sexta-feira, 11 de março de 2016

A nudez de Atena - Por Victor Peixe

Por Victor Peixe - Ator, historiador, crítico participante do projeto Tribuna do Cretino.
Prestai atenção, prestai, pois ora relato, em cores contemporâneas, os desdobramentos de uma luta de corpo, desejo e espírito. Relato, pois, como partícipe do julgamento de um matricida.  
Às portas do Templo de Atena, sou recebido pela atuante-deidade Geane Oliveira; no interior estão postos os assentos dos juízes. Uma vez que aceito tuas condições, tomo parte na absolvição de Orestes, o assassino. Para as Eumênides presentes, de cabelos, cores e estilos tão díspares, sobrou o desconforto do chão. Caladas, subalternizadas. Sujeitas de si, donas de seus corpos, tolhidas de direitos por uma atuante-Deusa.
Ocupo, neste templo, lugar de conforto, segurança e privilégios.  Degusto do vinho barato que me é ofertado, desfruto da honra de permanecer calado e me descubro manipulado. Será esse meu lugar devido, por subestimar teus feitiços? Eis que não posso me pronunciar, ajo por coação, escarnecido no teu mijo, vertido qual tuas regras que te solicitam mês a mês. Questionas minha virilidade, Deusa, mas teu gozo ofegante e forçado não me constrange.
Este julgamento foi um engodo. Minha mudez conivente além para além do Templo-Teatro. Não seria eu também, eu, meu silêncio conivente e consciente em meu silêncio, um agressor, não pactuaria de agressões físicas, psicológicas, emocionais, afetivas, enfim, do feminicídio à que tuas irmãs estão expostas, mas do qual tu escapas, na divina intangibilidade?
O mal estar de perceber tal condição degradante é tão maior, pois usurpado de minha hombridade fui feito fantoche pela Deusa mulher.
Ai de ti, Atena, jovem Deusa humanizada em malha preta, na pele manchada de sol, na tintura de cabelo e pêlos, por que vociferas impiedosamente jargões e impropérios furiosos? Embusteira que fala demais, mesmo me dizendo tão pouco, que me restando seguir-te apaixonadamente, faminto por apreender teu vinho, teus guizos e teus gestos sinuosos, porém enrijecidos
Então, ao buscares tuas irmãs, abandonadas na periferia sob a sombra masculina, te revelas como a grande dominadora ao exortar teu sexo à última palavra, expondo-nos – nós na condição de juízes – ao ridículo.
Numa terça-feira, 8 de Março de 2016, data em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, Geane Oliveira me induz a olhar as rizomáticas relações de poder estabelecidas a partir de minha posição de macho social, com minhas mães, amigas e companheiras. Por quanto reproduzo a opressão de gênero através de supostos discursos pró-feministas?
Jamais esperaria que, passados mais de dois mil anos, Ésquilo tivesse tanto por me questionar.

Victor Peixe

09 de Março de 2016

quinta-feira, 10 de março de 2016

Sem bainha e arremate - Por Victor Peixe

Victor Peixe – Ator, historiador e crítico participante do projeto Tribuna do Cretino

A instalação performática, Memórias, retalhos: cenas teatrais em Belém do Pará, de Denis Bezerra, trabalho derivado de sua pesquisa para o doutoramento em História Social da Amazônia, pelo PPGHIST – UFPA, percorre alguns dos caminhos da ainda pouco registrada história do Teatro moderno e contemporâneo em Belém. Uma história ainda carente de registros e pesquisas.
Nesse intento, Denis se lançou à pesquisa através da História Oral, selecionado algumas vozes de um ambiente tão polifônico, formado por jovens atores e diretores desejosos em dar ao palco paraense ares de novidade. O Teatro do Estudante, Norte Teatro Escola e a Escola de Teatro, são os escolhidos para se contar essa História.
O trabalho cênico de Denis se confunde com sua pesquisa histórica documental, com uma imersão em  cartas, programas, fotos, cartazes, material de divulgação de peças e acervos pessoais, além de permanecer ainda na memória e oralidade dos antigos mestres e mestras. De fio em fio, de retalho em retalho, realiza o trabalho de artista-historiador que costura uma tira da História do Teatro paraense.
 Se o Teatro do Estudante e o Norte Teatro Escola tinham por objetivo modernizar a cena paraense, produzindo um teatro de formas e conteúdos não comerciais – e que, no entanto, negligenciava as tantas manifestações do Teatro Popular presente na capital - é pertinente dizer que essa proposta se firma com o Serviço de Teatro da UFPA, depois transformado em Escola de Teatro.
Denis, fia, desfia, refaz e remenda. Mas onde estão a bainha e o arremate? Se pesquisa se realiza enquanto tese a aprovação do trabalho acadêmico pela banca avaliadora, responde a isto.
Porém, resultado performático, é comprometido pela verborragia de uma dramaturgia espontânea e pelo repetitivo ato de, em posse de rolos de lã e uma grande agulha, fingir que costura para em seguida, fingir que desfia. Neste fingir, esta ação é esvaziada de sua carga poética.
Isto, contudo, me parece acontecer, pois a construção cênica está subordinada ao trabalho acadêmico, resultando numa necessidade em ser didático em vista de sua provável apreensão por um público não familiarizado com as linguagens da cena. Ainda assim, é possível derivar questões urgentes porém negligenciadas para a cena do tempo presente.
A pesquisa-performance de Denis não alcança o tempo presente, seu recorte finda em 1968, mas me induz a pensar sobre nossa produção atual,  a partir de dois momentos: O primeiro, quando da leitura de trecho da carta de Maria Sylvia Nunes à João Cabral de Melo Neto, autor de Morte e Vida Severina, montagem  do Norte Teatro Escola, datada de 1959, pela qual o grupo foi ganhador do Festival de Teatro de Santos. Em certo momento da carta, Maria Sylvia comenta sobre a falta de apoios, à época, para a produção teatral local; O segundo momento passa por quando, já firmada a Escola de Teatro, seus atores e atrizes egressos se deparam com uma cidade que não possui mercado de trabalho, o que conduz muitos à trabalharem nas novelas de rádio e TV. “E hoje, haverá esse mercado?”, pergunta Denis.
Os dois momentos permitem estabelecer algumas continuidades com características da cena atual, onde a carência de apoiadores é patente e os editais de incentivos às Artes e a Cultura são escassos e restritos; além da ausência de perspectivas de trabalho para atrizes a atores formados no curso técnico profissionalizante oferecido pela Escola de Teatro e Dança da UFPA.
Causa angústia e apreensão que, mais de 50 anos após a afirmação do teatro moderno paraense, estas preocupações ainda estejam em pauta. Por conseqüência, uma série de problemas podem ser levantados, pois se a modernização se firma com a Escola de Teatro nas décadas seguintes – a partir da década de 70 do século passado – até os dias atuais, o caráter experimental de muitas produções da cena, se tornou um traço, um nó, importantíssimo para a costura das cênicas na cidade. 
Quais as teias que tecem a cena contemporânea na cidade de Belém? Quais os retalhos ainda ignorados no tempo presente do Teatro paraense? Qual o sentido da profissionalização enquanto artista para a cena, numa cidade com um mercado de trabalho minúsculo? Algum grupo pode ter seu trabalho apontado como referência estética e política? Será possível perceber marcas comuns nas produções teatrais do nosso tempo atual?
Sobre o traços da cena experimental de Belém – no qual o trabalho de Denis também se mostra enredado, ao misturar performance, instalação e projeção – onde é notório o amalgamento de linguagens, onde se buscam elementos exógenos ao Teatro para a composição e construção poética dos trabalhos. É recorrente a busca de elementos da dança contemporânea, da performance, do circo, da palhaçaria, do cinema, das artes visuais e plásticas, produzindo em cena verdadeira colcha de retalhos estética.
Esse traço tão evidente e também repetitivo parece surgir de um sentimento de plena liberdade poética por parte dos fazedores da cena. Lança-se mão de quaisquer recursos para que se alcance um resultado criativo esperado, ainda que nesse caminho o uso de linguagens – de tantas linguagens – facilmente caia em frágeis proposições conceituais e debilidades técnicas.
Paira o sentimento de “tudo é permitido”, onde o uso das linguagens de maneira tão livre e despreocupada é feito não para a construção de discursos políticos, questionamento ou afirmação de novas estéticas e paradigmas artísticos, mas pelo desejo de estar em cena, daí choques entre forma, proposição e conteúdo estarem na ordem do dia.
Como agravante a cena teatral vive um momento de Recolhimento, isto é, pode-se notar nos últimos anos um intenso movimento rumo à casas-teatro – em contraponto ao movimento de teatro-porão de até bem poucos anos passados – geridas de forma autônoma por seus proprietários artistas e coletivos. Aqui podem ser citados a Casa Dirígível, Casarão dos Bonecos, Casa dos Palhaços, Casa da Atriz, Estúdio Reator como espaços residenciais abertos à intervenção teatral.
Se aqueles grupos de jovens dos anos 40, 50 e 60 queriam modernizar a cena da cidade, o que querem os artistas contemporâneos? Estão aqui os novos fios, rasgos e retalhos deixados para que nós, artistas e historiadores, possamos refletir sobre esta Arte. Por hora, nos resta pensar no que fazer para não deixar tantos pontos sem nó.

Victor Peixe
08 de Março de 20

quarta-feira, 9 de março de 2016

Visibilidade de gênero: o dia em que as Erínias nos visitaram - Por Ceci Bandeira

Ceci Bandeira: Graduanda em Filosofia pela Universidade Estadual do Pará - UEPA.
Estamos em Atenas, que, desde 510 a.C., havia substituídos a tirania pela democracia: não é mais a um chefe que os gregos obedecem, mas a uma soma de sentimentos coletivos, ou seja, à polis. Ou será que estamos em qualquer outro Estado democrático existente no ocidente do século XXI?
Ao manusear a mitologia grega, o trágico Ésquilo constrói suas personagens em função da fábula, tomando a posição de substituir a liberdade pela fatalidade, e faz com que a Moíra, o destino cego de punição, se torne a medida de todas as coisas, e não o ánthropos, como posteriormente pensarão outros trágico gregos. O sofrimento é, para o teatro esquiliano, um preceito necessário contido nas etapas de obtenção da sabedoria. A dor redime e concilia. Devemos seguir a lei divina de “sofrer para compreender”, como nos diz o Coro no Agamênon – primeira das tragédias da trilogia Orestes. No entanto, esta lei não contempla o âmbito da responsabilidade individual, mas está abrigada em um grupo de indivíduos unido pelos laços de sangue (guénos), em que a falta de um recai sobre todos.
Após degolar a mãe, Clitemnestra, junto ao cadáver do amante para vingar o sangue de seu pai, Agamênon, derramado pela mulher, a hamartía (erro que determina a queda de um herói trágico) hereditária de Orestes está consumada e o drama da luta pela maldição familiar se reflete no último texto da trilogia trágica de Ésquilo: Eumênides – que em grego significa “benevolentes”, o eufemismo conciliatório buscado por Atena para apaziguar as Erínias destronadas e sedentas por vingança. Apolo envia Orestes a Atenas para ser julgado por um tribunal, o qual o júri será presidido por Atena, a deusa patriarcal, assessorada por doze cidadãos atenienses. As Erínias, deusas das trevas, estão ali para acusar e vingar o matricídio cometido por Orestes. A votação do júri mortal termina empatada. Cabendo, por esse mesmo motivo, à Atena o voto de desempate. Orestes fora absolvido. E seu voto nascia para todo o sempre.
É dessa forma entramos no cenário de Atena em Solo Viril, remontagem do texto Eumênides de Ésquilo, feito pelo Grupo de Investigação do Treinamento Psicofísico do Atuante (GITA), dirigido por Edson Fernando e representado pela atuação Geane Oliveira na pele de Atena – a deusa gerada da mente de Zeus e que, por isso, se posicionará a frente do direito dos deuses novos (dike), que habitam os altos inundados de luz do Olimpo, para derrubar o direito dos deuses antigos (thémis), que habitam as trevas do Hades.
Atena é a figura feminina que, pela ausência do arquétipo matriarcal, não compartilha conosco as reminiscências saudosistas da gineocracia – fase primitiva da civilização humana, segundo Johann Jakob Bachofen, em que a mulher, unicamente ela, era autoridade e legisladora, conhecida por governar tanto o grupo familiar quanto a sociedade, que englobava sobretudo a religião, mas que foi derrotada pela androcracia, governo patriarcal que vigora até os dias de hoje. Por não possuir vínculos estreitos com o solo, símbolo da Terra-mãe universal que aceita passivamente todos os fenômenos naturais, ela sentirá necessidade de defender o oposto, a autoridade incontestável do pai na família e o papel preponderante do homem numa sociedade hierarquicamente organizada, ou seja, fará justiça pelo sangue do varão Agamênon. 
Desde o momento em que entramos na arena, tempo depois dos homens que foram primeiramente chamados a sala, e somos convidadas a sentar no chão constituindo um círculo periférico ao círculo principal formado pelas cadeiras em que estão alojados os homens, já somos Erínias. Nós, que hoje discutimos e procuramos as mais possíveis formas de nos livrarmos das amarras de uma sociedade machista e opressora, somos introduzidas no momento exato, segundo Ésquilo, em que toda a liberdade nos foi extirpada. Estamos ali para ver de longe o sangue das hamartías ser oferecido por Atenas aos doze juízes, os “homens horados” que votarão a favor da justiça. Da sua justiça. Da justiça relegada as deusas sombrias condicionadas em ser mulher. Teremos que sofrer para compreender.
Após encontrar a figura de Orestes dentre os cidadãos de bem, Atena se entrega a voluptuosa situação do julgamento, no êxtase do domínio de poder: a sua díke está prestes a ser estabelecida naquela polis, a limitação, a hierarquia, a ordem e o logos enfim substituirão o caos, a natureza, a liberdade, o éros. Somos aos poucos despidas moralmente e desonradas pela ideia desta nova justiça que será implantada daqui a poucos minutos, através da fala de uma deusa misógina, e que nos perseguirá, nos torturará e nos matará durante todo o percurso seguinte da história humana.
É necessário que chegue apenas o momento em que os votos dos doze homens estabeleça um empate, para a deusa-inteligência sentenciar Orestes como inocente: perante os deuses, este homem não possui culpa alguma, a justiça divina fecha os olhos para o matricídio, pois este sangue materno não exerce influência sobre a criação do filho: para o patriarcado, a mãe, como a terra, é apenas o depósito, a matriz fria e passiva, da semente semeada pelo pai, que seria o grande responsável pela germinação. Ora, por isso Atena é a defensora do patriarcado, somente uma mulher que não tenha sido formada nas sombras de um seio materno lutaria pela submissão de suas semelhantes. Ou somete mulheres que tenham sido educadas por homens para renegar as tradições geneocráticas imanentes da sua existência.
Ela, agarrada as regras civis basilar da sociedade ocidental, oferece o sangue dessa tragédia familiar para os cidadãos legítimos que pisam junto dela naquele solo viril, não nos deixando provar nem os requisitos desse vinho sanguinário – prefere derramá-lo por completo através de seu falo fantasioso (fantasioso já que este lhe foi negado quando condicionada ao feminino), naquele solo que poucos terão a privilegio de pisar. E nos convence (ou nos força) protegê-los durante o percurso de suas vidas, em troca de honrarias divinas para nos persuadir a não nos vingarmos da (in)justiça decidida pelos deuses novos. No íntimo do patriarcado, se encontra o medo de que nos revoltemos contra este sistema do lógos, por isso a preocupação de Atena em nos comunicar, rapidamente após a decisão do júri, sobre o eufemismo e nos entregar a honraria suprema de proteger a sua cidade.
Se lutássemos até a última instância nossa thémis retomaria, pois todos naquele tribunal têm conhecimento de que para as Erínias, “enquanto o matricida não for punido com a morte, a terra, ferida em sua fertilidade, não produzirá frutos, nem cumprirá seu destino material” (BRANDÃO, Junior de Souza, 1985), impedindo que todos os cidadãos atenienses perpetuem a sua espécie.
E assim termina o espetáculo de Atena sobre o seu adorado solo viril. Não provamos o vinho sanguinário. Não nos aproximamos do solo viril. Saímos com a certeza de que possuímos um poder imanente extraordinário, e que somos todos os dias coagidas a esquecê-los. Com mais dúvidas do que respostas. Entretanto, com uma profunda imersão na história e cultura das mulheres que nos antecederam na luta pela retomada do magnífico caos erotikós que é ser mulher e ao mesmo tempo livre.

Ceci Bandeira
09 de Março de 2016


domingo, 28 de fevereiro de 2016

Tudo que nos resta é tomar uma cerveja – Por Edson Fernando

Autor da Crítica: Edson Fernando, Professor de Teoria do Teatro da Escola de Teatro e Dança da UFPA.  

Considerações a Performance "Em caso de emergência quebre o vidro".

Endógena
Tudo que nos resta é tomar uma cerveja. ### Antes que seja mal interpretado, esclareço que sou apreciador de uma boa cerveja gelada; o primeiro copo quando vertido sem intervalos, a goles largos, provoca uma sensação de prazer inigualável a qualquer outra bebida alcoólica. Se a pedida for servida numa latinha ou na charmosa garrafinha long neck, invisto em dois ou três goles grandes, ininterruptos, para garantir o mesmo deleite do primeiro copo. Depois da primeira, seguir vertendo mais algumas – ou muitas – deliciosas “louras” é quase um ato incontrolável, dado o contato solene e divino instaurado a partir da primeira degustação. ### É a dimensão dionisíaca que se abre com todo o seu furor e arrebatamento; nela, elevamo-nos também a categoria de deuses e somos lançados para o ponto anterior a instalação do teathron; como ditirambos de outrora nos é solicitado entoar os cânticos a Dioniso, mas apenas alguns se atrevem timidamente a gravar suas impressões subjetivas no muro em ruínas do edifício teatral; ao que parece, o verme da consciência ainda não ruiu completamente com nosso textocentrismo e seguimos na ávida expectativa pelo acontecimento de caráter elevado, digno de tomar o centro da arena-santuário ### A história do teatro localiza na Poética de Aristóteles os elementos que constituem o paradigma para o estabelecimento do Drama Absoluto – conceito este proposto por Peter Szondi. Definindo a tragédia grega como “imitação de uma ação de caráter elevado, completa (...), imitação que se efetua não por narrativa, mas mediante atores, e que suscitando ‘terror e piedade’, tem por efeito a purificação dessas emoções” (1987, p. 205), o Estagirita instituiria a tríade Ação/ Imitação/ Catarse como os elementos propulsores do novo gênero artístico que surge por volta do século V a.C.; guardando suas peculiaridades de forma e conteúdo, o Drama Absoluto operaria pela mesma tríade ### “Vocês vieram assistir teatro? Vieram no lugar errado!” é a sentença disparada pelo ciclope digital; o gigante mítico de um olho só e de poderes premonitórios de outrora, se apresenta agora em estatura baixa e portando um terceiro olho na palma da mão direita; este terceiro olho, que parece nos vigiar, traz o vaticínio: a caverna cibernética é o lugar de se RE[ATAR] a vida, reassumir o protagonismo ditirâmbico, potencializar ao máximo o RE[ATOR] que existe em cada um dos presentes. ### Órfãos dos grandes mythos que somos, estamos fadados a lidar com a Ação em nível micro e suas subseqüentes fragmentações, comprometendo a unidade de lugar e de tempo da mimesis e, por conseguinte, a estruturação e desenvolvimento de uma ação catártica nos moldes aristotélicos. É a sintomática crise do drama instalada no Teatro Contemporâneo. ### Após o vaticínio do ciclope digital é uma questão de tempo para que minha relação com a caverna cibernética se redimensione, se atualize e potencialize um novo contorno: a sinestesia sonora e imagética. As sombras melódicas, barulhentas e multicoloridas que não cessam de atravessar e invadir o espaço me embala agora numa viagem poética cujo centro está voltado para meu próprio ser; trata-se de uma auto poiesis digna de rivalizar com os pseudos protagonistas da rádio novela digital que ali se delineia aos farrapos. Finalmente assumimos que estamos em terras dionisíacas e como bons devotos elevamos nossos copos – ou latinhas – em honra a deidade. Reconhecendo-nos como partícipes do acontecimento um novo imperativo ganha forma e força: importa a troca, o contato e o encontro humano. Tudo o que se apresenta como possível obstáculo ao imperativo soa estranho e afronta a estabilidade, qualidade e fluidez do ato, pois passo a realizar minha própria linha de ação com a parceira que se encontra ao meu lado; nossa troca e contato humano – regada a terceira ou quarta cerveja estupidamente gelada – atualiza e dá sentido àquele momento único que se abre somente entre nós dois; o jogo se inverte, pois se antes o equívoco ou inadequação se encontrava na expectativa de acompanhar a história que viria a ser apresentada de modo linear ### condição do espectador por excelência, que aguarda o desenvolvimento do drama em toda sua extensão, até o desenlace ###, agora encontrando a chave adequada para me relacionar com a caverna cibernética, são as irrupções dos pseudos protagonistas da rádio novela digital que soam inapropriadas, pois interrompem o contato com minha parceira de ato. Ocorre o entrecruzamento entre os farrapos do ficcional e a gestação de um autêntico Happening ### Movimento vanguardista marcadamente dos anos sessenta do século XX, cujos princípios de criação se pautavam pelo acaso, o imprevisto, o aleatório e a renuncia a todo elemento mimético fixado num texto; as obras deveriam se estabelecer a partir do frescor inusitado e, por vezes, altamente arriscado dos acontecimentos. Curioso notar como a estruturação da Performance “Em caso de emergência quebre o vidro” pretende instalar essa temperatura e ambientação, própria do happening, na sala de apresentação; quando finalmente isso se instaura e ganha consistência entre os presentes, os resquícios da forma dramática que “costuram” a performance se chocam com estes elementos altamente imprevisíveis e, por isso mesmo, organicamente gestados como happenings. ### Mas a essa altura, o verme da minha consciência já havia corroído o que me restava de textocentrismo e, então, não hesitei em abandonar por completo os farrapos daquela história de amor e desilusão que insistia para ainda ser notada aos sobressaltos. Tudo o que restava era seguir a linha orgânica do meu happening. Tudo o que nos resta é tomar uma cerveja. ### Mesmo evidenciado as sucessivas crises da forma dramática na atualidade, essa espécie da Frankenstein chamado “Drama”, consegue encontrar fissuras e por elas se alojar, instalando-se como uma espécie de parasita a espreita do bote derradeiro. Note-se ainda que a Performance na acepção do alemão Hans-Thies Lehamann, sendo o terceiro elemento situado entre o Drama e o Teatro, opera com maior destreza nos momentos de fuga das convenções estabelecidas pela tradição teatral. Logo, a dramaturgia de Denio Maués só foi relegada a segundo plano, na minha recepção, na medida em que irrompeu reivindicando status de ação central na Performance. Certamente, a dramaturgia opera com maior potência em sua versão de rádio novela digital, dada a acompanhar na instalação localizada no hall de entrada do Estúdio Reator.     
Exógena
Tudo que nos resta é tomar uma cerveja. Embora altamente aprazível pelo ato de degustar, a constatação não deixa de ser perturbadora se levado em consideração o índice de reclusão colocado na premissa. O que temos feito para enfrentar a situação adversa, humilhante e ultrajante para os artistas de teatro na cidade de Belém do Pará ao longo dos últimos dezesseis anos? Há quanto tempo não nos reconhecemos como uma categoria teatral?   
Houve um tempo – suspeito eu, em minha ligeira inocência romântica – em que bebíamos cerveja para potencializar atos criativos, subversivos e fundamentalmente poéticos; ato agregador e altamente sociável, beber cerveja colocava no mesmo patamar artistas de teatro de diferentes gerações, classes sociais e níveis de formação. Em volta da mesa do bar minha iniciação a “loura gelada” me colocou lado a lado com artistas que admirava por seu potencial criador, mas, sobretudo pelo posicionamento político e de enfrentamento que o teatro em Belém sempre teve – uma rápida visita a história recente do teatro em Belém, atesta o vigor e o engajamento político empreendido pelos artistas que criaram os grupos Norte Teatro Escola do Pará e o Cena Aberta, pra citar apenas dois dos mais importantes.
Mas fico com a impressão, de que hoje, o nível de enfrentamento político ficou reduzido à sobrevivência de espaços alternativos que foram abertos na cidade. Essa política dos artistas de teatro de territorialização de novas salas de apresentações injetou, certamente, animo novo aos produtores locais, pois os teatros públicos oficiais encontram-se de portas fechadas – ou completamente sucateados, vide o caso do Teatro Experimental Waldemar Henrique – para os artistas da terra há pelo menos uma década e meia. O marco desse processo de territorialização se estabeleceu na virada do século numa queda de braço entre a categoria teatral – que na ocasião ainda se agrupava politicamente na moribunda FESAT, para logo em seguida fundar a APLAUSO, associação que, segundo me consta, não vingou por mais de três anos – e o então governador Almir Gabriel, capitaneado por seu fiel escudeiro, Secretário de Cultura Paulo Chaves. O símbolo maior do embate: O Teatro Experimental Waldemar Henrique. O momento crítico: a reinauguração do Teatro Experimental Waldemar Henrique que contou com a presença do Governador Almir Gabriel, do próprio secretário Paulo Chaves, além de um seleto grupo de convidado exceto, é claro, a classe teatral que ficou impedida de entrar na cerimônia que ocorria nas dependências internas do teatro. O fato enfureceu os artistas que protestaram esmurrando portas e janelas do prédio em repúdio ao tamanho desprestígio e desrespeito. A situação foi tão tensa que o governador precisou sair do prédio escoltado pelo batalhão de choque da policia militar, sob intensas vais dos artistas-manifestantes.
A partir do ocorrido a categoria deu as costas para o teatro Waldemar Henrique numa atitude de afrontamento político à gestão de Almir e Paulo Chaves e gradualmente passou a territorializar a cidade com novos espaços. Surgiram, então, na cidade: Teatro Cuíra, A Casa da Atriz, Teatro Porão Puta Merda, Casarão do Boneco, Espaço Atores Contemporâneos, Casa Dirigível, Estúdio Reator, entre outros. Alguns já fecharam as portas e outros lutam bravamente para manter-se de pé, literalmente. Reconheço, admiro e louvo sinceramente o esforço de cada um desses artistas que se mantêm na linha de frente das políticas culturais pra cidade, administrando espaços privados com escassos recursos públicos, mas voltados para o bem comum, dialogando abertamente com a sociedade, problematizando-a e apontando rumos diferentes para vencer o cerco da lógica de mercado capitalista que também assola as artes.
Decorridos, no entanto, alguns anos dessa aventura de territorialização dos espaços na cidade, é necessário refletir e mensurar até que ponto o enfrentamento e resistência de outrora não se transformaram em recolhimento? Empresto o termo de Victor Peixe que intitula “Teatro do Recolhimento” em contraponto ao “Teatro de Resistência”. Segundo Victor – e concordando com ele – vivenciamos um momento em que alguns artistas têm seu próprio espaço de criação, tencionam as linguagens ao máximo possível – ou ao seu bel prazer – com vistas a extrair delas um experimento revigorado, afinado com as tendências pós-dramáticas da contemporaneidade, mas que não conseguem estabelecer-se como voz ou foco de enfrentamento político. O motivo é aparentemente simples: trata-se de esforços separados, isolados, recolhidos ao desejo de continuar fazendo teatro com a liberdade necessária para experimentar o que bem entender e não efetivamente em construir um discurso afinado de resistência a (des)política cultural do estado.
E para não ser injusto, me incluo entre aqueles cujo termo “Teatro do Recolhimento” se adequada perfeitamente e me permito uma auto-citação, a título de exemplo. Embora não possua um espaço alternativo particular, usufruo do Teatro Universitário Claudio Barradas, espaço institucional que abriga minhas experimentações artístico-acadêmicas há pelo menos cinco anos. Nele, tenho total liberdade – e custo “zero” – para propor relações poéticas nos processos criativos que dirijo no grupo de pesquisa do qual faço parte – o GITA – e em todas as minhas demais produções. É cômodo demais contar com este espaço e, inevitavelmente, acabei me recolhendo e me contentando em simplesmente tencionar as relações dentro desta margem de segurança institucional. Mas qual a relação desta minha prática com a cidade? Em que medida o discurso que instituo ali dentro não fica recluso as paredes do teatro sem nunca, ou quase nunca, ultrapassá-las? O raciocínio é valido para todas as demais produções institucionais da Escola de Teatro e Dança da UFPA e penso que já é hora de avaliarmos criticamente se não nos encontramos encastelados neste teatro. E o pior, se não tentamos fazer deste espaço uma espécie de novo Waldemar Henrique – lugar que abrigue todas as produções teatrais da cidade – justamente para tentar minimizar a lacuna deixada pelo próprio estado.
Isso é resistência ou recolhimento?
Reconheço a resistência histórica e heróica de todos os espaços citados aqui, mas precisamos avançar na compreensão e efetivação de práticas coletivas que nos devolvam a identidade de categoria teatral. Do contrário continuaremos isolados e recolhidos aos nossos desejos e aventuras estéticas. Já passou da hora de colocarmos um pouco de ética em nossa insatisfação poética. A mesa do bar pode voltar a potencializando nossos hábitos etílicos canalizando-os para um enfrentamento comum. Assim, tudo que nos resta é tomar uma cerveja. Cabe a cada um de nós saber, no entanto, qual cerveja verter: a do recolhimento ou a da resistência?    
OBS: A Performance “Em caso de emergência, quebre o vidro” me possibilitou refletir sobre um termo instigante que temos discutido ultimamente no projeto TRIBUNA DO CRETINO. No entanto, as considerações apresentadas aqui – na parte intitulada Exógena – não se dirigem exclusivamente ao Estúdio Reator, mas sim ao conjunto de espaços alternativos que mantêm relação semelhante com a cidade inclusive o Teatro Universitário Cláudio Barradas.     
Edson Fernando
28 de Fevereiro de 2016   

FICHA TÉCNICA
PERFORMANCE 
“Em caso de emergência quebre o vidro”
Performer:
Dudu Lobato e Paulí Banhos
Dramaturgia:
Denio Maués
Cenografia / Vídeo / Iluminação:
Nando Lima
Door:
Maurício Franco

domingo, 31 de janeiro de 2016

A resistência Catártica do Coração - Por Raphael Andrade

Raphael Andrade: Ator, Graduando em Licenciatura em Teatro UFPA
Na noite de chuva torrencial do dia 16/12/2016, entrei no coletivo que narrou minha história. Sim, minha história. Porque falava do amor, sobretudo pela arte teatral – arte tão difícil de ser produzida nesse solo amazônico, onde a política cultural ainda está estagnada na “Belle Époque”.
Ao adentrar no ônibus lotado do “Cuíra” (que meses antes tinha sido despejado de seu espaço por falta de recursos) percebi, subitamente, porquê a parada de ônibus era ao lado do suntuoso Teatro da Paz. Que buzinaço nos ouvidos do poderio, heim? Remeteu ao mimo (mimus) da Grécia Antiga – que tinha a necessidade de autotransformação, mormente pela imigração que deveria ser feita para que a arte sobrevivesse.  
O espaço cênico lembrava uma alegoria de carnaval, todo enfeitado de lâmpadas de LED e máscaras carnavalescas dentro e fora do coletivo, remetendo-me a história da grande festa em honra ao deus grego Dionísio. Neste caso, as atrizes não usavam as máscaras para a encenação, e sim, encaravam as suas histórias sempre na primeira pessoa. Contando-nos suas vivencias na sexualidade, no amor proibido, nas lembranças da infância, do medo, alegrias, separações, frustações, perdas, ganhos e culminando no sentimento mais nobre que existe: o tal do amor.   
A “bebida” da grande festa ficou a cargo da sonoplastia que abrilhantou o espetáculo, com o intuito de trazer à tona a radionovela, estimulando a imaginação dos ouvintes entre uma pausa e outra na entrada das seis atrizes veteranas, que narravam e cantavam as suas vivências no amor e no teatro.
A dramaturgia não contém nada de extraordinário, muito pelo contrário, parecia por vezes redundante falar sobre a trajetória de vida do ser humano culminando no amor. Creio, se não fosse a presença cênica das atuantes e a ótima direção, o trabalho seria simplório. O que não acontece no “Auto do Coração” trabalho primoroso de todos os envolvidos no espetáculo. Mostrando-nos que um enredo comum, pode tornar-se grandioso quando se tem consciência do fazer teatral e, sobretudo amar o que se está fazendo – Amor este, que estava estampado no semblante das atuantes. O teatro, nesta terra papa chibé, é sintetizando pelos artistas com o clichê: Ame-o ou deixe-o. Neste caso, a escolha é amar.
No epílogo, as atrizes falam sobre seu amor à arte, que as (nos) embriaga, que por meio da catarse nos arrebata, nos exorciza nos faz sermos resistentes. Como nos diz a atriz/diretora Wlad Lima: “Acreditem: há políticas culturais no estado do Pará! Mas essas políticas não nos atingem, não somos beneficiados por elas".
Sintetizando: “Auto do coração” nos mostra com simplicidade o que se fala/ouve no ônibus: Amores, paixões, sofrimentos, dores, angústias e sucessivos sentimentos que nos sãos empíricos.
Obrigado grupo Cuíra, por nos fazer passear pelas ruas de Belém embriagando-nos de amor ao fazer teatral. Que venham mais temporadas. Nós merecemos!

31 de Janeiro de 2016.

FICHA TÉCNICA DO ESPETÁCULO: AUTO DO CORAÇÃO
Direção: Wlad Lima
Consultoria de Dramaturgia: Edyr Augusto Proença
Figurinos: Jeferson Cecim
Fotografia e filmagem: Alexandre Baena
Visualidade e Iluminação: Patrícia Gondim
Assistente: Bolyvar Melo
Projeto Gráfico: Breno Filo
Produção: Zê Charone e Cleide Quadros
Estagiária de produção: Dani Cascaes
Participações especiais: Larissa Latif e Paloma Amorim
Parcerias Musicais: Carol Magno, Diego Xavier, Natália Matos, Gabriela Gonçalves e Daiane Gasparetto
Trilha Sonora Original e Direção Musical: Renato Torres

ELENCO
Sônia Alão, Sandra Perlin, Olinda Charone, Leila Barreto, Wlad Lima e Zê Charone


Realização: Grupo Cuíra do Pará


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

A Casa das Madalenas – Por Geane Oliveira

Credenciais da Autora: Graduanda em Licenciatura em Teatro UFPA; Participante do Projeto TRIBUNA DO CRETINO.

“Entre, divirta-se, beba, dance e assista! Usufrua do prazer que nossas Madalenas lhes oferecem!”. Esse era o convite da Casa das Madalenas.
Ah! Cabaré! Lugar de puta, de uma época em que se tinha orgulho de ser puta, período da Belle Époque.
Apresentação do cabaré: palco onde as Madalenas dançavam e ostentavam suas habilidades na cama, o escritório do dono do estabelecimento, um quarto onde ocorriam cenas dos encontros das Madalenas e um bar; nesse as vendedoras estavam atentas aos pedidos dos clientes (espectadores), qualquer pedido (três tipos de bebidas alcoólicas eram oferecidos) deveria ser pago, algumas poucas mesas e cadeiras estavam disponibilizadas aos “clientes” (espectador), o que deixava o público na expectativa do show.
Prostituta/Madalena o que vais me oferecer? As Madalenas dançam como me foi prometido no inicio, mostram seminus os seios e a bunda, bebem, choram e brigam. Mas continuo aqui esperando me sentir parte desse meretrício. Sou cliente apenas quando se trata de comprar bebidas, não participo do jogo. Estou para alimentar a cenografia, devo pedir minha bebida sem atrapalhar a cena. Começo a questionar qual a necessidade de colocar uma parte do público nas mesas e a maioria no praticável. O texto não é direcionado para quem está nas mesas – a quarta parede está bem estabelecida –, o público do praticável também é ignorado. E eu que achava ser cliente me desaponto. Me deixe entrar! Posso ser PUTA como você, ou uma cliente sedenta de prazer! A posição em que estou não me excita.

Sou puta
Quando uso a boca vermelha
Meu salto agulha
E meu vestido preto.
Sou puta
Mordo no final do beijo
Não fico reprimindo desejo
Nem me escondendo na aparência de menina.
Sou uma puta de primeira
Acordo as 6:30
Pego o ônibus debaixo de chuva
Não dependo de salário de macho
E compro a pílula no final do mês.
(Helena Ferreira)

Esta é a descrição da puta atual. Essa puta, luta por direitos e contra políticas de repressão. E tu Madalena que vens da Belle Époque, não vais dizer nada? Tu me conta apenas a história de um período do meretrício de Belém sem associá-lo ao contexto atual, deixando o espectador em uma camada rasa, seduzido com a história, mas podes não produzir uma reflexão critica de sua realidade. Tu fizeste acreditar através da disposição de palco que sou cliente, logo descubro que não. Então esperei teu discurso, mas nele tu não abordas a luta das putas atuais, não defendes e nem mesmo acusa tuas companheiras. O que querem as Madalenas? Tu prometeste muito, as pré-liminares me agradaram, mas não cheguei ao orgasmo.

Madalena tu és PUTA ou boneca inflável? 

Geane Oliveira

16 de Dezembro de 2015.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Tenso como a batida do tambor. Suave como as brincadeiras de roda. Quem é essa GEMTE-Demônio? - Por Edson Fernando

Credenciais do Autor: Professor de Teoria do Teatro da escola de Teatro e Dança da UFPA.

O primeiro contato parece costumeiro e pouco revelador: sete jovens de estatura mediana (quatro homens e três mulheres), franzinos – em sua maioria –, gente que traz no corpo os traços miscigenados de origem indígena, africana e européia; o tambor, com traços de cerâmica marajoara, destaque-se entre os instrumentos e compõe a paisagem visual, em forte alusão a cultura amazônica; tudo indica apenas mais uma intervenção artística em louvor aos orixás e as matrizes afro-amazônicas que aqui se estabeleceram. Os primeiros toques do tambor não inauguram nada que possamos identificar como novidade, salvo o advento do rito que tem seu início naquele instante. Num breve lapso de tempo o eco tímido do tambor opera a transfiguração do lugar, da paisagem e, fundamentalmente daquela gente simples que agora se vê envolvida, ou mesmo instala em si, a atmosfera do sagrado. A sonoridade convoca as vozes dos seis recém-iniciados que, rompendo o silêncio inicial, entoam o pedido de abertura dos caminhos; uma espécie de transe primitivo lhes dilata os poros, expande suas mentes e, com o passar do tempo, me esmaga na cadeira. Não os reconheço mais, pois suas identidades cotidianas ficam em suspenso e deixam fluir o autêntico demônio – na acepção primitiva, aquele que tem acesso a uma luz transcendente, uma espécie de “iluminação superior às normas habituais, permitindo ver mais longe e com mais segurança” (CHEVALIER, 2007, p.329) – que lhes habita. É uma nova espécie de gente que me confronta: GEMTE-Demônio capaz de colocar em perspectiva de forma arrebatadora valores culturais, crendices e manifestações populares, espiritualidade, ética e arte; GEMTE-Demônio que não pede licença para rasgar os alicerces de nossas certezas narcísicas e logocêntricas; a eles não cabe o sussurro terno, mas a vociferação; a estupefação no lugar da epifania mansa; o urro incontido de dor voltando-se contra a opressão dissimulada, contra o preconceito velado e asqueroso; como dançarinos suicidas à beira do abismo, essa GEMTE-Demônio convida a bailar, Dança-Cruel para triturar os órgãos falidos da cultura; mas também brinca de roda essa GEMTE-Demônio, afrouxando o arco voltaico no momento exato de saturação do pólo oposto e, então, de suicidas dançarinos se transportam, sem cerimônia, para a dimensão dos gêmeos Cosme e Damião, momento lúdico do folguedo do boi e da contação dos causos. Quem é essa GEMTE-Demônio que assusta e encanta, brinca e pune, afaga e machuca celebrando a vida sem abrir mão dos ensinamentos da dor?
Parte destas questões encontra solução simples se perguntarmos quem são os realizadores da montagem teatral intitulada “Da cabeça aos pés”. Trata-se do GeMtE – Grupo Experimental de Teatro. O grupo já soma seis anos de pesquisas voltadas à montagens teatrais marcadas pelo desejo de aproximação do teatro com as linguagens da dança, artes plásticas, performance, música e audiovisual. Em “Da cabeça aos pés”, este projeto efetiva-se, particularmente, pela excelente trama envolvendo dança e música. A direção da obra, e também do grupo, é assinada por Keila Sodrack, atriz que já dividiu o palco comigo, há tempos atrás, e que agora apresenta um sólido e consistente trabalho de direção teatral. Sodrack brinda-nos com uma obra livre de excessos formalistas que, via de regra, tende a aprisionar projetos desta natureza ao experimentalismo fortuito e gratuito. Sob a batuta da diretora tudo parece milimetricamente calculado e planejado: a movimentação precisa dos atuantes, as canções, a visualidade dos poucos adereços cênicos, o palco vazio, a não linearidade das cenas encadeadas de modo a valorizar o efeito de clímax em determinados momentos – muito particularmente na passagem da cena da negra Anastácia para a, imediatamente posterior, cena que retrata o folguedo do Boi Bumbá – seguido do necessário relaxamento da curva dramática da montagem. Este último elemento é o que mais se destaca merecendo atenção e louvor, pois demonstra um apurado trabalho de direção tanto no trato de cada parte da obra – isto é, um olhar sensível para tencionar o necessário em cada cena – quanto no trato do todo – isto é, um olhar sensível para ajustar as diversas partes num todo coeso e vigoroso.
Outro elemento que impressiona e traz satisfação é o modo como Keila dirige a montagem indo ao encontro da fundamentação teórica que alicerça a pesquisa, isto é, o universo das encantarias afro-amazônicas sem, no entanto, incorrer numa linguagem hermeticamente voltada para os iniciados nas manifestações afro-religiosas. Certamente há na montagem teatral uma série de códigos e símbolos que somente podem ser lidos por aqueles que conhecem ou vivenciam a prática dos terreiros afro-religiosos. Não é o meu caso. Sou absolutamente ignorante nesta matéria, não sabendo identificar nem mesmo uma das divindades mais cultuadas nestes terreiros, Yemanjá. Lamento a ignorância e reconheço que, em certa medida, ela é fruto de uma bem sucedida estratégia de perseguição a estas práticas religiosas, estratégia esta que se encontra impregnada na educação brasileira, infelizmente, ainda hoje. A questão que merece destaque, contudo, encontra-se no fato da montagem fundar sua potência criativa no universo das encantarias afro-amazônicas, mas não se limita e nem se esgota somente nelas. Elas são – as encantarias – por assim dizer, o trampolim que permite dar o salto para articular questões universais, nos atando àquilo que ainda nos torna membros de uma mesma comunidade: nossa humanidade. Nesta instância, o olhar não persegue mais os códigos de origem e sim a operação alquímica efetuada por esta GEMTE-Demônio em cena. É isto que me prende, fascina e assola.   
Estamos, portanto, tratando agora do campo em que a direção pouco pode fazer para colaborar, salvo observar atentamente e cuidar para que o sagrado não seja profanado pelos deslizes formais da montagem. Falo da alquimia efetuada pelos sete atuantes em cena a partir do que identifico ser um processo antropofágico estabelecido entre som e movimento. De um lado temos seis atuantes repletos de vigor e pré-expressividade – Alice Alves, Andrey Sales, Ca Brito, Nana Alcoforado, Wagner Guimarães e Yuri Granha; do outro o atuante-percussionista Diego Vattos construindo uma poderosa atmosfera sonora. Inútil e desnecessário dizer qual das partes é indutora do processo, pois há na verdade um ponto de convergência brutalmente marcado por um impulso antropofágico no qual vemos o som devorando os atuantes, mas também os atuantes devorando o som numa retroalimentação sem início e fim determináveis. Assim, a intervenção sonora da percussão intensifica e relaxa cada momento da montagem, mas também é intensificada pela dilatação pré-expressiva dos seis atuantes. Esta é uma das chaves da operação alquímica oferecida por esta GEMTE-Demônio.
Os atuantes merecem créditos também por não enveredarem, em nenhum momento, para uma representação mimética dos papeis cênicos que desempenham. Depois de instalar um espaço genuinamente liminar no palco, não há nada a ser representado; tal como pretendia o visionário francês Antonin Artaud, o que nos é oferecido no palco “é a própria vida no que ela tem de irrepresentável” (DERRIDA, 1995, p. 45). É nesta perspectiva não representacional que a montagem ganha ainda mais vigor ao não se deixar envolver por armadilhas recorrentes que, invariavelmente, ocasionam a simples reprodução da espetacularidade dos ritos. Não acredito nesta via, pois o rito não presta a imitações espetaculares, se vivencia fenomenologicamente.   
Feitas estas considerações arrisco uma reposta acerca dessa GEMTE-Demônio: é o tipo de gente que mantém filiação com a tradição dos dançarinos metafísicos balineses, com o dançarino epilético mexicano proveniente das terras dos índios Tarahumaras, ou ainda com o autêntico praticante do atletismo afetivo. Esse tipo de gente me encanta, pois possuem a nobre arte de nos fazer gritar. E em meio à letargia reinante precisamos muito dessa GEMTE-Demônio provocando gritos de dor, alegria, angústia, indignação, horror, afeto, tristeza. Precisamos reaprender a gritar.  
Edson Fernando

14 de Dezembro de 2015.