Os terapeutas estão prontos para atender seus pacientes. A primeira é compulsiva por remédios tarja preta para se acalmar; gosta de um relacionamento tradicional; umbandista; faz de tudo para casar; relacionou-se com um homem, mas o namoro não durou; desde então não namorou outra pessoa e culpa o ex por isto. A segunda se apega muito fácil a um relacionamento; controladora; liga várias vezes por dia para o homem com quem namora por isso vive solteira; está convencida que se emagrecer vai conseguir um namorado. O terceiro é um executivo concursado; preconceituoso; quer casar e ter filhos o quanto antes para que as pessoas não pensem que ele é homossexual; não gosta de mulher atrevida; ficou com uma aeromoça, mas ela ligava para ele várias vezes no dia e ele a largou. A quarta é uma pessoa de idade casada há anos; tem uma filha; uma mulher fina, recatada e do lar, até o dia em que seu marido lhe apresenta as novas brincadeiras e posições sexuais. O quinto paciente tem problemas familiares de infância – seu pai dizia que ele tinha que pegar várias mulheres caso contrário seria “gay”, mas ele não gostava disto principalmente porque via o sofrimento de sua mãe a qual sabia que era traída; devido estas frustrações, nunca fica com a mesma mulher por muito tempo; prefere mulheres sem senso crítico; as mulheres o consideram um cafajeste, especialmente sua ex que o culpa por não ter mais arrumado namorado depois dele ter terminado o relacionamento. O sexto é um profissional frustrado; desde criança acreditava que iria se apaixonar várias vezes, mas, até então, só se apaixonou duas vezes e uma destas paixões lhe deu um filho, porém nenhuma durou; seu sonho era poder trabalhar com Arte como fotografia e teatro e poder levar seu serviço para todos os lugares que pudesse; no entanto, estava decido que daquele dia em diante iria seguir o caminho que sempre quis. A sétima ainda é vista por muitos como uma pessoa doente pela fato de ser transgênero; se prostitui para poder pagar a faculdade de direito – também recebe críticas por isto, algumas pessoas rejeitam seus serviços judiciais por ser transexual; em um de seus programas foi agredida pelo contratante e por sua mulher após esta ter pego os dois num motel; mas não é por isso que vai deixar de ser quem é muito menos deixar de buscar seus objetivos.
O entrelaçamento das histórias torna o espetáculo ainda mais interessante! A primeira conhece o terceiro e depois de um tempo decidem casar. A quarta empresta seu vestido de casamento para a filha. O casamento é realizado. […] O terceiro vai com sua esposa ao terapeuta dela; esta ficou revoltada por saber que seu marido a traiu com um transexual e esse também já estava cansando das manias da mulher e de sua demora em engravidar – o casamento é desfeito. […] Por meio do “Tinder”, a segunda conhece o quinto e depois de muita conversa marcam uma viagem para Macapá com o objetivo de se conhecerem melhor. […] A primeira conhece a segunda no voo com destino a Macapá – uma vai em busca de novos ares e a outra vai realizar uma cirurgia para emagrecer. […] O sexto seleciona algumas imagens de sua viagem ao continente africano para enviar para o Brasil. […] A segunda continua levando a vida da mesma forma, ou melhor, com uma adaptação inovadora entre quatro paredes. […] O terceiro vai atrás da sétima para assumir um relacionamento. […] O quinto tentava mudar seu jeito de tratar as mulheres.
Assim, esse explicitante cotidiano arrancou risadas, comoções, sorrisos e muitos aplausos satisfatórios.
03 de Abril de 2017

REFERÊNCIA:

FICHA TÉCNICA
PopPorn – Sete vidas e infinitas possibilidades de corações partidos
Elenco:
Eliane Flexa, Erllon Viegas, Gisele Guedes, Leonardo Moraes, Rony Hofstatter, Sandra Perlin e Saulo Sisnando.
Participação Especial:
Drag queen Tiffany Boo e do bailarino Mauro Santos.
Iluminação:
Sônia Lopes
Sonoplastia:
Breno Monteiro
Supervisão de Figurinos:
Grazi Ribeiro
Assistência de Direção:
Marina Dahás.
Direção:
Saulo Sisnando




[1] O Odin Teatret foi fundado em 1964 em Oslo, na Noruega; tem na direção o pesquisador italiano e fundador Eugênio Barba.

Para Muito Mais Além do Princípio do Riso – Por Nanda Lima / Psicóloga.

Montagem teatral: Pop Porn – Sete vidas e infinitas possiblidades de corações partidos
Autoria Crítica: Fernanda Lima. Psicóloga. Participante do Minicurso “O que pode uma crítica teatral?”
Como transvestir nossas emoções? Nossa realidade? Como sublimar nossas necessidades? Ou nossas felicidades? Felicidade(s)? No plural? Pode? Será que cabe? E o que não cabe quando falamos de arte? Tudo pode, tudo dá, tudo acontece? Pelo menos é o que revela o espetáculo PopPorn – Sete vidas e infinitas possibilidades de corações partidos, de Saulo Sisnando.
O teatro de apartamento PopPorn confidencia terapeuticamente achados da contemporaneidade, um monólogo de divagações acerca do cotidiano. Retratos de superstição, crendices, preconceitos, inverdades, revelações. A direção de Saulo Sisnando atualiza sua montagem que dirigi há dezesseis anos e que busca traduzir por meio do humor os estigmas de nossa sociedade. O texto dialoga humoristicamente com tragédias da vida contemporânea, às vezes lembrando uma esquete do Porta dos Fundos.
O espetáculo, primeiramente, mexe com o fetiche do consultório terapêutico, desperta fantasias latentes entre suas quatro paredes, que às vezes pela restrição do espaço físico aparentava uma caixinha de sentimentos.  E depois, instiga o público com apresentações performáticas da Drag Queen Tiffany Boo e do bailarino Mauro Santos, ao som de músicas de repertório pop que nos encaminham pelos diferentes focos da peça/esquetes.
Há que se referir que uma crítica social surge entre falas e risos, discutindo momentos políticos e sociais do Brasil. Ainda que o diretor tente imprimir um tapa na plateia que assiste, afirmando sua hipocrisia em rir da desgraça alheia, é ele próprio quem gerar humor do puro lixo humano. Há quem diga, é uma forma de polemizar, a sátira é a ferida aberta que o ator faz sangrar em doses homeopáticas. Sátira é uma composição livre e irônica que ridiculariza os vícios e as imperfeições. E até aonde o ridículo choca e nos faz pensar?
Sempre que sinto sangrar as feridas sociais que o humor reflexivo traz, tenho a séria tendência de olhar para o lado, o quanto de nós está sendo movido a refletir no riso? Será que as pessoas sublimam o prazer de rir da desgraça alheia para perceber que o outro são elas mesmas? Quem daquela plateia percebeu o olhar de ressentimento e tristeza daqueles que não são compreendidos, que são estigmatizados pela sociedade que estava justamente ali para aplaudi-los?
Jamais pude compreender a mulher que dança ao som de Wesley Safadão a tecer impropérios afirmando que mulher gosta mesmo é de homem safado, ou bailar sob as rimas do funk que denigrem a imagem feminina em objeto de puro desejo sexual reprimido. Respostas como: “Eu só estava curtindo o som”, não me dizem nada. Todavia, olho para um lado e olho para o outro e vejo homofóbicos enrustidos, preconceituosos emudecidos rindo na hipocrisia de tudo. Um fingir e dissimular de falsos sentimentos. Não se perca fácil em dizer é só humor, é despretensioso e descomprometido. A vida é uma sequencia de significados, faça-se valer, faça-se entender. Quem é você no simples exercício do pensamento crítico? Quando que imagens aleatórias e alegóricas ensejam sobre você e lhe impulsionar a almejar mais? Muito mais para além do principio do prazer, como diriam os psicanalistas.
Não há lógica no cômico para despertar o mundo. São insurgentes, intrépidos, insolentes, e por que não irritantes? Inconvenientes.  Sim, esta é a melhor palavra para descrever o humor de esquete, são os inconvenientes a ridicularizar a sociedade por meio da arte. A arte da inconveniência. A montagem teatral nos apresenta Ricardo, Fátima, Nazareth, e outros verbalizando suas neuroses e psicoses.
Não se assuste, você está num divã! É aqui no consultório do doutor que ouvirá todos falarem, todos que têm voz, porém não costumam falar. E por que não falam? Não têm boca? Não querem falar? O que os calam? O que te cala? A felicidade me cala, ela transvestida de tristeza, disfarçada com salto alto e batom, ou caneta e gravata, tanto faz. Ao longo da condução do espetáculo eu me perguntei algumas vezes: o que te faz feliz? Todavia, em casa já a meia luz e a olhar a cidade da varanda privilegiada com vista para a Praça Batista Campos, onde posso ver as pessoas a se movimentarem livremente, despretensiosamente, sem compromisso por suas vidas, sem saber que estão sendo observadas, entendi que na incógnita da sociedade de hoje, acho mais viável a pergunta o que é a felicidade. E se a resposta tiver algo a ver com a subjetividade: “O que é felicidade pra ti não é felicidade pra mim”. Então, caminhamos para uma discussão ainda mais filosófica: “Quem é você?”. E afinal de contas, o que é ser você? Qual a sua identidade? Quem é você pra querer ser feliz? Pode ser feliz? Pode rir? Pode só rir? Ou vale algo mais para além do principio de ser você?
FICHA TÉCNICA
PopPorn – Sete vidas e infinitas possibilidades de corações partidos
Elenco:
Eliane Flexa, Erllon Viegas, Gisele Guedes, Leonardo Moraes, Rony Hofstatter, Sandra Perlin e Saulo Sisnando.
Participação Especial:
Drag queen Tiffany Boo e do bailarino Mauro Santos.
Iluminação:
Sônia Lopes
Sonoplastia:
Breno Monteiro
Supervisão de Figurinos:
Grazi Ribeiro
Assistência de Direção:
Marina Dahás.
Direção:

Saulo Sisnando

É Porn de Pornô mesmo – Por Ramon Oliveira

Montagem teatral: Pop Porn – Sete vidas e infinitas possiblidades de corações partidos
Autoria Crítica: Ramon Oliveira. Participante do Minicurso “O que pode uma crítica teatral?”
Eu: Já faz quase uma semana que assistia peça Pop Porn, mas ainda não consegui fazer a crítica.
Ela: Sério? Pensei que você já tivesse feito! E para quando é mesmo?
Eu: Para próxima segunda! Tô fodido!
Ela: É!! Que fase!
Eu: Mas o que você lembra daquela peça? Quero fazer algo diferente! Não quero relatar cena a cena.
Ela: Como assim, Amor?
Eu: Quero fazer uma crítica com uma outra pegada! Quando a gente chegar em casa irei te mostrar a crítica da Ana Maria Christina. Pra você ter uma ideia, ela só relatou aquela cena das meninas na “praia” nos últimos parágrafos. Meu prof, então, nem se fala. A crítica dele deve ter no mínimo umas três páginas.
Ela: Teu professor é engraçado! Rs. Quase todo dia eu o vejo chegar na Etdufpa com sua bicicleta, sua caixinha de som e seu capacete!
Eu: Ousado! Mas, então... O que achou da peça?
Ela: Ahh, não sei. Gostei de tudo!

Pausa pro Pop Porn!!!

Ela: Eu gostei da peça porque eles usaram locais da nossa cidade! Nossa, não vou esquecer daquela moça, a segunda que entrou! Lembra? Aquela que brincou com a pistola! Eu acho que se ela tivesse feito menos ligações para os boys, ela teria essa foda que falta na vida dela.
Eu: Curti a personagem dela. Ela mostrou de uma forma um tanto quanto exagerada que existem ainda pessoas carentes, afobadas, mas que no fundo só querem uma boa transa e depois fumar um cigarro, tomar uma cerveja, conversar, ou somente, virar e dormir.
Ela: E aquele cara que não saia do armário? Achei ele ridículo, não como pessoa, até porque ele fez muito bem o papel de um homem que não se assume como homossexual, mas que pune, que tem atitudes machistas, e que no fundo está doido para dar ré no quibe.
Eu: Verdade! E o Alexandre?! Pega a galera do Tinder! Curiosamente, foi lá que nos conhecemos, né, branquinha?! Alexandre, aquele típico trintão que só procura por sexo casual. Mas, também foi foda aquilo que o pai dele fez com ele. O cara não dava a menor importância para mulher, e ainda apresentou uma das amentes para o filho.
Ela: Ai de você se apresentar sua amante para o nosso filho! Ai de você se me trair! Eu corto a teu p**!
Eu: E aquela coroa?! Ainda tá na atividade. Vai pra motel e tudo! Pena que ainda tem uma visão meio subserviente ao seu marido. Lembra da fala dela sentada no divã? Que sexo, é a mulher abrir a perna e pronto. Eu acho que aquele marido dela já deve ter pulado a cerca, hein... O cara sabia dos apetrechos sexuais que tinha no motel e tudo.
Ela: Pode ser, mas acho que ela quis bancar a santa, mas no fundo ela gosta de uma putaria! Esqueceu do show que aconteceu? Era tapa na bunda, puxão de cabelo! Tua amiga quase senta no nosso colo naquela hora.
Eu: Verdade. Pensando por este lado, você tem razão. Achei que a peça trouxe os fatos que a sociedade mascara, e penso também que todos pagantes daquele sábado podem achar impensável o que fizeram com aquela mulher transexual, mas na verdade, enquanto nós condenamos as atitudes de agressão, opressão e humilhação que fizeram com ela, a gente percebe como a sociedade é escrota e inverte alguns valores, como por exemplo: O marido daquela primeira mulher que entrou na primeira cena estava traindo ela com a trans, mas ela foi agredir a outra mulher que não tinha nada a ver com a relação deles. Claro, agredir não é a decisão correta a se tomar e pior ainda é você agredir uma pessoa que estava lá pois a sociedade diz que trans não pode assumir cargos que são considerados de respeito. E para piorar a situação e para deixar escancarado para todos, a peça mostrou o quão cínico uma pessoa pode ser, pois o rapaz que estava traindo a esposa foi descoberto, e gozando de seu cinismo, ajudou sua esposa a bater naquela jovem estudante de direto.
Ela: Verdade, amor! Eu fiquei puta com isso, fico puta com essa sociedade machista, que mesmo o homem estando errado ele sai “vencendo”. Gostei do final quando a menina terminou com aquele cara lá e foi conhecer novos ares, tudo bem que a cidade que ela escolhe não tem muita coisa, mas deixa ela ser feliz, né!
Eu: Não diria que a cena das minas “na praia” foi o que mais me chamou atenção, mas eu fiquei surpreso e dei mais um pouco de razão ao meu pensamento sobre o vício, pois isso já virou vício, pois as pessoas sentem a necessidade de tirarem seus telefones dos seus bolsos para “registrar” o momento e publicar nas suas redes sociais. Moradores, transeuntes, a plateia fez isso enquanto olhava todo aquele momento apoteótico, eu me perguntava, por que as pessoas simplesmente não assistem a peça?”
2 de Abril de 2017


FICHA TÉCNICA
PopPorn – Sete vidas e infinitas possibilidades de corações partidos
Elenco:
Eliane Flexa, Erllon Viegas, Gisele Guedes, Leonardo Moraes, Rony Hofstatter, Sandra Perlin e Saulo Sisnando.
Participação Especial:
Dragqueen Tiffany Boo e do bailarino Mauro Santos.
Iluminação:
Sônia Lopes
Sonoplastia:
Breno Monteiro
Supervisão de Figurinos:
Grazi Ribeiro
Assistência de Direção:
Marina Dahás.
Direção:

Saulo Sisnando

sábado, 1 de abril de 2017

Oh! Que desgraça nossa, ou minha? – Por Edson Fernando

Montagem Teatral: “Biedermann e os Incendiários”
Montagem resultado dos cursos técnicos de Figurino, Teatro e Cenografia da Escola de Teatro e Dança da UFPA.
Autor da crítica: Edson Fernando. Ator e diretor teatral. Coordenador do projeto de Extensão TRIBUNA DO CRETINO.

Biedermann Pretérito
Seu nome é Gottlieb Biedermann, cidadão de uma grande cidade localizada em terras distantes, mas bem próxima de todas as capitais do centro do mundo. Homem de negócios, o Sr. Biedermann ostenta posição de respeito em sua sociedade e, por ela, zela com enérgica determinação, defendendo a moral e os bons costumes. Austero e cheio de convicções, é esposo de Babette e possui uma personalidade controversa, pois, se por um lado é capaz de demitir com requintes de crueldade qualquer funcionário, pelos motivos mais estapafúrdios, por outro é incapaz de deixar ao relento qualquer miserável maltrapilho que bata à sua porta em busca de ajuda. Os traumas gerados pela passagem do Exército da Escuridão ainda são possíveis de serem percebidos no mundo em que o Sr. Bierdermann vive: a perplexidade diante do aroma de carne humana queimada nos fornos crematórios das agências de defenestração do estado, o extermínio dos impuros e o projeto de hegemonia do Clã da Escuridão. Tempos sangrentos onde cidades, estados e até nações inteiras ruíram, tombaram ou ficaram de joelhos diante do genocídio em marcha pelo mundo. E cidadãos como Sr. Biedermann se viram enredados pelo combate entre potências militares armadas até os dentes e dispostas a implodir o planeta. Estabelecida a derrota do Exército da Escuridão o mundo se coloriu de Azul e Vermelho, uma espécie de carnaval bicolor, insólito e imiscível. E embora o mundo celebrasse o fim das trevas saudando com certa efusão o samba do Saci-Pererê, que naquele momento substituía o pagode no escuro, o clima de medo, tensão e pânico ainda eram presentes diante das incertezas e passionalidades de ambos os blocos carnavalescos: Vermelhistas e Azulistas. O mundo se via dividido, então, entre extremo opostos muito bem identificáveis, uma espécie de Tai Chi às avessas estabelecendo contornos e formas bem distintas, impenetráveis; fronteiras palpáveis entre territórios de natureza antitéticos: vermelhistas e azulistas, opressitas e oprimidistas, bomsistas e malistas, burguesistas e proletaristas, bombeiros e incendiários. É este o lugar onde o Sr. Biedermann habita e, por isso talvez, o sem sentido de sua personalidade social controversa oscilar entre paralelos estranhos e inusitados. Ele teme as chamas incendiárias que a toda instante se apresentam como ameaças inexoráveis ao seu patrimônio, a sua moral, à sua cultura. De sua janela é possível perceber o clarão de bairros inteiros em chamas. De sua casa é possível escutar o ronco das sirenes dos bombeiros alardeando o combate incansável aos focos de incêndio. De sua casa é possível constatar a luta incessante para se manter o que está posto, estabelecido, convencionado. Sua casa é a sede da nova tradição, o lugar que guarda o legado de uma gente que se distingui pela acumulação, pelo princípio do “ter” que desbanca com eficiência a filosofia hamelet-parmenidiana do “ser ou não ser”. A casa do Sr. Biedermann torna-se, por tudo isso, o alvo ideal para a ação incendiária de Schmitz, Eisenring e Phil.  – Oh! Que desgraça a dele: possui todos os indícios de que não se tratam de pessoas confiáveis, possui todos os indícios de que são incendiários e mesmo assim  abriga-os, tolera-os em sua casa e, ainda por cima, fornecer-lhes o fósforo.   
Biedermann Hodierno
Seu nome é Gottlieb Biedermann. Depois que o mundo perdeu o centro, reside em terras muito distantes, numa cidade próxima de qualquer outro lugar que se possa imaginar. Atua no ramo da indústria da beleza, com influencia e controle dos mercados feminino e masculino. Seu prestígio e notoriedade lhe alavancaram a carreira política, embora não tenha nenhuma vocação para tratar dos bens e interesses públicos. Orador de primeira grandeza e convicto apologista da moral e dos bons costumes, professa com eloqüência os valores da família e da religião; condena e censura com veemência as condutas por ele consideradas “depravadas” e todo e qualquer tipo de pederastia. Oculta, no entanto, uma vida libertina e devassa capaz de fazer arrepiar os pelos púbicos do ânus do Satanás. Após a queda da muralha vermelha o mundo se transformou num grande carnaval de cores e sabores. E embora à primeira vista os Azulistas tivessem levado a melhor sobre os Vermelhistas, o bloco dos Binladistas tratou de compensar a paisagem do mundo realizando o grande e nefasto action painting da história, munidos de uma paleta de cores fortes e intensas arremessadas, sem nenhuma delicadeza, por sobre as telas gêmeas. Foi o suficiente para reordenar o carnaval no mundo. A partir de então, a diversidade de cores e sabores experimentaria seu maior vigor: um arco-íris de prazeres e dores atravessou o mundo; gritos de gozo, berros de indignação se misturaram na grande Sapucaí mundial; no alarido, se confundem as vozes de comemoração e cobrança por direitos ainda muito distantes de serem alcançados. Mas a contra ofensiva é instantânea e logo, o bloco da moral acinzentada arregimenta seus pares, colocam a bíblia debaixo do braço e rumam como cavaleiros do apocalipse no reino da Távola do demônio. Este é o lugar onde o Sr. Biedermann habita. É um lugar sem fronteiras, ou melhor, as fronteiras foram diluídas, assim como diluídas foram as pessoas, os sentimentos, os movimentos sociais, as relações, as subjetividades, as identidades, a humanidade. E talvez por isso tudo, o Sr. Biedermann possua esta personalidade social ambígua, hipócrita, demagógica que oscila entre paralelos estranhos e inusitados: o arco-íris dos prazeres e o cinza da moral estúpida e espúria. O Sr. Biedermann teme as chamas incendiárias que continuam rondando seu bairro, sua casa. Mas o Sr. Biedermann não sabe ao certo de onde elas vêm, pois ora ele se vê como bombeiro, ora como incendiário dos próprios valores que professa; parece tratar-se agora de uma espécie de chama camaleônica que só se revela no momento oportuno. O que dizer dos incendiários, então? Um tipinho de gente que possui gasolina na língua e nenhum fósforo no coração. Estão dispostos a incendiar as bandeiras alheias, desde que a sua seja resguardada. Dada sua natureza líquida, os incendiários carregam várias bandeiras e seu hálito de gasolina é propenso a cizânias irreversíveis no seio do seu próprio exército. De tão vorazes no intento da combustão, se arremessam numa tática kamikaze que invariavelmente dispensa os serviços dos bombeiros. O Sr. Biedermann se olha no espelho e vê a chama demoníaca e o chapéu do bombeiro. Da sua janela ouve as sirenes dos bombeiros comemorando o controle do fogo sem muitos esforços, quase sem nenhuma baixa. A casa do Sr. Biedermann acolhe, por tudo isso, a ação incendiária de Schmitz, Eisenring e Phil, pois os três conhecem a natureza demoníaca da chama de Biedermann, e ele por sua vez sabe que a fogo dos três incendiários é coisa quase inofensiva, dado sua natureza kamikaze.  – Oh! Que desgraça a dele: ele possui o fósforo para acender o fogo que consumirá e dará fim as bandeiras hipócritas e demagógicas que precisa balançar, mas conta somente com o apoio de três incendiários kamikazes que jamais conseguirão tocar fogo no circo antes que as próprias chamas os aniquilem.       
O desafio da atualização dos clássicos
 Um dos problemas que mais me inquieta – seja como artista ou como espectador – quando me deparo com uma obra teatral clássica é o alcance de sua atualização, isto é, a contextualização da obra original em acordo com a conjuntura na qual os artistas estão envolvidos. Não se trata de fazer adaptações no original, agregando gírias, neologismos ou outros genéricos da língua oral ou escrita, muito menos recorrer a caracterizações estereotipadas a partir de associações triviais com os papeis sociais da sociedade atual. Trata-se sim de um olhar crítico que consiga alcançar a alegoria da obra original para, então, estabelecer um processo dialético no qual se articule os elementos que proporcionarão a recriação da mesma alegoria, mas num outro contexto, em uma nova conjuntura. Considero, portanto, atualizar uma obra teatral clássica um dos mais provocantes e excitantes desafios num processo criativo.
“Biedermann e os Incendiários”, do escritor suíço Max Frish é uma dessas obras que, embora com poucos anos de vida, já desponta como um clássico teatral. A peça que foi escrita na década de 50 do século passado, já se tornou obra de reconhecida referencia dramatúrgica, seja pela relevância do tema abordado – as questões existencialistas colocadas ao homem no período imediato ao fim da segunda guerra mundial, na Europa –, seja pelo formato que o escritor utiliza para desenvolver o tema – uma espécie de teatro épico sem comprometimento didático, distinto do empreendimento de Bertolt Brecht, com ênfase na paródia e nos contornos dos elementos absurdos. Creio que a montagem teatral desta peça, apresentada pelos alunos dos cursos técnicos de Figurino, Teatro e Cenografia da Escola de Teatro e Dança da UFPA vislumbre o desafio de atualizar este clássico sem, no entanto, se comprometer em alcançá-lo.
O que observo no desenvolvimento do trabalho da grande equipe envolvida nesta montagem é o exercício da linguagem teatral, um esforço para oferecer aos artistas em formação um espaço, ainda que precário, para o exercício de seu futuro ofício. E não poderia ser diferente, pois um curso técnico não demanda o tempo necessário para se investir numa pesquisa aprofundada que resultasse numa atualização do Biedermann, de Frish. Estimo que o tempo para uma pesquisa de tal magnitude demande, no mínimo, um ano de trabalho ininterrupto, um disparate se comparado com os míseros quatro meses de trabalho que os cursos técnicos reservam para suas montagens teatrais. – Oh, que desgraça a nossa: nos rendemos a lógica tecnicista do mercado das artes, na qual não há espaço e nem tempo para maturação das obras, para a sedimentação da obra crítica, explosiva e incendiária. Estamos fadados ao exercício da linguagem teatral na sua dimensão formal, dimensão na qual o trabalho do artista se volta para o acabamento de um produto a ser consumido como entretenimento.     
Alguém tem um fósforo?
01 de Abril de 2017.      

Ficha Técnica:
“Biedermann e os Incendiários”
Atuação:
Alunos do 1º ano do Curso Técnico em Teatro
Aj Takashi, Bonelly Pignatário, Brendon Mac, Enoque Marinho, Enoque Paulino, Hudson dos Passos, Igor Moura, Jeff Moraes, Joed Caldas, Karla Almeida, Lane Sena, Loba Rodrigues, Luana Oliveira, Lucas de Castro, Marina Lamarão, Marina Moreira, Marvin Muniz, Romana Melo, Ruber Sarmento, Sandrinha Wellem, Sônia Kasamy, Ysamy Charchar, Yuri Granha.
Figurino:
Alunos do 1º e 2º anos do Curso Técnico em Figurino Cênico.
Figurinistas:
Alessandra Viana, Analuz Marinho, Christie Monteiro, Lúcia Almeida, Mayla Serrão.
Assistente de Figurino:
Daniel Gomes, Diogo Richier, Iara Mendonça, Isabella Valentina, Marcus Lima, Mônica Pinheiro, Orcideia Ferreira, Yan Almeida.
Cenografia: Alunos do 1º e 2º anos do Curso Técnico em Cenografia.
Cenografia e Iluminação:
Francelino Mesquita, Hildo Almeida, Everson Costa.
Assistente de cenografia e contrarregragem:
Anne Loureiro, Bolyvar Melo, Jean Cardoso, Kleber Dumerval, Léo Andrade, Waldir Lisboa.
Coordenação de Figurino e Cenografia:
Adriana Cruz.
Coordenação de Iluminação:
Tarik Coelho.
Direção/Encenação:
Denis Bezerra, Karine Jansen, Renan Delmontt.
Arte Gráfica:
Aj Takashi.