domingo, 20 de setembro de 2015

Trunfo – O Jogo. Por Geane Oliveira

Geane Oliveira: Atriz Graduanda em Teatro / UFPA.  

Onde vamos jogar? O cenário nos convida ao picadeiro instalado na sombra de uma árvore que compõe a paisagem da Praça da República, em seus galhos estão aparelhos de acrobacias aéreas: lira, tecido aéreo e trapézio. Vamos começar!Três viajantes vêm ao centro do picadeiro através dos aparelhos, o texto das atuantes é um convite para uma viagem, essa terá seus rumos decidido através do jogo de cartas do tarô, onde cinco são escolhidas pelo público.
É neste lugar e assim que o Projeto Vertigem apresenta seu processo de experimentação, onde encontro liberdade para meus devaneios, os quais se deparam com dois elementos que considero importante destacar: o texto e as partituras corporais. O texto é fragmentado dando assas a viagem proposta no inicio da apresentação, o espectador não está preso a construção lógica da cena mais se permiti fruir através das palavras. As partituras corporais vêm carregadas de movimentos da dança e do circo, com ritmos e fluxos diferentes, formando imagens que também estão para ser fruídas.
Não encontro fragilidades quando analiso esses elementos de forma separada, porém no encontro de texto e partitura há fissuras, e estas enfraquecem o jogo entre as atrizes. O texto fragmentado não causaria incomodo se tivesse apenas que ser dito, porém tenho em cena um corpo cheio de vigor e por vezes distorcido nos aparelhos de acrobacias, mas não há um aproveitamento deste estado alterado na exploração do texto. Encontro imagens nos aparelhos acrobáticos que com a sonoplastia e a iluminação transportam a apresentação ao universo da dança, e quando isto ocorre é compreensivo. No entanto, minha inquietação ainda está quando tenho a partitura e texto tentando compor as cenas, sinto uma distância entre esses elementos de forma tão visível que o jogo perde o ritmo. 
Essa experimentação presenteia seu público com o visual, mas acredito que seja válido experimentar além da estética. Sou convidada a um jogo que não tenho participação. Logo espero das jogadoras destreza com os elementos que compõe o jogo.

Esse é o jogo da experimentação, Trunfo!
20.09.2015 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Decifra-me E te devoro - Por Silvia Luz.

Silvia Luz: Atriz e Professora Mestre em Artes pelo PPGArtes/UFPA.

“O Homem é corda distendida entre o animal e o super-homem: uma corda sobre um abismo; travessia perigosa, temerário caminhar, perigosos olhar para trás, perigoso tremer e parar.” Nietzsche “Assim falou Zaratrusta”, 1883

Evoé é uma peça de teatro dirigida por Alexandre Luz, uma adaptação da obra As Bacantes, de Eurípedes. O que marcou a apresentação numa consideração nietzschiana é justamente os conceitos de Apolíneo e Dionisíaco, o bem e o mal, o sofrimento e alegria, a morte e a vida. Na Re-criação a luta entre contrários cria uma nova síntese, uma nova percepção.
Na entrada da boate Vênus algumas pessoas conversavam, fui abordada por um travesti e uma garota de programa, ambas me deram as boas-vindas. Fui ao caixa paguei a entrada e me ofereceram o cardápio do espaço. De repente surge uma figura extrovertida e engraçada pedindo para que nos organizássemos em duas filas: monas e bofes. Disse-nos que era proibido fotografar, filmar e a entrada de menores de 18 anos. Neste mesmo ambiente tem uma senhora cadeirante vendendo bombons, pelos trajes creio ser uma prostituta aposentada.
A figura extrovertida era o apresentador da boate, estava acompanhado de duas pessoas o Tijolo, o segurança da fila dos bofes e Marilda a segurança da fila das monas. Eles recebiam os tíquetes de entradas e nos convidavam para usufruir de todos os prazeres inimagináveis.
O cenário, ou melhor, uma boate, uma proposta de realidade, indício do naturalismo, segundo Patrice Pavis (2008) “a representação naturalista se dá como a própria realidade, e não como uma transposição artística no palco”. Havia uma coerência no espaço cênico; ao atravessar o espaço observei as mesas e fui sentar no banco ao lado do balcão, fui atendida pelo Valdemar. No bar haviam placas com os preços das bebidas e o melhor de tudo: bebemos de “verdade”! A cerveja geladíssima somente R$ 5,00. Comprei uma que estava “bunda de urso”, no ponto, o primeiro copo desceu como um veludo. Senti-me à vontade, nem parecia estar numa apresentação de teatro. Essa sacada foi fantástica, as jovens circulavam pelo recinto assediando os espectadores e algumas eram apenas garçonetes.
Outra sacada de mestre foi a solução para a manipulação da sonoplastia e iluminação, atrás do balcão estava Marilda (Vanda Lopes), a segurança, fazendo a condução da caixa de luz e o Alexandre, com um personagem que não lembro o nome, manipulando a parte da sonoplastia. Enquanto saboreava a bebida e o amendoim que foi grátis, o espetáculo rolava. Casa cheia, galera animada, apresentador eufórico, dono animado e dois elementos enchendo o saco: Miranda e sargento Tadeu.
O show na boate Vênus começa com a apresentação dos pratos do dia: Putas. Estas faziam striptease durante o show. A trama se dá com um homem chamado Mr. Johny que viveu muitos anos fora do Brasil, retorna com o intuito de vingar a morte de sua mãe, que fora assassinada pela família de Carmo, um cliente antigo da boate. Um jovem de modos afeminados, talvez, transexual. Chega em Belém nos anos de 1980 e assume a direção da boate Vênus, situada na feira do Ver-o-peso.
Assumir a direção desta casa já fazia parte da vingança traçada por ele contra o sargento Tadeu e sua família. O conflito entre Mr. Johny e o sargento Tadeu é o âmago dessa tragédia.
As Putas
As putas, o prato principal da boate, eram as meninas de Mr. Johny, as próprias bacantes, adoradoras e praticantes das orgias mais inesperadas e abençoadas por Baco, ainda tímidas, porém corajosas. Neste dia serviram três pratos: Michele Bang-Bang, (Caroline Dominguez), Ágatha Rabo de Peixe (Ivna Lamart) e Soraya Furacão (Vivianny Matos) e duas sobremesas: Moniky Albuquerque (Bonelley Pignatário) e Megara Ciccone (Lennon Bendelak). A performance de Moniky e Megara deixou a desejar, acredito que faltou a entrega, manifestar o lado dionisíaco, que estava dentro de cada uma delas. As Putas, ainda não totalmente à vontade, conseguiram conduzir a performance até o final, aplausos à elas. O conjunto da obra é um ensaio para um bacanal.
Sargento Tadeu e Mr. Johny
Na tragédia dionisíaca Tadeu poderia ser Penteu primo-irmão de Dionísio (no caso Mr. Johny). Em determinado momento os dois se enfrentam de modo clássico, embate entre a moral e o bacanal, onde o sargento zela pela moral e bons costumes. Nessa cena ficou notório a não propriedade do texto dramático. Corroborando com Patrice Pavis (2008) a tendência atual da escritura dramática é reivindicar não importa qual texto para uma eventual encenação. As palavras titubeavam na boca dos dois atuantes, e os “caralhos” ditos várias vezes sem entonação, os famosos cacos, não deram conta deixando o espectador a mercê dos encantos das putas que circulavam no espaço, em vários momentos do diálogo entre eles algo falava mais alto, ou a sonoplastia com músicas coerentes com tudo que estava acontecendo ou a naturalidade de algumas meninas e até mesmo a cerveja estupidamente gelada. Nesta cena Mr. Johny tendo tudo arquitetado, convence o jovem sargento a ficar na boate, para ele ver que o lugar não tem nada do que diz e que suas meninas lhe tratarão muito bem. Ele hesita, pois está fardado, porém Mr. Johny lhe dará outra roupa para vestir.
A vingança
O sargento tentado pelo desejo aceita o convite. Mr Johny impõe a condição de vesti-lo com uma roupa especial, um disfarce. Em outro momento volta com um casaco, máscara e totalmente embriagado rodeado de putas. Tudo estava pronto para a concretização da vingança.
É Ágatha a própria mãe, quem lhe serve o doce vinho da luxúria e da morte. Posto em uma cadeira, rodeado de mulheres começa a orgia, mulheres seminuas o apalpam e são apalpadas, uma delas tem seu seio chupado levando seus mamilos ao êxtase, beijam-se e inclusive sua própria mãe, que extasiada e embriagada não reconhece seu filho, pois o mesmo está mascarado.  Segue uma sessão de carícias e amassos, chupões até o sargento ficar totalmente nu; o bacanal segue e a plateia compactua. Tudo caminhava em harmonia, gestos, ações, sonoplastia até que surge uma cisão na cena. Em se tratando de As Bacantes – Evoé – um grito báquico, onde o êxtase é o equilíbrio, onde o ser humano sai de si, supostamente teria o deus Dioniso dentro de si – êxtase e entusiasmo – de onde deriva a condição do ser ator; aquele que se deixa possuir pelo deus, tornando-se – Outro.
O suposto rapaz em sua embriaguez de vinho e sexo, diante de peitões e peitinhos, bundas e vaginas, consegue manter seu pênis em verdadeiro estágio de repouso, agasalhado, surgindo talvez, o que chamo de apolíneo e o dionisíaco.  O membro não ereto quebra o suposto naturalismo proposto pela ambientação. - “O seu prazer é o nosso prazer”. Eis a questão: proposital, pudor ou censura?
Voltando a cena, de repente Ágatha derrama na boca do sargento o último cálice de vinho: o da morte. No meio da orgia ele cai da cadeira, êxtase? Todos olham para o corpo inerte no chão, silêncio! Gritos e risadas seguem a cena, quando Carmo entra e vê o corpo no chão tenta acudir e percebe de quem se trata, seu neto. Desesperado ele grita – está morto. Mr. Johny gargalha de felicidades, enquanto Ágatha ainda embriagada, ouve seu pai que faz perguntas para sair do delírio e tomar consciência do que fez. Voltando a si reconhece seu filho, morto por ela.

A desolação no espaço
Mr. Johny diante da tragédia brada o motivo de sua vingança, a morte de sua mãe, suas frustrações, traumas e por fim anuncia o fim da boate. Apagam-se as luzes e soam os aplausos.
O nu
A ousadia presente na apresentação é vital, mérito as atuantes que ficaram nuas no palco. Segundo Patrice Pavis (2008) “é difícil julgar o nu sem ser ou moralista, ou emocional e enumerar propriedades suas puramente estéticas”. Porque, o nu no teatro é diferente dos nus em outras artes, é feito na hora, aqui e agora, é um ser humano de carne e osso que está em nossa frente, o erotismo é inevitável diante de nossos olhos.
Sabe-se que o corpo nu nem sempre é erótico ou pornográfico, há uma coerência de significados, como no caso da cena do assassinato, onde o atuante estava nu e não exibia erotismo, pois era um corpo naquele momento designado à morte. O nu ainda é um antagonismo: o prazer e a dor. Na peça esse par antitético é presente. Somos apolíneos e dionisíacos – não se aceita sofrer, ninguém quer viver suas angústias, apenas fugimos de algo que nos machuca, será autodefesa? Hoje se tem medo do real, embora a normalidade atual é uma loucura assustadora. É necessário, segundo Nietzsche (1988) percorrer o caminho inverso, e ressaltar a importância de um resgate do Dionisíaco como forma de equilíbrio. Dionísio é o deus da falta de medidas e formas, da dor, da música, do sexo, da realidade tal como ela é – representada ou não por meio da arte.
Com muito prazer fui à boate Vênus e gostei.
Evoé!
Viva os outros Eus que se fazem presentes na embriaguez!!!

Silvia Luz
11.09.2015

Referências
PAVI, Patrice. Dicionário de Teatro; tradução para a língua portuguesa sob a direção de J. Guinsburg e Maria Lúcia Pereira. 3. ed – São Paulo: Perspectiva, 2008.
NIETZSCHE, F. W. Assim falava Zaratrusta. Trad. Alfredo Margarido. Lisboa: Guimarães, 1973
__________. A genealogia da moral (P. C. de Souza, trad.). São Paulo: Companhia das Letras, 1988.

MARIANI, Caio. Apolíneo e Dionisíaco. 2013. Disponível em: . Acesso em 06/09/2015, às 22:50h.

domingo, 30 de agosto de 2015

O espelho que reflete o Absurdo - Por Silvia Luz.

Autora: Silvia Luz. Atriz e Professora Mestre em Artes / PPGArtes/UFPA. 

Na portaria aperto a campainha nº 2 e uma voz pede para eu subir.  Subo e deparo-me com uma Dama vestida de preto. Agora, estou no segundo andar, um ambiente com pouca luz, sofás vermelhos e um retroprojetor que lança na parede frases diversas. A jovem desloca-se no espaço com uma taça de vinho e de repente puxa conversa com um grupo de pessoas que está no mesmo sofá que eu.
Pediu-nos para escrever uma frase no papel que estava em sua prancheta, escrevi a seguinte:  “O fim é o início de tudo”, a outra pessoa que estava ao meu lado escreveu algo sobre solidão e a jovem Dama começou a falar conosco sobre esse assunto, pois toda vez que alguém apertava a campainha, ela ansiosa corria, pois esperava duas pessoas e as mesmas nunca chegavam.
Ela nos convidou para adentramos outra sala, meus olhos curiosos percorreram o espaço e em seguida sento-me. Diante de nós está um objeto oval vermelho, que depois de aberto transformou-se em uma poltrona e tinha também uma tela de plástico aparentemente verde e por trás dela havia uma bancada com dois atuantes manipulando seus respectivos computadores, estavam com trajes neutros e máscaras, o curioso é que as máscaras eram estilo do Boi de São Caetano de Odivelas.
O que vi foi uma explosão de tudo, um “Absurdo”, uma revolução de linguagens. Foi surreal, disparatado, insólito. Imagens eram lançadas na tela e no espaço todo, senti-me às vezes num labirinto, era tudo muito confuso, imagens, vozes, sons... a loucura do mundo atual. Essas características são marcas do Teatro do Absurdo, o enredo, as personagens e o diálogo aos meus olhos eram sempre ilógicos, desatinados, sempre caminhamos em círculos e esse caminhar nos revela o de sempre, que estamos atolados na ausência de soluções para os seres humanos em nossa sociedade.
Os atuantes descreveram o espaço em níveis de 1 a 4, os espaços do Estúdio Reator. Os dois atuantes eram chamados de Homem 01 e Homem 02; a lavagem cerebral acontecia em 11 níveis, logo tudo é cronologicamente marcado, mas ao mesmo tempo psicológico e não linear.
Como a apresentação foi marcada pelos números, enumerei as cenas, sendo que a (des)ordem pode não ser exatamente como foi na apresentação, mas que atiçou um dos meus sentidos. A Cena 1 fala do círculo; que todos nós vivíamos num e, que dentro dele éramos felizes e seríamos protegidos. As cenas aconteciam em janeiro de 2015, julho e agosto de 2020, mais uma vez a cronologia presente.
A imagem do círculo foi projetada na tela verde, no ator, no espaço, na poltrona em todo lugar o círculo era visível. Na cena 02, o Homem 02 sentava-se na poltrona e ficava ao celular. Em outra cena – agora cena 03 – o Homem 01 lia um texto sobre sua vida, ele morava só e criava vários bichos, cobras, rolas, escorpiões, caramujo, peixes entre outros e alimentava todos apropriadamente quando ia dormir. Os bichos dormiam com ele, todos. Eram seis cobras e todas aninhavam-se em uma parte do seu corpo, a cobra 01 enrolava-se em sua perna direita e a número 02 na perna esquerda, recordo-me que uma aninhava-se em seus escrotos, sexo, pernas braços e os outros bichos abrigavam-se minuciosamente em cada parte do seu corpo, nada ficava sem animal, somente o peixe do aquário que o observava de longe, assim ele dormia em meio a companhia de todos eles e ao amanhecer seu corpo estava todo machucado.
Ao narrar esse texto o Homem 01 estava na bancada dizendo o texto, ao mesmo tempo que seu rosto refletia na tela verde e sua voz ecoava, era uma mistura inebriante e medonha, enquanto o Homem 02 diante da tela sentado na poltrona deliciava-se ao celular, o espectador via a cena da poltrona com o atuante de costas, nesse momento o Homem 02 assistia ou não o Homem 01 por meio da tela.
A cena 04 falava de uma lavagem cerebral que existia em 11 níveis, chego à conclusão que os círculos que nos aprisionam é a lavagem cerebral. Um dos círculos que aprisiona hoje é a internet e seus recursos, ao mesmo tempo que nos conecta nos afasta humanamente um do outro e isso é uma verdadeira lavagem cerebral, esta traz liberdade e felicidade.
A cena mais instigante é a Cena 05, a do espelho. O Homem ao se barbear ouve o espelho emitir um barulho. Assustado não acredita, mas o barulho se repete e isso acontece em vários dias, meses. Com o passar do tempo o espelho repete palavras ensinadas pelo homem, começa um possível diálogo entre eles. Nesta cena o Homem 01 está na bancada diante do computador atuando e sua imagem é refletida na tela, enquanto o Homem 02 está na frente da tela desmontando o que seria o espelho, que fora armado anteriormente pelo Homem 01, este composto de uma base de ferro e um suporte do mesmo material, sendo que o espelho era a poltrona vermelha, que em todo momento da apresentação refletia a imagem de um olho. O olho que tudo vê e nada vê.
O diálogo entre o espelho e o Homem 01 continuava e, em um determinado momento, o espelho começou a gritar: - Socorro!!! Socorro!!! E o Homem ficou assustado e não acreditava no que estava ouvindo. Não sabia o que fazer até que resolveu entrar no espelho e lá permaneceu, preso em seu círculo. Não quebrou o espelho pois seria um crime, preferiu aprisionar-se no espelho e encontrar a voz que saía do mesmo.
A apresentação é despojada de convenções, é arbitrária e imaginativa, foge a estrutura lógica do teatro tradicional. Remeto-me novamente ao Teatro do Absurdo quando é posto a existência humana sem sentido num universo governado pelo acaso. O que vi parecia reflexo de sonhos e pesadelos do Homem 01, mas uma aproximação com o Teatro do Absurdo, pois um dos maiores dramaturgos do teatro do absurdo, Eugéne Ionesco retratava assim os personagens que ele criava, não eram reconhecíveis; igualmente como Homem 01 e o Homem 02, assemelhavam-se a bonecos e isso foi pontuado por meios do uso das máscaras e roupa neutra, que curiosamente eram iguais ao vestido da Dama de preto; o diálogo é confuso e às vezes incoerente, remetendo-nos ao isolamento muitas vezes.
O que contribui também para isso foi o não entendimento do texto dito pelo ator Dudu Lobato que fazia o Homem 02, quase não entendia o que ele dizia, pouco volume de voz, devido a riqueza de sons e imagens a voz se perdera por alguns momentos e isso facilitou minha fuga para outro círculo, no caso o visual.
Percebo a linguagem da “peça” como híbrida, acredito que é a única linguagem que dá conta do que vi. Seria Performance Arte ou Performance Híbrida? Segundo Renato Cohen em seu livro Performance como Linguagem (2004):

[...] é impossível falar-se de uma linguagem pura para a performance. Ela é híbrida, funcionando como uma espécie de fusão e ao mesmo tempo como uma releitura, talvez a partir de sua própria ideia da arte total, das mais diversas – e às vezes antagônicas – propostas modernas de atuação. (COHEN, 2004, p. 108).

Trago os conceitos acima pois o próprio diretor e atuante da peça Nando Lima intitula seu trabalho como Peformance, então para promover o debate, que mutações são essas que a Arte sofre atualmente? Sabemos que é impossível uma definição única do que vem a ser se guiarmos pelas Artes Visuais, Teatro, Dança, Música, Cinema, ela pode ser multicultural, multimídia, mas tenho certeza que ela é criativa por excelência.
Essa mistura toda em determinado momento me entediou, mas pensei: “Não posso fechar-me no meu círculo, preciso quebrá-lo e chegar ao fim. Mas que fim?” Essa demora fez-me solitária e insignificante em minha existência, diante de tanta informação, cores, sons, imagens. Assim muitas vezes nos sentimos nesse mundo tecnológico e veloz. Essa velocidade nos aprisiona, cada um em seu círculo; estamos sozinhos com nosso celular e outros aparelhos eletrônicos, isso é constatado no início da apresentação, onde cada espectador faz um self com a atuante Pauli Banhos que aos meus olhos foi a Clepsidra, de Camilo Peçanha ou relógio de água do espetáculo - esse foi um dos primeiros sistemas criados pelo homem para medir o tempo. A atuante realmente estava naquele lugar, gostaria que ela encontrasse as duas pessoas que esperava há tempos.
A marca da apresentação, o tempo, àquele que já foi e o que já é, este tempo que em questão de segundos se esvai – o self já estava nas redes sociais –; essa rapidez nos aprisiona dentro do espelho, que pode ser qualquer coisa, nesse caso é a rede da internet, isso é uma lavagem cerebral, mas aceitamos, pois lá podemos ser livres e felizes.... Tu entrarias ou quebrarias o espelho?

Por Silvia Luz

30.08.2015

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Iluminadas lembranças entre sofrimentos escuros.

Autora: Louise Bogéa.
Servidora Pública Federal do Museu da UFPA.

Instalação Cênica “VISITA A CASA DA ATRIZ” – 2º movimento

Companhia Atores Contemporâneos

Apagaram-se as luzes da casa, convidando-nos a entrar. Rosas ao chão, vestidos pendurados no teto e lanternas pelos cantos: assim fora montado o cenário em apenas uma sala redonda, rodeada por portas e janelas. O pequeno público, sentado ao redor do círculo, assistia a cinco talentosos atores entre silêncios e repentinos barulhos de seus movimentos ao entrar e sair pelas portas, acompanhados por músicas francesas e instrumentais sinistros. A cena inicial fora marcada por batidas fortes em uma das portas, seguidas pela entrada de cada ator com objetos em suas mãos, constituindo um clima tenso, capaz de segurar a atenção dos presentes até o toque de uma música francesa, mudando o foco da cena para os vestidos acima de todos. Conflitos surgem entre os atores em forma de discussão, incluindo um momento romântico, com o sofrimento dramático enfatizado, em meio a desilusões e lamúrias. Apesar de um enredo pouco repetitivo, as falas foram merecedoras de aplausos, sendo elas realçadas a partir da clara divisão entre as atuações individuais. O tema central, ligado ao tempo, retrata as nossas memórias marcadas por sonhos, sendo mais especificamente abordado a partir do lar familiar, de onde viemos, e que nunca esquecemos, fazendo parte de nós. A peça se encerra com a entrega de um pequeno ramalhete de flores a alguns dos presentes, em agradecimento. Não tenho certeza se a intenção era a de fazer rir, mas, mesmo em um clima tenso e sinistro, alguns dos presentes estavam rindo como eu. Enfim, recomendo que visitem a casa no próximo fim de semana.
Louise Bogéa.
24.08.2015

terça-feira, 25 de agosto de 2015

De Vladmir e Estragon à Dama de Preto: No encalço de Godot. Ainda (?).

Autor: Edson Fernando.
Ator, Diretor Teatral e Professor de Teoria do Teatro da ETDUFPA.  

A interrogação proferida de assalto causou surpresa: “Eles vieram com vocês?”. A voz feminina, que não precisa se esforçar para ser sensual, é quem faz a inquisição. A pergunta em si não é o que gera a surpresa, mas sim o uso do pronome na terceira pessoa do plural: Eles. A espera agora é por eles. De imediato suspeito que, por algum motivo desconhecido, havíamos acreditado por muito tempo se tratar de apenas um, quando na verdade seriam dois – ou mais – os misteriosos e ilustres indivíduos dos quais se tem pouquíssimas informações – pra ser exato, somente se sabe o seu nome, Godot – mas em quem depositamos enorme esperança. Godot(s), talvez uma porção deles para nos fazer acreditar que ainda é possível algum fio de esperança.
Essa premissa, no entanto, foi se desfazendo na medida em que entro em contato direto com a Dama de Preto – a dona da voz que me recepciona na entrada – e, pra ser mais exato ainda, quando ela nos permite adentrar no seu universo paralelo. Mas até que isso ocorra efetivamente, a possibilidade dos Godot(s) me cerca e inquieta.    
O primeiro contato com a misteriosa Dama que resguarda a face usando um broche de cabeça com voilette é mediado pelo interfone; relação de contato indireto, o primeiro dos muitos contrastes – e por que não dizer, paradoxos – que serão construídos entre o real e o virtual. Depois da pergunta supracitada, hesito por alguns instantes até confirmar que “eles” estão em minha companhia – acreditando que assim, estabeleço com ela um imediato pacto com o jogo proposto; o portão é automaticamente destravado, permitindo o acesso à escada que levará ao encontro direto com a figura feminina vestida completamente na cor preta. Simpática e muito elegante, portando com altivez uma generosa taça de vinho, ela segue seu rito para com os recém chegados: conduz-me até sua mesa e providencia os ingressos para logo em seguida convidar-me a tirar uma selfie ao seu lado. O ambiente tem pouca luz com um globo espelhado distribuindo a iluminação por todo espaço; a sonoridade é composta por alguns jazz tocados ao fundo mecanicamente – jazz que lembram os bons e velhos filmes noir.
A Dama de Preto passeia pelo espaço – sempre altiva – e em meio às conversas triviais e cotidianas dos que ali se fazem presentes aproveita para pautar com naturalidade o tema que realmente lhe assola: a solidão. Embora com semblante aparentemente resignado, ela persiste na esperança de quê em alguns instantes “eles” cheguem, ou regressem para interromper sua imensa solidão. Mas logo constata que mais uma vez “eles” não comparecerão – pelo menos não naquela noite. Talvez por isso, mais uma vez, reste-lhe somente a alternativa de se recolher ao seu universo paralelo; para um lugar onde tempo e espaço simulam – ou dissimulam (?) – o encontro com “eles” e o encontro consigo mesma. As portas, então, são descerradas e somos convidados a procurá-los – ou nos procurar (?).  
Uma espécie de caverna escura se apresenta. Logo na entrada a direita, duas criaturas trajando roupas completamente pretas e luvas brancas observam desconfiadamente, àqueles que entram; a expressividade da face é ocultada por máscaras brancas de narizes pontiagudos – talvez as mesmas usadas por alguns personagens do Boi de São Caetano de Odivelas. São estes mascarados que quebram com a harmonia futurista dos elementos disposto no centro do espaço: um enorme painel translúcido, uma espécie de monólito totêmico constantemente atravessado por luzes e imagens que se confundem com os próprios mascarados que se encontram quase sempre atrás do painel; a frente do painel um módulo oval vermelho contrasta com todas as paredes escuras – o grande olho nervoso que vigia energicamente todos os visitantes. É necessário atravessar a caverna para encontrar os assentos; a Dama de Preto nos conduz e se acomoda ao fundo – na última fileira de assentos – posicionando na extremidade oposta aos mascarados – longitudinalmente. A porta se fecha dando dimensões gigantescas e soturnas ao lugar.
Imerso na caverna, resta apenas acompanhar passivamente o fluxo constante de imagens fugidias e multicoloridas que vão se avolumando bem a nossa frente sem que se possa capturá-las nitidamente ou mesmo processá-las numa linearidade confortante.  Oníricas, elas provocam nossa imaginação precipitando a mente para uma autorreflexão contumaz. O espaço/tempo é fracionado em dois: Janeiro de 2015 e Junho/Agosto de 2020; passado e futuro colocando em xeque a realidade do presente, questionando-a por meio de constructos criados a partir da potencia poética do círculo e do espelho, ambos tematizados tragicamente a partir da solidão; sim, a mesma solidão que ata os dois mascarados à Dama de Preto. Os três se encontram no mesmo lugar – a caverna – mas não há encontro; ou melhor, o encontro apenas ocorre no início da odisséia imagética quando os mascarados bailam descontraída e desajeitadamente diante do painel totêmico; parecem ter ciência de que o encontro só é possível no simulacro da virtualidade digital; encontro na condição de sombras, pois ao retirarem suas máscaras e revelarem suas verdadeiras faces, o vazio se abre entre eles e, então, novamente encontram-se fadados ao isolamento, ao desencontro, à solidão. 
Subitamente recordo novamente Godot(s) e, então, começo a desconfiar que a Dama de Preto espere na verdade por Vladmir e Estragon; não poderia esperar por Godot pelo simples fato de saber que ele nunca veio e nunca virá; pensá-lo no plural a esta altura me parece completamente descabido. A Dama de Preto encontra-se a espera, portanto, de quem já perdeu a esperança por Godot. Enreda-se desse modo, num ciclo vicioso que imobiliza a todos: Godot não virá não se sabe os motivos, mas ele não veio e não virá; Vladmir e Estragon também não poderão vir, pois embora tenham desistido de esperar por Godot, nada conseguem fazer diante da certeza de que “não há nada a fazer”.
Sentada ao fundo da caverna resta a Dama de Preto contemplar desoladamente apenas as sombras daqueles que há muito tempo cansaram de esperar, mas nada conseguem fazer para sair do círculo, pois reconhecem nele – o círculo – a proteção perfeita para lhes livrar dos males do real; renunciaram ao real refugiando-se no espelho da virtualidade digital. A única liberdade e felicidade possíveis depois da lavagem cerebral.
* * *
Enxertos críticos – Elementos Técnicos
Opção da Montagem: O experimento híbrido de linguagens proposto por Nando Lima desafia a reflexão crítica a pensar por lugares não convencionais para não incorrer num discurso categórico vazio de sentido, posto que ao assumir claramente a opção pelo hibridismo, o trabalho tenciona os elementos formais das diversas linguagens envolvidas operando radicalizações que nos desautorizam a analisá-lo pelas lentes tradicionais. Diretor e atuante na montagem À sombra dos homens ausentes ele define o experimento como Performance.
Articulação e abordagem proposta do Conteúdo: O contexto da situação, de alguma forma, me atou com a atmosfera da primeira peça de Beckett: a rua quase deserta, a recepção impessoal pelo interfone contrastando com a pergunta intimista sobre a vinda “deles”, os procedimentos de aquisição de ingressos intercalados com os selfies com os espectadores que vão chegando, entusiasmo e desalento oscilando subitamente no estado de espírito da Dama de Preto que nos revela pistas frágeis sobre como e onde “eles” estão, revezamento entre atuante e personagem (?) – hora Dama de Preto, hora Pauli Banhos. Somados, estes elementos instauram uma atmosfera absurda – características similares ao Teatro do Absurdo do dramaturgo e poeta irlandês – tal qual a vivenciada por Vladmir e Estragon na deserta estrada rural onde se encontram, próximos a uma única árvore, esperando por Godot. A sucessão de ações dramáticas (?) dentre da sala de apresentação reforça o tema do sentido – ou o sem sentido – da vida sendo colocado na perspectiva das linhas de fuga do mundo virtual. Assim, esta foi a lente que me permitiu me aproximar da montagem para, então, discuti-la e repercuti-la.
Dramaturgia: A sucessão dos acontecimentos que se passam na sala de apresentação segue a forma épica: independência e autonomia entre os quadros, ênfase na figura do narrador, parábolas divididas e situadas em duas esferas de tempo: o ano de 2015 e o ano de 2020. Tal divisão permite potencializar o gênero oposto, o dramático, pois embora a proposta seja claramente delineada no gênero épico, há fortes elementos que invadem os quadros, intensificando e corporificando uma espécie de “drama” universal que assola a humanidade e que se encontra diretamente ligado a nossa relação de dependência existencial com o mundo virtual. A cadeia estabelecida entre o intervalo de cinco anos que separa cada conjunto de quadros nos permite estabelecer o fio condutor para um desenlace trágico ao final da montagem. Desenlace trágico, mas curiosamente sem clímax – fruto é claro da estrutura eminentemente épica da montagem. As narrativas desenvolvidas em alguns quadros – fundamentalmente os narrados por Nando Lima – me dão a impressão de um texto forjado no processo criativo, no calor da experimentação da sala de trabalho; narrativa que nasce dividindo espaço com as vicissitudes dos atuantes, diretamente ligadas à relação que cada um estabelece com o mundo virtual e tecnológico que nos cerca. Este traço característico de depoimento pessoal deixa borrado, desse modo, os limites entre ficção e realidade, entre fábula e autobiografia. A exceção é o vídeo inicial apresentado por personagens do universo virtual Second Life; aqui temos claramente a distinção entre o real e o virtual; curioso, pois parece que a intenção com este vídeo logo no início da apresentação era exatamente o contrário.   
Atuações: O caráter autobiográfico da dramaturgia libera os atuantes para desempenharem suas ações não pautadas pela composição de uma personagem. Isto vale também para Pauli Banhos, embora ela se encontre em situação diferenciada em relação aos dois protagonistas (?) da performance: seu espaço de atuação situa-se a margem dos acontecimentos; trata-se de uma marginalidade de espaço – ela atua fundamentalmente na antessala do Estúdio Reator – , mas também uma marginalidade de tempo, pois hora somos levados a acreditar que se trata de uma personagem que se encontra num tempo passado – a trilha sonora na antessala é o principal indício –, mas sua ação de descerrar a porta, adentrar e posicionar-se ao funda da sala de apresentação dá contornos extemporâneos ao seu papel. Atuando na antessala Pauli transita entre as ações triviais e necessárias de recepção do espectador e as ações do seu papel. Novamente temos borrado as fronteiras entre ficção e realidade, pois a desenvoltura natural e segura da atuante não nos permite definir categoricamente se a ação de tirar o selfie com os espectadores é parte da fabulação ou simplesmente registro da atuante para efeitos de publicidade da montagem nas redes sociais. De qualquer forma, Pauli domina bem este espaço, mesmo quando percebemos claramente que se trata da bilheteira da montagem. O mesmo não se percebe no desempenho de Dudu Lobato. O atuante parece não estar à vontade neste lugar híbrido de depoimento pessoal e atuação cênica. Assim, nos quadros que ele conduz à narrativa é perceptível um ritmo mais lento e com pouquíssima entonação de voz; a narrativa segue boa parte do texto em ritmo linear e com variações mínimas de interpretação; embora a visualidade e a sonoridade instiguem e componha o quadro, a falta de domínio técnico no trato com o texto compromete o andamento da montagem que nestes momentos se torna monótona e enfadonha. Em contrapartida, a atuação de Nando Lima é sui generis: sua desenvoltura em cena nos oferece um misto de ator e narrador, dando-nos o equilíbrio necessário para seu desempenho enquanto performer. Nando domina com maestria o espaço cênico, seja controlando os equipamentos eletrônicos, seja interpretando dramaticamente a narração dos textos de seu quadro, ocasião que imprime um colorido que nos captura a cada palavra, a cada pausa ou semipausa; Nando degusta as palavras, desvenda o texto mostrando-se intensamente em cada frase proferida, dando-nos a dimensão autobiográfica de seu depoimento com naturalidade. Consegue, desse modo, revelar-se sem necessariamente utilizar a composição de uma personagem, imprime drama em sua narrativa sem escorregar para a mera leitura dramática ou dramatizada. É a boa combinação dos elementos técnicos que permite a ele sobressair-se como performer.
Observação Final: o último quadro da montagem me instigou bastante, pois nele se problematiza sobre o lugar do real: Seguramos o espelho ou somos a imagem refletida? Na parábola de Beckett, Vladmir e Estragon diante da desesperança pela não vinda de Godot, resolvem que a saída é a forca, embora nenhum dos dois consiga realizar o feito ou realizar coisa alguma. “NÃO HÁ NADA A SER FEITO”, é a constatação da imobilidade em que se encontra o homem. Diante do espelho, o que nos resta a fazer: desejar a mesma forca de Vladmir e Estragon (imobilidade), estilhaçar o espelho ou encontrar nele o refugio dissimulado para todos os problemas? Até quando insistiremos na sombra de Godot? Ele não veio e não virá. Não estamos salvos, não haverá salvador e é necessário tomarmos uma atitude urgente.
Edson Fernando

25.08.2015 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Sintoni[z]a sensorial em Assim Seja... O Divino High Tech – e a sua redeoplastia silenciosa do som.

Rosilene Cordeiro: Atriz-performeira amazônida, realizadora de cena entre a urb e os rios da grande floresta. Icoaraci-Belém/PA. #terreiroeomundo 

Ao que me parecia, de princípio, era que se referia apenas ao convite para uma vivencia sensorial ao estilo experimentação, como é da alçada investigativa do renomado diretor do espetáculo, Nando Lima.  Experimentação, talvez, sobre a mesma sensação que busco recuperar aqui, ou não, diante da oportunidade de re-ouvir a composição em áudio proposta como trilha sonora do espetáculo[1], agora na condição de escriba, ao escrever esses rabiscos de memória falha e pontual. Sonoridade sem a qual, ao meu ver, essa empreitada perde todo seu viço memorial.
Sinergia labiríntica em ondas sonoras girantes como círculos em aspiral decrescente para dentro, para o fundo do mínimo, entre rumores contro_versos de uma saliência sonora inquietante. Talvez (reforço, talvez, eu diria e você entenderá mais adiante porque tanto talvez!) em busca de uma camada de lógica que seja, isso como um certo alívio pós-espetáculo; desses que inconsciente se faz ao término das peças teatrais, quando findos a leitura da ficha técnica e dos agradecimentos pessoais e institucionais como é de praxe.
De outro modo e não longe disso, observo a ab_surda exigência milimétrica consciente, essa  da escrita padrão, patronal do pensamento humano!
Converso comigo: “Ora, não sabes que tudo que é ouvido não pode ser des/transcrito em letras? E que toda escrita se presta ao assentamento dela mesma, depondo infalivelmente em seu próprio favor enquanto linguagem? E ao mesmo em que se registra, nesse ato supremo, se priva, se nega outra possibilidade dentro desse escrito fechado sobre ela mesma, ao menos que se abra em outras linhas essa adesão consentida?”
No entanto, esse é um relato de ‘ao contrário’, falível logo na entrada, questionável em sua validade, acusador de toda propriedade absoluta disso que chamo ‘minhas impressões’. Vai de encontro a tudo que se titule uno, definidor, verdadeiro, por assim dizer. É preciso que eu declare essa tentativa de corte com as convenções canônicas do verbo escrito, para inviabilizar qualquer julgamento precipitado futuro por parte do meu leitor acerca do que eu escrevo. Porque escrever sobre sensações é demasiado grande para mim! Mas aqui me presto a isso, logo, me arrisco.
Era 28 de junho, 20h20’, em Belém do Pará, num espaço relativamente novo a mim “Da Tribu”, seu nome, localizado no centro da noite na cidade, no dia de Pedro, o São Pedro de junho, embadeirador de mastros, maestro de bandeirinhas coloridas no céu vazado, o que também se assistia no espaço anterior da sala que se emprestou ao espetáculo que tinha no elenco um duo de atores, já veteranos da cena artístico-teatral da cidade de Belém: Maurício Franco e Sandra Perlin.
Estive no último dia de audiência da segunda temporada do espetáculo teatral Assim Seja... O Divino HighTech (ou o inverso, isso em nada alterando-o, por certo! O nome é bastante inquisidor) um espetáculo sonoro, de muitas palavras mudas e um inaudível óbvio inebriante de falas interiores, sucedidos por óbitos de cenas aparentemente caçadoras umas das outras.
A experiência me conduziu por uma trilha gestual silencio - ruidosa sem fim. Dois atores em cena, dois amigos e cúmplices de longa jornada artística teatral (quiçá ancestre, talvez! Porque é clara para quem os conhece, o jogo previsível e brilhantemente  combinatório desses que já dividiram muitos palcos e inúmeras temporadas ao lado um do outro). Ante seu público, naquela noite ralo, porém comprometido, acomodado à boca de cena num espaço favoravelmente íntimo e intimamente violado pela assistência visual instaurado àquela hora de angústia e poesia.
Uma ladainha à São João? É isso que ouço ao longe? Rastros, sonoplastia sinistra a nos raptar para o fundo do ouvido... e quanto mais entramos no ouvido, tão mais o corpo se declina para a frente em busca de uma espécie de pão que alimente nossa fome curiosa pelo ‘que se diz’. Talvez resolvido por um simples barulho reconhecível de pacote de biscoitos...talvez!
Em alguns momentos sinto que a casa nos lê em cena, dentro de dentro, como livros revirados, como expectantes arredios tragados pra dentro da ‘casa’ e lá esmiuçados em partículas cada vez menores, sendo unicamente nutridos pela bolsa (objeto cenográfico) que não cessa em oferecimentos como preces vindas da alma. Visualmente, como cães famintos pelos olhos nos encontramos à beira exata do osso, do único e ampliado osso que se oferece a nós, a cena: de um que serve, de uma que é servida e de todos sedentos esperando o ‘próximo prato’.
E é sobre visualidades, audiências, sensações e interações reais e oníricas que se dão esses bailados vibrantes em ondas tecnomagnéticas sugestivas de fugas de dois atu_antes -ou três, ou muitos- a dividir os uivos de colina da hora ausente.
E onde estamos? Que lugar é esse? Quem são esses que dividem comigo a sede, a fome, o grito, o sussurro, a montanha e o fosso? “Nenhuma voz em meu auxílio!”
Um trabalho sonoro coletivo à medida que reinventa a palavra nas coisas, em que cria hipertextos narradores de um ‘onde’ não localizado, de um tempo preciso na imprecisão das inúmeras divagações [in]possíveis e inventadas para nos agarrar em algo palpável, que nos salve do abismo de nossas certezas.
Mas, onde estavam as opções que o release assinara que eu teria? E por ventura, não é um release, já, em si mesmo, um encaminhamento ‘a pedra no meio do caminho’, ‘um ter por onde ver’ o espetáculo? O mínimo imediato que guia a lupa do ‘comecemos por aqui’?
Só que eu não me quis ver! Eu recusei a lupa.
Muito provavelmente, nesse momento, o instrumento mais apropriado fosse o fone de ouvido! E era. Eu estava ali para ler o silencio da vista e interpretar os sons distantes e confusos da minha real_idade vencida pelo relógio cênico.
“Está doendo demais, a falta que você faz!”... (ao fundo, de fundo turvo, desajeitado e torto, confundindo-se propositalmente com outros ruídos e vozes) nesse longe-perto-dentro-fundo ouvia-me, a mim mesma, gritando em coro com o Roberto Carlos. Que doido! “Sua estupidez, não deixa ver que eu te amo! Meu bem, meu bem...”
Não, senhoras e senhoras, eu não estava enlouquecendo! Sentia-me de volta ao que parecia um lugar que vou chamar de casa, ao quarto, à sala, visitando a cozinha e alojando-me, confortavelmente, no depósito das minhas frustrações e aspirações guardadas. Uma casa, uma nave, um porão, o céu e o inferno que eu nunca vira, mas que me pertencia por completo. E eu estava ali, em cena, desmanchando-me em cada gesto dos atores, em cada respiração de cada espectador.
Poemácias em coro como cachoeira ou erva daninha se alinhando no vazio em que vez o outra me surpreendia suspensa e imóvel. E as leituras advindas propunham interpenetrar nossos abismos existenciais, isso para quem o quisesse fazê-lo. Eis-me, novamente, frente ao estado de platéia!  No alto do pico afunilado para o alto de minhas prementes indagações sem eco, rasgando o infernal divinizado de mais e mais especulações sem tréguas e o vazio. E a eminente queda logo mais adiante. E as vozes em ruídos e música se avolumavam: Todo o tempo é de poesia. Desde a arrumação do Caos à confusão da harmonia,  sussurrava- me o poeta Antonio Gedeão.
O texto versa sobre amores, fugas, dissabores, organicidade, rejeições, fluidos, reclusão, ranhuras, sombra e apelos sinestésicos emparedando-nos numa câmera em que o ar, imperceptível e totalmente sentido, virou aroma, tinha cor, pôde ser degustado na saliva escorregadia no rosto do ator.
Clássico e contemporâneo o tempo espetacular, nesse espetáculo, vai se esgarçando com o a sonoplastia proposta, se abrindo em gomos, potencialmente comestíveis e recusáveis, sob o esgarçamento de uma narrativa quente, adocicada pelo texto não oralizado.
Experimentalismo e técnica, maestria dual sob a batuta barulhenta de seu maestro conduzindo-os a uma liberdade onírica selam esta poética do tempo homilateral diante dele mesmo: ser diante do espelho cativando a própria sorte, desfolhando-a uma a uma como sua e a nossa sina re-tratadas pela arte.
Livro, óculos, chama, água, assento... assento, ruídos, risos e chama... passos, roupas (paramentos?), choro...recorrência musical, braços, pés, idas e vindas...e o som! Incomodativo, orgásmico e inquietante som.
O som em ondas... serpente dançante a celebrar o audível desconhecido. “Que cobra é essa que se enreda à própria cauda, introduzindo-se seu próprio veneno e deixando-se curar por ele? Que tal uma dança enquanto tudo se desfia? Uma viagem audiovisual onde tudo se acentua e o corpo nu da atriz se cola no tempo da nossa retina pendurando-nos na parede imagética do caos celeste que a sua pele nua nos impõe. Trama erótica, eu diria! Sim, porque o Maurício e a Sandra se conhecem muito bem para não precisarem omitir seus gestos em personalidades acomodadas e restritas ao qual alguns chamam ‘personagens’ e outros dirão ‘máscaras’. São sui generis, dão-se apenas. Sexualidades expostas, emoções digeridas a dois, vomitadas por outros.
Cuidados, não há senhoras e senhores, eu diria igualmente, sob toda sorte de errar do mesmo modo! Diante de mim o que li e leio são corpos em busca de si no outro, um no outro,  a reclamar o nosso para a carnificina gestual mais profunda do ato teatral. Estamos diante do banquete, onde degustamos e somos degustados! “E quanto idiotas vivem só sem ter amor?” o Roberto Carlos entra em som a assombrar-nos a dúvida maldita. E de novo a vida vem, em jato, inteirinha, numa única jogada, ejaculação na nossa cara que parece tudo conhecer. E aí eu me vejo a carne sobre a mesa...e eu sou o prato, e a servente.
O convite foi para um teatro na laje (acredito que uma alusão poética ao espaço cênico em uma laje, propriamente dita; um tetro que sobe uma escada, que se dá no andar de cima.)  E como dizer ‘desse átrio que entra e se afunda’ dentro dele? Que tira-nos a clareza da luz, a nitidez do som, a certeza de uma verdade sobre essas qualidades e coisas, do desejo de um sentimento leve ao de final do ato, sexual-teatral?
Masterização dos órgãos vitais em malha de tecidos finos, em lâminas quebradiças de imagens circunstanciais pueris, que vem e vão antes que as reconheçamos como nossas, e são! E assim, o todo vai se desnovelando, (re) afinando-se e diluindo-se em instantes de ilusão ótica que se vão como folhas ao vento, pelo sopro do tempo. Nada é o que parece. Fomos ordinariamente enganados! Ei-nos ao fim em que as escadas entregam-se aos atores e a penumbra nos enreda como peixes em curral.
“O que ficou de nós?” Fomos e voltamos. E ante nós a impiedosa crueza da infinitude do tempo É. E novamente o poema vem me assombrar:
“Em minha sepultura,  ó meu amor, não plantes
Nem cipreste, nem rosas; nem tristemente cantes.
Sê como a  erva dos túmulos. Que o orvalho umedece.
E se quiseres, lembra-te. Se quiseres, esquece.

E assim, Manuel Bandeira, outro poeta vem á mente e decide por mim. A minha única opção, de fato: lembrar-me para esquecer-te. De vez? E como? GAME OVER! THE END sem legendas.
E alguns prováveis outros fins. Retiro os fones. Vou-me em ondas.
OFF [...]


[1] Confira a trilha sonora do espetáculo disponível em https://soundcloud.com/nando-lima-22/dht

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Anarquia da arte.

Louise Bogéa: Servidora pública federal do Museu da UFPA.

A relação entre comédia e política marcou o espetáculo “No trono” do grupo “Os Varisteiros”, por meio da apresentação de um regime monárquico corrupto, representado por um rei carrasco do povo, sendo que o conflito da peça fora construído a partir de uma premente revolução contra o atual sistema. Desta forma, incluíram-se, durante o humor, grandes nomes políticos, e o público presente, por sua vez, atuou no enredo como o povo – fato responsável por até estender o cenário para além do palco.
Pretendeu-se, assim, realizar uma crítica sociopolítica e cultural, com ênfase em relação à gestão dos gastos públicos, por meio de uma boa atuação das personagens e de uma iluminação e sonoplastia de qualidade – esta comandada pelo “Juscelino Kubitschek”.
Ao final do espetáculo, comentou-se sobre as dificuldades enfrentadas pelos artistas em Belém – percebeu-se que o local da peça não pareceu adequado à arte teatral.
Há a necessidade de portas abertas – e baratas, de preferência –, os artistas, aos montes, instalam-se em qualquer lugar com tais características. Este ciclo, somado ao descaso do governo referente à profissão artística, resulta em uma desvalorização de si próprios enquanto profissionais; há, ainda, a pequena participação do público em geral – base de sustentação dos artistas –, estando a aceitação da arte enquanto cultura ainda longe de ser alcançada entre nós.
Ressalta-se que a falha de comunicação via artista-público e vice-versa causa o marasmo atual. E o marasmo político fora bem representado pelos detentores do poder na peça, porém, a causa do marasmo artístico vem do público e dos artistas. Foi como a nossa própria situação no espetáculo: participamos sentados. Mas seria possível uma reinvindicação artística? Quem a interessaria? No enredo proposto termina com a vitória do rei perante os democráticos.
A meu ver, o teatro não deixa de ser um meio de comunicação com um perfil conscientizador e civilizador – não diferente da própria crítica –, funções estas, essenciais, mas, frequentemente, substituídas por um humor não muito inteligente. E, durante o espetáculo foi, infortunadamente, o que aconteceu – talvez pela adaptação da obra original “O Palácio dos Urubus”, de Ricardo Meireles. Apesar de relacionar com a nossa realidade, o enredo da peça ainda retrata uma sociedade estranha, alheia, portanto, à nossa, fugindo da vida social local. Vale mencionar que o figurino das personagens interpretadas deixou a desejar.
Portanto, eu leiga, mas uma pessoa encantada pela arte faço um apelo para que, os com formação artística, revejam os resultados esperados por suas obras, que trabalhem em prol da transmissão de verdades e da construção de um futuro próspero à área. Fazer o público rir é bom, mas, quando é demais, não passa seriedade e vira uma brincadeira. Pois, estará, a dramaturgia, fadada à mediocridade de um humor deselegante?
 Pergunto-me onde estão os julgadores de uma arte inteligente e a censura das que sejam vazias e desvalorizadoras.                                                                                                         01.07.2015