sexta-feira, 8 de maio de 2015

Exercício de Esboço de Crítica a partir da obra Imagem-Mudança, de Ercy Souza


Decorridas oito semanas do início do curso de Crítica em Teatro e Dança os participantes entram numa nova fase de exercício de escrita, onde se apresenta o desafio de esboçar os primeiros juízos estéticos acerca da obra apreciada. Até então, foram dois exercícios de registro da recepção das obras apresentadas. A ênfase, nesta etapa inicial, recai no modo como os participantes descrevem o contato que tiveram com a obra, as impressões sinestésicas despertadas e as reflexões provocadas por meio delas. A nova etapa – o esboço da crítica - exige dos participantes conhecimento do escopo da obra para, então, dialogar com sua fundamentação teórico/poética apontando para o leitor-espectador o ponto de partida, as linhas de acesso e as conexões possíveis da obra apreciada.   
    O artista convidado foi Ercy Souza da Cia Moderno de Dança e a obra apresentada intitula-se Imagem-Mudança. Ercy nos brindou com uma apresentação instigante onde procura desenvolver e compreender uma metodologia para o processo de transcriação coreográfica. A obra é resultado poético de sua dissertação de mestrado defendida do PPGArtes ICA/UFPA.  A seguir, o exercício de escritura do esboço de crítica dos participantes do curso.
Esboço de Crítica de Silvia Teixeira
Voando em pensamento

E o pensamento tornou-se imagem rabiscada em uma simples cartolina, e por segundos a imagem passa a ser dissecada pelo homem que passou a observá-la.
           A leitura do fragmento poético apresentada pelo bailarino Ercy Souza da Cia Moderno de Dança, mestrado em PPGARTES/UFPA, é óbvia quanto para uma visão de representação, porém constituída de elementos externos e intrínsecos que a valorizam. Um dos elementos externos é o detalhe minimalista que se inicia pelas articulações das mãos e expande-se gradativamente ao longo do seu corpo ganhando expressões mais largas. E o segundo só pode ser visto a partir do conceito criativo da transcrição da sua dança.
Imagem-Mudança não se apresenta em sua totalidade como espetáculo de dança, e sim como uma performance híbrida que dialoga com teatro onde observo uma certa  relevância para este, fazendo-me confessar que se não tivesse uma base de conceito da dança contemporânea, espontaneamente assinalaria  a obra  como uma cena de teatro.
A narrativa é conduzida através de um homem que prostrado de pé no palco pensava, e ao virar-se de costas inicia-se a riscar com seus lápis de cores em uma cartolina. Seu desenho não era acessível ao público, mas riscava como se estivesse descarregando uma bateria elétrica. E confesso que isso me aguçava a curiosidade. Após a descarga elétrica do seu pensamento ele coloca a cartolina em uma cadeira e dirigiu novamente seu olhar e pensamento para uma obra concreta, sua própria arte. Então até a presente narrativa há uma cena de interpretação teatral. Em seguida, após observar e contemplar a obra feita por ele mesmo, o jovem começa a representar metaforicamente o ciclo da borboleta onde vejo detalhes de dança.
         Como disse anteriormente, é preciso conceituar a performance apresentada pelo bailarino, para não confundi-la como um monólogo teatral,  sua dança não compartilha de coreografias pré-estabelecidas,  é voltada para o caminho dos movimentos, onde o corpo estabelece sua própria dramaturgia, uma característica da dança contemporânea. Ao estabelecer sua própria dramaturgia, o jovem rapaz, apresenta-nos sua própria imanência onde o seu pensamento se fez imagem, onde a imagem que o pensamento significa pensar, fazer uso do pensamento, se orientar pensamento (Deleuze e Gautarri, 1922, p.47) transcrita em uma dança, compartilhando seus sonhos com o público. A dança imanente é uma característica conceitual do grupo de dança da qual o intérprete é integrante.
Aos primeiros passos da recriação da obra oriunda do pensamento, já era pintado aos olhos do público, onde ao término do espetáculo, o homem reafirma abrindo a cartolina onde havia uma borboleta de multicores. Cores de borboletas que com certeza muito antes de pensamento, este jovem já havia dissecado por tantas vezes em voos que permeiam seus pensamentos.

Esboço de Crítica de Andrey Gomes
Romper o casulo: Imagem – mudança
DESTINO: TODO O ESFORÇO É NULO SE A BORBOLETA – NÃO ROMPE O CASULO .(Alonso Rocha – haikai)
A sensação: acompanhamos o mistério da criação dito por uma linguagem esquecida; esquecida, mas imanente em vida. Som, imagem e corpo pulsam em conjunto, coreografando o ciclo existencial de uma borboleta.
Justifico a alusão ao haikai – o minimalismo reveste a performance de Ercy Souza dentro da proposta de transcriação em dança. A obra começa com uma cartolina branca ao chão, onde o autor se põe a desenhar (ou riscar) figura não identificável de imediato, a partir disso, o mesmo senta e contempla sua criação, um “segundo ato” do processo se inicia e somos conduzidos pela música cênica a um peculiar jogo metalingüístico.
Investigar o repertório corporal é um dos elementos sugeridos por qualquer técnica formal de dança, entretanto, a dança imanente não quer apenas isso, quer infusão! Assim como na vanguarda cubista, a obra é concebida para terminar na subjetividade coletiva; recria-se o ciclo evolutivo de uma borboleta e sua reconstrução permanece para além do palco. Há interação de linguagens e o resultado é quase cinematográfico, a metamorfose do inseto é transfigurada em movimento, mas isso é o que menos importa.
Interagi com a mesma instabilidade quando assisti a “Blow- up “ de Antonioni.  A cena final com os mímicos me pareceu desmembrar todo o mistério que permeia o filme – e não seria revelador contemplar uma larva que ganha asas e voa? O processo é mais importante que o produto? Aqui não se trata de “arte pela arte”, mas de eixo investigativo, não há cenografia ou iluminação, mas um ato criador sendo realizado no palco, e não fomos preparados para isso.
O resultado: pretensioso para alguns, o estranhamento é compreensível quando somos conflitados por uma linguagem que esquecemos.  Erich Fromm nos diz que a linguagem simbólica constitui a única linguagem universal da raça humana e naturalmente manifestamos atitudes e sentimentos por movimentos e gestos – deveras o corpo é um símbolo, a emoção sentida genuinamente manifesta-se em todo o nosso corpo. Imagem – mudança não só é um estudo a cerca da dança imanente, mas também uma reflexão, um reeducar do olhar necessário para compreendermos, ou melhor, contemplarmos o mistério de criar que oculta o insumo de vida transcriado em movimento.

Esboço de Crítica de Emanuelle Araújo
A borboleta que voou sem sair do chão
A obra Imagem – Mudança interpretada por Ercy Souza, nos remete ao ciclo de vida da borboleta, em que no primeiro momento o artista desenha algo em uma folha de cartolina, de costas para a platéia, não revela a sua pintura, ainda mantendo sua obra pintada oculta do público, mas, enfim de frente para a platéia a mudança através da imagem acontece, ele sentado encarando a folha, inicia sua transformação, primeiro movimenta uma de suas mãos até a outra como se fosse uma lagarta logo em seguida a lagartinha se “entoca” no seu casulo para depois sair uma borboleta que voa até entrar e fazer parte do ser do artista que dança não como se fosse uma borboleta mas sendo a própria, com movimentos que lembram as fases da vida deste inseto, primeiro sendo uma lagarta depois se transformando no casulo para enfim ao som de uma música suave, agradavél e ao mesmo tempo triste, a borboleta aparece, não sai do chão, mas parece voar livre e assim ao fim de sua apresentação o artista nos revela sua pintura, quatro círculos coloridos e juntos formando uma borboleta que voou sem ao menos sair do chão.
Esboço de Crítica de Louise Bógea
Ao sermos introduzidos à “dança imanente”, percebe-se que há uma fuga das técnicas formais já propostas pela dança contemporânea, e, na obra “Imagem-Mudança” de Ercy Souza, esta fuga dá-se através da relação de imanência homem-borboleta, revelando um desejo de liberdade do seu próprio corpo, transformando-se no inseto. Posso dizer que foi interessante acompanhá-lo nesta mudança proposta na imagem, em todo o seu ciclo vital: do nascimento até, enfim, o voo. Ressalta-se que, neste nascimento, há uma escolha em relação ao seu destino, para que possa, então, lutar por ele e alcançá-lo. Ao final, quando o artista revela o desenho, colocando-o em frente à sua face, esperei que fosse vê-lo dançar em liberdade, mas se foi apenas, em andares calmos.

Em um trabalho similar, acredito que valha a pena assistir à interpretação da canção francesa “Fleur de Saison”, de Emilie Simon, onde a artista relaciona a sua vida com as quatro estações da natureza, disponível em https://www.youtube.com/watch?v=W3RUJ22Ca2k.


Esboço de Crítica de Silvia Luz
Dissecar-nos
A performance Imagem e Mudança realizada pelo bailarino Ercy Souza da Cia. Moderno de Dança traz para nós o que não sabemos, desvela as camadas da pele, uma imagem que conduz o corpo, mas qual? O meu? O teu? O nosso?
O bailarino entra no palco ao som de uma música instrumental e senta de costas para nós diante de uma cartolina e alguns lápis de cera, ali passa alguns minutos rabiscando círculos coloridos na cartolina, levanta-se com o cartaz na mão, vira-se e caminha em direção a uma cadeira que compõe o cenário, na verdade a cadeira fora um suporte para segurar o cartaz, depois disso se senta no chão diante do mesmo e o contempla.
A contemplação é o próprio corpo do bailarino, não o cartaz. De repente tudo se transforma a face conectada com os movimentos das mãos nos leva a uma viagem para dentro de nós mesmos, esse momento de introspecção me fez lembrar a dança Butô que foca em sua essência uma forma de expressão que não seja necessariamente coreografada, nem presa a movimentos estereotipados que remetam a uma técnica específica. Essa dança preocupava-se em expressar a individualidade do butoka, nesta performance isso veio à tona, o corpo surgiu sem máscaras e véus de alegoria; o artista era o próprio corpo. Ainda sustentada pela filosofia do Butôsenti que o bailarino desvelou-se ali, naquele momento, mesmo tendo que remoer as dores e sabores de suas entranhas. O butoka para expressar sua verdade não tem medo dos segredos do corpo, busca libertar-se das formas do corpo e do pensamento, essa verdade aconteceu diante de nós espectadores.
O corpo pulsava e explodira como luzes coloridas. Diante desse universo eis a metamorfose! O homem é a própria borboleta, mas que já fora lagarta e hermeticamente casulo e que agora voa em consonância com o tempo-corpo, tempo-espaço, tempo-música e tempo-espectador, bravo!!!

O corpo é a borboleta. Metamorfoseou-se em tempo real, o voo do corpo era a pureza do olhar que contemplava o cartaz, serão isso as fases da vida? Por momentos não via os braços, via asas, por segundos não via a pele, via a transparências das camadas da derme, entrava no corpo. Tudo sustentado pelo vigor do artista que nos conduzira ao voo mais rasante e a transformação minuciosamente acontecera, não só no artista, mas em mim. Esse voo faz com que nossas verdades interiores sejam desveladas e depois dissecadas, causando metamorfoses em nosso eu, que depois de reveladas voltamos ao círculo da vida. Não sou dançarina, mas hoje eu dancei.

Esboço de Crítica de Malu Rabelo
O título da obra reflete sua estética de pesquisa, oferece ao público a oportunidade de exercitar um olhar de nem mais e nem menos, e sim propriamente aquilo  que se vê, um corpo, um corpo em movimento. Mais apenas um corpo? Não, observa-se um corpo contemporâneo, com movimentos próprios e minimalista, que me leva a reflexão sobre processos criativos, sobre a arte, e como reinterpretá-la.  
A luz simples e natural do ambiente é reveladora, porém discreta  e até ausente aos olhos de quem não a quer ver, mais presente e explosiva na aquarela das asas de uma borboleta que ganha vida através do  pensamento  do bailarino materializado  em movimentos e giz de cera.
No trecho da obra de Ercy Sousa, Imagem- mudança, a sonoplastia tem destaque. Metaforicamente,  este recuso técnico se torna via de acesso e  me remete ao desenho do que é a dança imanente, isto é, através desta linguagem da cena, torna- se possível observar o resultado poético da dissecação do corpo do bailarino.
Suas experiências vividas se misturam a seus movimentos corporais orgânicos e nos revelam imagens que criam ciclos de mudanças e a  cada transição da melodia,  o corpo do bailarino, se deforma para formar movimentos concretos e vitais.
 Ercy, parece-me despretensioso, cria uma coreografia sem início meio ou fim, sem personagens, embora  seu corpo esteja ali em exercício, experimentando e sendo observado,  fazendo  da imagem de seus movimentos uma dança.
Eis então o plano da imanência?
Esboço de Crítica de Danielle Francy
Imagem-mudança: uma condição relacional com o mundo
Um homem, uma folha em branco, giz de cera, uma cadeira e a música ao fundo, eis os elementos que constituem a obra Imagem-mudança de Erci Sousa. No entanto, há mais do que elementos nesta obra, há movimentos, emoção, e uma atmosfera que envolveu a mim e creio que a todos ali presentes. Como descrever minuciosamente cada fase ali representada, cada instante presenciado, cada movimento intenso do artista que retrata metaforicamente o ciclo de vida da borboleta? Mesmo sem poder reproduzir na íntegra em palavras, tentei ao menos sintetizar o que ali nos foi apresentado.
Desse modo, Imagem-mudança traz à cena o artista Erci Sousa que dá início à sua performance em pé e de frente para o público, com o olhar fixo a vislumbrar todos. Em seguida e de costas para os espectadores, se põe a riscar uma folha de papel em branco que é colocada em uma cadeira sem que vejamos a imagem ali projetada. Começa, então, o processo de metamorfose.
Ao som de uma canção com ritmo lento o artista move suas mãos, a princípio, com movimentos minimalistas e semelhantes aos passos de uma lagarta. No decorrer da apresentação esses movimentos, passam a fazer parte do corpo do artista, como num processo que me fez lembrar o contorcionismo, visto que Erci Sousa encena as fases da borboleta em seu casulo e para isso precisa executar movimentos circulares. Cada momento da performance do artista nos faz, mesmo sem conhecer profundamente, ter uma ideia do que acontece durante as fases de metamorfose da borboleta. No final da performance o artista expõe a todos a imagem de uma borboleta desenhada na folha no início da apresentação. 
A partir desses elementos envolvidos na obra Imagem-mudança e de toda a atmosfera criada ao longo da apresentação veremos que a obra em questão não se limita apenas a representar as fases da borboleta, mas sim a mostrar a relação do homem com o meio que o cerca. Considerando o artigo da doutora em artes cênicas Ana Flávia Mendes sobre a Dança Imanente, podemos ratificar tal afirmação com o seguinte fragmento: “O corpo é tido como matéria-prima para a coreografia, porém sem deixar de compreender sua condição relacional no mundo, tendo em vista que este corpo não existe sem outros corpos.” Podemos dizer, então, que o artista, mesmo atuando só, não é o único responsável por sua performance, mas sim o conjunto de experiências vividas e de suas relações com o mundo.
Assim, Imagem-mudança revela em si o conceito de imanência abordado por Ana Flávia Mendes, no qual a mesma afirma que “falar em imanência implica considerar a potencialidade transformadora de experiências de encontros, isto é, de relações”, pois “o indivíduo não é individual, mas produto e produtor de trocas com o meio que, por sua vez, compreende outros indivíduos”. Logo, a meu ver, podemos dizer que as possíveis experiências vividas pelo artista influenciaram sua obra do início ao fim, refletindo não só a metamorfose da borboleta, mas também a metamorfose pela qual todo ser humano passa durante sua vivência.
 A obra Imagem-mudança é realmente tocante no sentido de envolver o público e acredito que esta afirmação de Ana Flávia Mendes nos faz compreender melhor esta sensação: “o indivíduo não é individual, mas produto e produtor de trocas com o meio que, por sua vez, compreende outros indivíduos”, ou seja, indivíduos diversos, mas que contribuem de forma determinante para o todo da obra.

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Joga pedra na Geni, Geni! – Por Raphael Andrade

Credenciais do Autor: Graduando em Licenciatura em Teatro – UFPA.  
      Os alunos do primeiro ano do Curso Técnico em Ator da Escola de Teatro e Dança da UFPA, apresentaram no encerramento da disciplina Técnicas Corporais I e Voz e Dicção I o exercício dramático da obra indutora: “Toda nudez será castigada” de Nelson Rodrigues com a temática “Falo de  Genis” com a direção do Prof. Msc, Edson Fernando e Marton Maués.
Penúria, arena em forma de quadrado lembrando um quarto, atores distribuídos ao redor, clima de suspense paira sobre os espectadores, com a ruptura do tom sepulcral no primeiro acorde de “Geni e o Zepelin” de Chico Buarque de Holanda. Gritos, sussurros audaciosos, dão ao público uma “palinha” do que está por vir. São Genis tristes, putas, sexualizadas, vingativas e marginalizadas pelas pedras dos tabus jogados pelas mãos que se escondem.
       A minoria das interpretações foram mal executadas, mas isso é apenas um detalhe, haja vista que era o primeiro exercício dos atores e o nervosismo é inerente.
O teatro do desagradável estava exposto na frente do expectador, fumaças de cigarro, terços que sensualiza pelo corpo, vinho jogado no chão, nos atores e na platéia. Ligados pela Nudez – Nudez esta castigada pelos burburinhos do público presente. A temática da apresentação não fugiu em nada do texto escrito há 50 anos por Nelson, Toda nudez será castigada mostrando-nos esse contexto da vida, que todos nós tentamos esconder, jogadas de uma forma desagradável para quem presencia as cenas.
A prostituta Geni é o enfoque da temática. Coragem exacerbada, essa é a palavra para definir as cenas, “dar a cara a tapa,” para as críticas posteriores, coragem da nudez, das mordidas pelo corpo, do toque na genitália e da exposição de cada ator com essa teatralidade sem julgamentos e pudores, que quebra qualquer tipo de conceitos sobre o certo e errado. Acredito que o ponto baixo da apresentação são os objetos das cenas, (vinho, terço e cigarro) todos praticamente propuseram este artifício para fazer a cena.
O texto dito na íntegra só vem somar com a teatralidade de Nelson Rodrigues, que nos mostra de forma simples e mitológica, esses tabus impostos pela religião de outrora... Outrora? Não! Em pleno ano de 2015 essas barreiras de pudores estão intrínsecos na maioria da sociedade. Quem presenciou “Falo de Genis” saiu da sala com um exemplo de libertação literária, teatral e, sobretudo da vida como ela é.

03.05.2015

sábado, 4 de abril de 2015

Curso de Crítica em Teatro e Dança - recepção da obra Internamente

Detalhes da apresentação de Karina Castro - Internamente. Fotos: EDson Fernando
O silêncio e o vazio do palco compõem a paisagem inicial da dança(?) de Karina Castro; a cadeira do espectador (somente um por vez), o smartphone e o fone de ouvido encerram-nos na angustiante atmosfera provocada pela desconexão entre os elementos propostos: àqueles que vem a coreografia(?) sem ouvir a música, fruem(?) ou apenas são espectadores de um ato único e inusitado? A pagina em branco inicialmente proposta parece ser timidamente invadida por coloridos diferentes, captados na sutil aliança de olhares e sorrisos entre a dançarina(?) e o privilegiado que por um minuto porta o fone de ouvido. As peças desse quebra-cabeça proposto por Karina podem ou não se encaixar. A recepção desta obra – elaboradas pelos participantes do Curso de Crítica em Teatro e Dança – nos ajudam nas respostas.    

Recepção de Louise Bógea
Audácia
Quando a dançarina Karina entrou na sala, a minha impressão foi de uma jovem descolada naquele estilo hip-hop, que traria a todos muita agitação, sendo quase injusto ter de observá-la sem uma música. Pensei que o seu encanto seria roubado, mas eu estava enganada. Ao assisti-la, ainda da plateia percebi que os seus movimentos repentinamente bruscos e o seu olhar audacioso - sem desgrudar do seu observador particular - prendiam a atenção. Notei que, mesmo o observador sentado e ouvindo música, encontrava-se inquieto, enquanto que a artista parecia estar em sua total área de conforto. A cada vez que um participante entrava no mundo de Karina, era recebido com o seu talento, e imagino que cada um deve ter tido uma quase singular recepção dentro de si: desde sentimentos alegres até sensuais e melancólicos. Isto se deve à criatividade e admirável capacidade de improvisação da artista, ao expressar-se tão habilmente. Quando me tornei sua observadora, escolhi a música I see fire, de Ed Sheeran, e eu realmente pude ver um pouco do seu universo em chamas, que fez, principalmente, alguns dos rapazes demorarem de retirar aquele fone de ouvido. Em última análise, acredito que a plateia quase se levantou para ir ver Karina mais de perto, para se queimar também e se perder internamente em seus encantos.

Recepção de Álvaro de Souza
“Externamente”
Movimentos conexos – desconexos; grandes – pequenos; exagerados – sutis; e a dança. Dança? Gestos? Afinal, o que é dança?
Do lado de fora uma sensação, ao colocar o fone de ouvido, a interação. Assim é o movimento externamente do trabalho “Internamente” de Karina Castro. Um trabalho onde você tem dois momentos, a observação de movimentos de um corpo no espaço, que hora é bem marcado e hora, me pareceu um pouco perdido nesse espaço. Porém, um trabalho carregado de um vasto conhecimento e de uma partitura corporal, que impressiona, e que em alguns movimentos remete aos movimentos do cotidiano, outra a movimentos que não tem ao certo um sentido, apenas levado pelo que a articulação do corpo possibilita fazer, ou seja, o movimento pelo movimento, embalados pelas músicas que estão “internamente” gravadas na memória da dançarina e impregnadas no seu corpo. Movimentos que em alguns momentos são carregados de uma forte energia e uma força tamanha, entretanto, em outros momentos ela se perde, pela sutileza dos pequenos e frágeis gestos.
Assisti, participei e sai me questionando. Afinal o que é dança para Karina Castro? De onde vem a fluidez dos movimentos, que ao colocar o fone de ouvido, vão se encaixando nas batidas da música ouvida por mim no fone de ouvido. Será que é contar os compassos dos movimentos e isso de alguma forma ta ligado com os compassos das músicas?  É a batida do coração? Lembrei-me de uma experiência que eu tive com o projeto “Pau e Lata”, coordenado por Danúbio, em Natal no Rio Grande do Norte, quando o professor-coreógrafo nos disse, que o ritmo esta dentro de nós, e no inicio da aula, nos pediu para colocar a mão no coração e escutar o som da batidas, para nos fazer lembrar que todos nós temos ritmo, que o corpo esta sempre em movimento provocando sons e sensações, temos apenas que aprender a escutá-lo.
Essa lembrança me fez pensar na execução dos movimentos de Karina, que dança parecer estar conectada ao som das batidas de seu coração, apesar de alguns minuciosos e pouquíssimos movimentos, não estarem em perfeita harmonia com as batidas da música, ouvida no fone de ouvido, mas que não tirou o brilho e nem a magia de seu trabalho, que me fez viajar nas minhas idéias e logo imaginar um grande espetáculo, onde todos os espectadores, cada um com um fone de ouvido, ouvindo a música de sua preferência, e no palco, um corpo de bailarinos desenvolvendo os mais diversos movimentos corporais num espetáculo renovador.
Internamente sai extasiado, com a vontade de ficar ali ouvindo e assistindo a dança de Karina Castro, vontade quase incontrolável de entrar e dançar junto com ela, se não fosse pelo dedo do tempo, que me impediu e me trouxe de volta ao movimento externamente.

Recepção de Danielle Francy
A obra “Internamente” me fez pensar se, ao colocar o fone de ouvido, a música que iria tocar estaria de acordo com a dança interpretada por Karina Castro, e assim aconteceu. Cada gesto, cada passo, cada movimento feito pela dançarina acompanhava a melodia daquela música que, mesmo escolhida de forma aleatória, parecia ter sido escolhida a dedo por Karina.
Com um figurino básico e talvez o menos a ser observado, o que fala mais alto são os movimentos e o olhar com o qual Karina Castro envolve quem está à sua frente.
As batidas da música, desconhecida para mim, tomou uma magnitude ao longo de 1 minuto que foi rapidamente interrompido sem, no entanto, diminuir a sensação contagiante daquele momento. Se for essa a sensação que a obra “Internamente” deve provocar dentro do expectador, com certeza alcançou seu objetivo.

Recepção de Andrey Gomes
O teatro em sua natureza serve ao ator, sua engenharia é construída em torno dele, embora dependa da conexão com o público, propostas como a de Karina Castro rompem a 4° parede e atingem os limites da subjetividade.
Uma cadeira e um celular com fone de ouvido compõe a cenografia - somos convidados a selecionar uma música em meio às opções disponíveis no aparelho. A performance parece mais acompanhar a emoção de quem assiste, do que o ritmo da música; a conexão é tão precisa que tudo parece sincronizado, sensação de projeção onírica ensaiada em nossa intimidade.
A atriz dança e representa, ora movimentos clássicos, ora contemporâneos, uma performance única para quem vê e sente que o âmago é o objeto a ser atingido; ao levantarmos da cadeira, nos afastamos da experiência que antes infusa e imaginada internamente, tomou forma e correu livre em uma realidade que só na arte podemos penetrar.

Recepção de Paula Barros
Catarse
Como foi seu dia? Todos estão bem? Algum problema? O que te leva a ouvir música? E no fim qual o benefício da música sobre você? Ao sentar e ter que escolher uma música dentre muitas e em apenas um minuto observar a dançarina se expressar a minha frente, só posso dizer que o olhar penetrante de Karina e a música escolhida me despertou um choque de sensações diversas, que se deu através do meu estado emocional, com as emoções e a memória corporal da dançarina representado por seus movimentos. E por fim, as emoções podem ser expressa por uma palavra: provocante. Mas, a sua palavra pode ser outra, pois afinal cada espectador em um minuto tem a oportunidade de observar pelo seu olhar a catarse nos movimentos de Karina.

Recepção de Darciana Martins

O que falar de algo no qual me vejo constantemente, como atribuir desvalores a ao trabalho de alguém que tenho um apego, me vejo perdida nas próprias palavras quando me deparo no trabalho da Karina, ver como é difícil falar do trabalho de pessoas que você admira, trabalha, vive junto.

Quando ela propõe um trabalho chamado internamente onde às musicas embalam e conversam com teu interior, com teu corpo, tuas vivências, com o que ela dança pra você em particular. E como dançar todos os dias dentro do ônibus indo para aula, onde alguns expectadores percebem a sua dança interna e outros não...

Quanto o que para muitos parece loucura, improvisação, performance, para mim e meu despertar, meu bom dia para a vida. A Karina me faz entender que temos mais em comum do que eu imaginava, pois é difícil fazer com que os outros entendam a nossa essência, nossa dança.

Recepção de Carla Baía
 
Ao começar a apresentação, fiquei um pouco incomodada com a disposição das pessoas em relação à Karina Castro. A meu ver o fato das pessoas estarem vendo às outras assistindo a apresentação, influenciaria de algum modo como aquela informação seria recebida e acabaria com aquele “gostinho de surpresa”, esse foi o meu primeiro pensamento ao presenciar aquela cena.

Quando me senti mais confortável em ir, me levantei e sentei na cadeira. E naquele momento pude perceber o quanto tava enganada em relação ao meu primeiro pensamento. Pois naquele instante era apenas eu, a música e a Karina, lá dançando conforme ao que eu ouvia. Acredito que isso só foi possível porque o fone de ouvido tem esse poder de nos isolar do que acontece ao nosso redor.
Ao selecionar a música, não escolhi algo especifico, apenas fui à primeira música que estava ao alcance do meu dedo e quando cliquei, olhei para a Karina Castro, ela estava dançando lentamente, no mesmo ritmo da música, parecia que foi ensaiado, porém não foi o que aconteceu e era o que me deixava estática a observar cada movimento executado eu sentia que havia uma ligação entre nós, mas não sabia dizer o que era.
Ao termino da apresentação ficaram umas indagações em minha mente, afinal de contas, o que levava ela a fazer os movimentos que ela fazia? Será que ela imaginava uma música e dançava? O que levou ela a fazer esse trabalho. E quando finalmente chegou a hora dos comentários eu finalmente pude acabar com as minhas duvidas.A cada resposta dada por Karina Castro iam se preenchendo as lacunas de duvidas que existiam. Mas entre as respostas a que mais me chamou a atenção foi o que levava ela a executar os movimentos, nesse momento vi duas de minhas perguntas serem respondida e então eu pude entender.
Karina falou que não pensava em algo especifico, apenas procurava manter-se ligada com a pessoa através do olhar, procurando passar nos movimentos o que recebia em seu corpo através desse ponto de ligação. E foi quando clareou e eu abrir meus olhos com um ar de espanto, naquele dia em especial eu não estava bem, estava um pouco e perdida nos meus pensamentos tentando achar resposta de algo que eu não sabia o que era.
A música eu me lembro perfeitamente o nome, “amor de índio”, nunca tinha ouvido antes, mas gostei assim que ouvi, porque ela se conectava com os movimentos feitos por Karina, com o estado que eu me encontrava naquele momento, com o olhar que eu transmitia e parando agora para pensar lembro-me que era o mesmo olhar que tava no semblante da Karina, era como se eu tivesse me denunciando e pondo para fora o que eu não queria admitir nem para mim mesma. Era eu vendo diante de mim aquilo que eu estava guardando ou escondendo, não sei ao certo, mas era só meu ninguém sabia. Estava lá intimamente.

Recepção de Silvia Teixeira
Play ou Corda?
 Girei a chave para dar corda à música da caixinha para tocar e foi então que a bela bailarina começou a dançar, mas seu bailado era diferente da pequena boneca do porta joias que ganhei quando fizera meus quinze anos.
Em uma caixa, a jovem encontrava-se,  na caixa cênica do Teatro Universitário Cláudio Barradas; e só iniciava seus passos dançantes quando alguém apertasse o play para tocar a sua música. Que música? Que somente minha pessoa estava escutando, e ninguém mais naquele teatro. E assim a moça apresentava-se ao  público, que deveria ir um a um sentar-se à frente e próximo da mesma. Com uma lista de músicas a escolha, e um fone para os ouvidos, a bailarina apresentou-se por um tempo estipulado de um minuto para cada pessoa.
Então escolhi minha música para embalar a dançarina e apertei o play com a sensação de ter dado corda, e a jovem começou a dançar somente para mim. Confesso que em dado momento, procurei ver se a mesma estaria com algum ponto de Bluetooth e obtendo acesso ao som que era extraído do aparelho celular, mas não encontrei, só então  percebi que seu corpo emergiu com sua própria musicalidade. Sem as sapatilhas e os famosos “thu thu” do figurino da bailarina clássica, encontrava-se a dançarina desprendida do Equilíbrio de Luxo ou do Equilíbrio no Desequilíbrio - Um dos princípios que retornam de Eugênio Barba, onde os bailarinos da cultura oriental, precisam repetir inúmeras vezes, até por uma vida inteira os movimentos para obter a liberdade .
Não é a teoria válida para a jovem bailarina, sua performance fluía desprendida de técnicas específicas rompendo  com uma coreografia pronta e um roteiro pré-estabelecido, utilizando o improviso para lhe dá  liberdade de expressão, sendo uma das características da dança contemporânea.
Ao encontrar-me sentada em uma cadeira e receptar a obra “Internamente” provocou-me outra sensação diferente da recordação da caixinha de música: A de  ser um homem; um verdadeiro alemão pós Segunda Guerra, que utilizou-se das danças contemporâneas para orgias, senti-me que havia pago para a prostituta  dançar; aí já não apertei e play e nem tão pouco dei corda, tive a sensação de que tinha um chicote na mão que obrigava a jovem ser ousada e sensual.

Recepção de Roberta Castro
A performance de Karina Castro  é no mínimo provocadora por não ter uma coreografia pré-conecebida aonde o único aspecto determinado é o tempo de duração da performance, o qual tinha duração de  1 min cronometrado pela estagiária do curso.
Uma caixa amplificada e um projetor era o que delimitava o espaço cênico do espaço “sala de aula” diferenciando e ao mesmo tempo borrando a imagem do restante dos expectadores localizados num segundo plano, os quais tinha relação indireta com a apresentação. Nesse espaço cênicotinha uma cadeira, um smartfone com inúmeras músicas que poderiamser escolhidas aleatoriamente pelo expectador, músicas que segundo Karina Castro tinham sido preparadas de modo aleatório misturadas com sua playlist pessoal.
De forma bem despojada, vestida de bermuda, camiseta, tênis e cabelos soltos a artísta realiza sua dança para um único expectador, o qual se tornava co-autor da obra a partir do momento que se sentava naquela cadeira. 
Em cada sessão uma relação diferente, para alguns ela sorria, outros encarava brincava com seu corpo passando por diversos planos e níveis da Dança gerando séries coreográficas elaborando histórias e estímulos que induziam sua dança, uma composição que surgia do Acaso alterando as ações da performe e as concepções do expectador.
A técnica do Acaso são séries coreográficas que a princípio não querem comunicar nada, é o movimento pelo movimento, mas que mesmo sem querer por sua casualidade fazem algum sentido, que foi o que ocorreu com alguns expectadores que relataram suspeitar de que a intérprete Karina Castro tinha uma coreografia para cada música e de que ela sabia qual música tocava no fone deles.
Com um sorriso para alguns aquilo foi um momento de encantamento, e para outros um momento de confusão.Mas o que deixara confusas, será a desconexão entre música e dança? Será o figurino? O que será que passava nas cabeças dessas pessoas onde em grande parte acredito serem leigas no que diz respeitoa diversidade de linguagens em dança.
Tudo isso me questiona levando-me para uma única questão, o público. Será que temos um público preparado para a recepção desse tipo de trabalho? Até quando vamos ter que nos deparar com esse tipo de reação. Será que não esta na hora de talvez começar a se criar estratégias de treinamento para esse público?
Diante dessas questões provocadoras acredito que mesmo que para alguns aquilo que Karina fez não tenha feito menos sentido, penso queisso tenha sido objetivo dela, provocar e provocar.